Produtores ameaçam cortes para travar queda dos preços

Os preços dos alimentos estão ao nível mais baixo em seis anos. Para não falir, os produtores preparam-se para avançar com a redução intencional na produção, garante João Machado, presidente da CAP

Os preços dos alimentos estão ao nível mais baixo dos últimos seis anos e não param de cair desde há 18 meses, alerta a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Para não falirem e abandonarem as explorações, os agricultores ameaçam limitar intencionalmente a produção.

"Veja-se o exemplo do leite e, agora, da carne de porco - os produtores não conseguem vender sem ser abaixo do preço de custo. Todos os dias encerram explorações em Portugal", refere João Machado, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). "Os preços estão de tal maneira baixos que os produtores não aguentam. Preços baixos que nem sempre chegam à mesa do consumidor porque a margem é absorvida pela grande distribuição. Os governos e a própria União Europeia deviam criar regras para controlar essas margens e manter preços justos ao produtor."

João Machado esteve recentemente em Belfast, numa reunião de produtores europeus, norte--americanos, mexicanos e canadianos para discutir o futuro do setor. "Pedem-nos para aumentar a produção em pelo menos 50% porque vai haver mais dois mil milhões de pessoas à face da Terra em 2050. Mas a produção tem aumentado e os preços baixam sistematicamente. Estamos a ponderar se não será preferível limitar intencionalmente a produção para subir os preços - é melhor do que termos escassez definitiva porque os produtores faliram", adiantou.

Nos anos da crise, entre 2008 e 2011, muitos especuladores e investidores voltaram-se para as bolsas de mercadorias e ajudaram a inflacionar os preços, desde o arroz ao café, passando pelos metais, como o aço ou o ouro. Mas a melhoria da economia mundial, a queda do preço do petróleo e a valorização do dólar afastaram os especuladores dos mercados e provocaram um trambolhão nos preços. O índice da Thomson Reuters CRB Commody, composto por 19 mercadorias, caiu 24% só em 2015, tendo chegado a atingir, em meados de dezembro, mínimos desde 2002.

Em Portugal, por exemplo, cerca de 8400 explorações de carne de porco portuguesas estarão em risco de encerrar nos próximos dois meses, eliminando 200 mil postos de trabalho, avisam os produtores. O país é deficitário na produção da carne de porco, suprindo apenas cerca de 55% do consumo, mas há dificuldades no escoamento do produto e o preço oferecido pelos hipermercados é de apenas 1 euro quando o custo de produção ascende a 1,5 euros. "Estamos sujeitos ao terrorismo comercial por parte da grande distribuição", denunciou João Correia, um dos produtores. "A mais pequena cadeia de distribuição portuguesa consegue subjugar o maior agricultor norte-americano", lamentou João Machado.

E as perspetivas da FAO para este ano não são otimistas para os produtores. "A atual análise não sugere uma inversão da tendência de descida dos preços", refere. "A valorização do dólar não dá sinais de abrandar. As perspetivas para os preços da energia permanecem em baixo e, com a incerteza económica em grandes países importadores, como a China, há poucos sinais de aumento na procura", prevê a FAO, ressalvando que "os preços dos alimentos continuam suscetíveis a grandes oscilações dado que fenómenos meteorológicos podem facilmente transformar a abundância em escassez".

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