Altice separa negócios nos EUA e na Europa para acalmar credores

A empresa francesa, dona da Meo, garantiu que no centro da sua estratégia está a "recuperação operacional e financeira em França e em Portugal"

A Altice anunciou ontem mexidas profundas na sua estrutura empresarial e de imediato surgiram sinais de alívio (mas também algumas campainhas de alarme) face à decisão da dona do Meo em proceder a um spinoff entre a Altice USA e a holandesa Altice NV, que passará a chamar-se Altice Europe. A separação será efetiva a partir do final do primeiro semestre de 2018, após receber luz verde dos acionistas e dos reguladores.

As ações da empresa subiram quase 10%, na sequência do anúncio da separação, mas os analistas também viram com bons olhos a decisão. "Esta medida irá certamente apaziguar os nervos de muitas pessoas e permitir que ele [Patrick Drahi, fundador da companhia] continue a expandir os seus negócios para as áreas que pretende. De alguma forma, tem de conseguir equilibrar o seu império", disse Freddie Lait, especialista em investimento da Latitude Investment Management, citado pela Bloomberg. Na visão deste analista, a separação permitirá à Altice USA continuar o seu caminho de forte expansão e investimento sem a interferência das dificuldades sentidas pela empresa-mãe na Europa, onde Drahi procura acalmar as preocupações dos investidores (com a Goldman Sachs a encabeçar a lista dos principais credores) face às dificuldades de pagamento da dívida do grupo, que já ascende a 51 mil milhões de dólares.

No entanto, os analistas receiam também que a fragmentação do grupo torne as diferentes partes potenciais alvos de compras hostis. "A independência da Altice Europe faz que seja mais fácil a sua venda [aos rivais franceses] Bouygues ou Iliad", prevê Stéphane Beyazian, da consultora Raymond James, citado pelo Financial Times, avançando, no entanto, que uma eventual venda não acontecerá a médio prazo, tendo em conta que isso implicaria vender o negócio a preços de saldo.

Em comunicado, a Altice revelou que "a separação vai permitir que cada negócio fique mais focado nas oportunidades de criação de valor no seu respetivo mercado e vai assegurar maior transparência para os investidores". As duas empresas vão passar a ser geridas em separado, sendo que Patrick Drahi, fundador da companhia, irá manter o controlo de ambas (52,2% da Altice), estando "comprometido em manter-se como dono a longo prazo". Assim que a operação estiver concluída, os acionistas da Altice vão receber um dividendo de 1,5 mil milhões de dólares em dinheiro. Desse montante, 900 milhões de euros caberão à Altice holandesa, que pretende utilizá-lo para pagar previamente 625 milhões ao Altice Corporate Financing, órgão que financia o grupo de telecomunicações.

Por cá, o presidente executivo da Altice Portugal garantiu que a reestruturação "não altera em nada" o foco estratégico da empresa, num e-mail enviado aos trabalhadores. "E o que significa esta mudança para nós, aqui em Portugal? Quase nada [...], os nossos acionistas mantêm-se os mesmos", escreveu Alexandre Fonseca. A garantia foi dada pelo próprio fundador do grupo, Patrick Drahi, que será o presidente executivo da Altice Europe e o presidente do conselho de administração da Altice USA. "No centro da nossa estratégia está a recuperação operacional e financeira em França e em Portugal", assegurou. Perante este cenário, um grupo de 60 personalidades, entre as quais jornalistas, advogados e deputados, lançou uma petição para "travar" a Altice, referindo-se ao "despedimento de centenas de trabalhadores" da PT. Também ontem, a empresa garantiu que vai analisar "oportunamente" a proposta de revisão salarial dos sindicatos, que prevê aumentos de 50 euros.

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