Alemães não querem os jovens a fugir para Silicon Valley

A assembleia geral de acionistas é aberta a estudantes, que acompanham as últimas inovações da multinacional alemã. Objetivo: construir reputação e evitar a fuga de cérebros

O ambiente à entrada é de festa. Há bares com comida, cerveja, águas e sumos. Parece que vai haver mais um concerto no Olympiahalle, um pavilhão histórico, que foi inaugurado em 1972 para acolher os Jogos Olímpicos. Estamos no maior recinto coberto de Munique, com capacidade para receber até 15 500 pessoas. Mas a música só chega para a semana, com o concerto da Ellie Goulding, ou quando os Muse passarem por aqui, no último dia de março. Agora os protagonistas são outros. Estamos na assembleia geral de acionistas da Siemens.

Faltam poucos minutos para as 10:00 da manhã. Sentamo-nos no segundo balcão e conseguimos ver os 7430 acionistas que participam na reunião magna de um dos gigantes industriais da Alemanha. Os jornalistas podem acompanhar tudo, seja dentro do recinto seja na sala de imprensa. Há até tradução simultânea em inglês. Em Portugal este é um cenário impossível.

Na plateia, as cadeiras são as mesmas onde as pessoas vão sentar-se para ver o concerto de Rod Stewart a 20 de março. Aqui não há artistas nem se dá música. Os acionistas passam os olhos pelo relatório e contas da empresa, que tanto vem em formato informático como num guia disponível em todo o pavilhão. É só ir buscar.

O comando da empresa senta-se numa espécie de meia-lua. Há 30 cadeiras. À esquerda do ecrã gigante, e debaixo de um logótipo meio azul meio verde cor de Siemens, vê-se a nova identidade da marca. Um manuscrito que nos quer "engenhosos para a vida", numa tradução do português possível de Ingenuity for Life. Passaram 20 minutos.

Tudo começa com o discurso de Gerhard Cromme, o chairman da Siemens. Segue-se Joe Kaeser, o CEO. Ouvido em silêncio, o discurso teve alguns aplausos no momento em que se falou do aumento dos dividendos, sempre uma bela melodia para qualquer acionista. O gigante alemão registou, só no primeiro trimestre fiscal, lucros de 1,6 mil milhões de euros (+42%), enquanto as receitas aumentaram 8%, somando 18,9 mil milhões.

A marca está a renovar-se e assume que mudou mais de metade do seu portfólio nos últimos 10 anos. A Siemens quer estar na linha da frente da indústria 4.0, com soluções adaptadas ao gosto de cada um. Exibe, por isso, uma máquina de fabrico de perfumes. É Optima, porque consegue criar entre um e cinco perfumes por segundo. A máquina incorpora ainda um recipiente, como uma espécie de tinteiro de uma impressora, que pode ser substituído consoante as necessidades.

Há uma mistura entre o passado e o futuro. Basta andar mais alguns metros para encontrar um telégrafo de 1856. Pode-se assistir a uma exposição interativa que celebra os 200 anos de Werner von Siemens, o fundador deste gigante industrial. Também encontramos um dínamo elétrico, uma das inovações que contribuíram para o crescimento do grupo.

Von Siemens é destacado na sua biografia como um "empreendedor responsável". O atual líder da Siemens, Joe Kaeser, salientou a aposta em startups. "Silicon Valley é um modo de pensar. Isso não é desconhecido para nós. Faz parte da Cultura da Europa. Temos de a redescobrir e a Europa poderá reforçar essa competitividade no mundo empresarial."

Isto ajuda a explicar os grupos de jovens que encontrámos. "São estudantes com 15 e 16 anos, que estão a entrar no ensino secundário. A Siemens tornou-se uma companhia digital e quer construir uma reputação para que os jovens não pensem em ir para empresas como a Uber ou a Google." Alguns destes jovens que passeiam pelo Olympic Hall serão já uns engenhosos para a vida?

Em Munique (o jornalista viajou a convite da Siemens)