Alívio concedido pelo governo no Natal ajudou economia a evitar nova recessão

Governo salvou parcialmente o Natal com restrições mais leves, portugueses consumiram mais eletricidade, mas novo confinamento ameaça retoma de 2021, dizem as Finanças

Portugal e outros sete países da União Europeia (UE) foram os únicos que evitaram um mergulho numa nova onda recessiva na reta final de 2020, mostrou ontem o Eurostat.

As "restrições mais ligeiras" do último trimestre do ano e, sobretudo, na época de Natal (horários mais alargados, permissão de circular entre concelhos, concentrações familiares sem limite de número de pessoas, etc.) juntamente com o facto de os agentes económicos já estarem mais adaptados às limitações da pandemia e de os apoios públicos serem amplos e conhecidos terão sido ajudas inestimáveis que tornaram a economia mais "resiliente" no quarto trimestre, referem alguns economistas e instituições.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), Portugal evitou uma recessão, tendo conseguido crescer 0,4% entre o terceiro e o quarto trimestre deste ano.

Esta marca acabou por surpreender a esmagadora maioria dos analistas, que estava à espera de uma contração significativa da economia portuguesa. Isto colocaria o País à beira de uma nova recessão técnica, isto é, dois trimestres consecutivos de perda de riqueza.

Segundo o Eurostat, além de Portugal, também Lituânia, Letónia, Suécia, Espanha, República Checa, Bélgica e Alemanha registaram uma expansão em cadeia no quarto trimestre de 2020. Já outras grandes economias, como Itália e França, recuaram no período de outubro a dezembro, arrastando o crescimento da UE e da zona euro para terreno negativo.

Nesta primeira estimativa do Eurostat só foram apurados dez países. Faltam 17 para termos o retrato completo da União. No próximo dia 16, o gabinete europeu de estatísticas divulgará uma ronda mais completa de estimativas.

No caso de Portugal, foi uma surpresa pela positiva, embora o ritmo da economia seja hoje muito negativo quando se compara com o mesmo período do ano anterior.

No quarto trimestre, o produto interno bruto (PIB) real português recuou 5,9%, levando a contração anual até aos 7,6%.

Ou seja, a economia emagreceu 15,4 mil milhões de euros em termos reais face a 2019, indicam cálculos do Dinheiro Vivo com recurso aos números oficiais do INE. A perda equivale a mais de 8% do total de riqueza produzida no ano passado.

Em todo o caso, a retração anual de 7,6% é menos agressiva do que a previsão do governo, que estava à espera de uma queda de 8,5% no produto de 2020. Ainda assim, o número ontem avançado pelo INE traduz-se na recessão anual mais agressiva dos últimos 50 anos.

Confinamento vai corroer retoma deste ano, diz ministro das Finanças

Mas o Ministério das Finanças já referiu que podia ter sido pior. Houve partes do ano que resultaram melhor que o esperado, designadamente o verão.

Ontem, o ministro das Finanças, João Leão, confirmou que "as compras e os levantamentos por Multibanco, por exemplo, aumentaram 20,3% no segundo semestre face ao primeiro", que "o consumo de eletricidade teve um comportamento favorável, com um aumento de 1,2% no mês de dezembro" e que "o desempenho da atividade mais favorável do que esperado está também refletido no mercado de trabalho".

Também o INE vem agora mostrar que o último trimestre do ano acabou por ser melhor do que se estava à espera.

"Comparativamente com o 3º trimestre de 2020, o PIB aumentou 0,4% em volume, após as fortes variações de sinal oposto nos trimestres anteriores (-13,9% e +13,3% no segundo e terceiro trimestres, respetivamente)."

Na reta final do ano passado, "os contributos da procura interna e da procura externa líquida para a variação em cadeia do PIB foram ambos positivos". Recentemente o INE deu conta de uma "ligeira recuperação" da atividade turística em dezembro. Ou seja, o turismo dos não residentes caiu, mas menos do que em novembro. O mesmo aconteceu com o turismo dos residentes.

De acordo com os dados disponíveis, o final de novembro, marcado pelas iniciativas da Black Friday, foi menos negativo em termos de consumo. Depois veio o Natal, época que o governo decidiu "salvar" parcialmente, tendo levantado temporariamente algumas restrições aos horários comerciais e à circulação das pessoas.

O novo indicador diário de atividade económica do Banco de Portugal mostra, claramente, um desanuviamento da atividade no final de novembro e depois na época do Natal.

No entanto, "após o início do confinamento decretado a 15 de janeiro, o indicador diário de atividade económica aponta para uma deterioração marcada" nos dias que se seguiram ao fecho anunciado pelo Governo. Escolas incluídas.

Para Teresa Gil Pinheiro, economista do Banco BPI, a evolução da economia no quarto trimestre "superou as expectativas do BPI Research e do consenso dos analistas, que previam contração da atividade no trimestre".

"Três fatores justificarão esta resiliência da economia: o primeiro prende-se com o facto de as restrições terem sido mais ligeiras do que no segundo trimestre 2020; o segundo com a adaptação dos agentes económicos ao novo ambiente; e em terceiro lugar os apoios, amplos e já em funcionamento", diz a analista do BPI.

O núcleo de estudos económicos da Universidade Católica (NECEP) previa uma quebra do PIB em cadeia de cerca de 2,8% no último trimestre de 2020.

Para estes economistas o resultado positivo revelado pelo INE deve refletir "o suporte à manutenção de muitas atividades está a ocorrer com recurso a apoios públicos, aumento de endividamento e mobilização de património e poupanças individuais", mas alertaram esta via "não é sustentável de forma prolongada".

Costa reconheceu que alívio do Natal pode ter sido um erro

Entretanto, o primeiro-ministro, António Costa, já reconheceu que o alívio concedido no Natal pode ter sido um erro porque contribuiu para a disseminação da covid-19 e das novas variantes do vírus.

Em declarações na TVI24, Costa disse que "se tivéssemos conhecimento do quadro da variante inglesa, teríamos definido regras mais apertadas no Natal. Na altura não tínhamos esse conhecimento. Toda a gente concordava com as regras do Natal, tínhamos empresários da restauração à porta da Assembleia da República".

Como referido, o Banco de Portugal mostra que o novo confinamento para responder à terceira vaga da pandemia já está a rebentar com a atividade económica em janeiro.

E ontem, João Leão avisou que o corrente ano já está a sofrer o primeiro embate. "O novo confinamento generalizado, decretado no início de 2021, terá efeitos negativos na atividade económica nos primeiros meses do ano, que implicarão uma evolução anual menos favorável do que anteriormente antecipado.".

O governo previa (no Orçamento de 2021) uma retoma de 5,4%, ritmo que não vai ser alcançado, diz o ministro.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do DInheiro Vivo

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