Amazónia. Pulmão do mundo vale 8 mil milhões por ano se o deixarem intacto

A maior floresta tropical do mundo é responsável - direta ou indiretamente - por 70% do PIB de toda a América do Sul.

Os benefícios económicos de evitar o desflorestamento da Amazónia são de 8,2 mil milhões de dólares por ano. As contas foram feitas num estudo de economistas e engenheiros agrónomos publicado no ano passado. O documento refere não só o efeito direto da floresta nas várias economias da sua zona circundante como também os benefícios a longo prazo, incluindo a exploração de energias sustentáveis e o papel preponderante da Amazónia na manutenção do clima, evitando desastres naturais, que são desastrosos para o planeta e também para o sistema económico mundial.

"Analisando o cenário puramente económico, a floresta deve ser salva, sem qualquer margem para dúvida", indica o relatório, publicado na revista Nature, no passado novembro. Os benefícios no longo prazo ultrapassam até os benefícios que o desflorestamento pode vir a trazer no curto prazo. Calcula-se que o desmatamento da Amazónia provoque perdas anuais de 422 milhões de dólares para agricultura, por provocar longos períodos de seca, mesmo que também permita uma maior exploração agrária, em termos geográficos.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo, com uma área de 5,5 milhões de quilómetros quadrados, sendo maior que a totalidade da área de todos os Estados-membros da União Europeia. O seu impacto como regulador ambiental - e como fonte de receitas para as economias locais - estende-se por todo o continente, estimando-se que a floresta seja responsável, direta ou indiretamente, por 70% do PIB de toda a América do Sul. Emprega dezenas de milhões de pessoas e, para além disso, é a casa de 30% de todas as espécies existentes no planeta.

Com fortes índices de humidades durante praticamente todo o ano, a Amazónia tem também os seus períodos secos, de julho a setembro, altura mais propícia a incêndios. Contudo, o número de fogos este ano tem sido anormalmente alto. De acordo com o Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), citado pela Globo, as queimadas no Brasil, de janeiro a agosto, aumentaram 82% em relação ao ano de 2018. Foram 71.497 focos neste ano, contra 39.194 no ano passado. São os valores mais altos dos últimos sete anos. O anterior recorde tinha sido em 2016, com 68 mil fogos.

Para além da época seca, a Amazónia enfrenta outro problema: o Presidente Jair Bolsonaro, que assumiu a liderança do país há oito meses e tinha prometido, no seu programa eleitoral aliviar a legislação ambiental. Sob a presidência de Bolsonaro, o ritmo da desflorestação da Amazónia aumentou drasticamente. No mês passado, o desmatamento foi 278% mais alto do que em julho de 2018.

As ONG têm sistematicamente chamado a atenção internacional para os resultados que as políticas de Bolsonaro estão a ter na Amazónia. Como resposta, o presidente acusou-as de estar na origem dos violentos incêndios deste ano. "Pode estar havendo, sim - pode, não estou afirmando, - ação criminosa dessas ONG para chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o Governo do Brasil. Essa é a guerra que nós enfrentamos", afirmou na quarta-feira.

* jornalista do Dinheiro Vivo

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