40% dos portugueses não têm margem financeira em caso de agravamento da crise

Um estudo da Deco Proteste revela que, devido à guerra na Ucrânia, 73% dos participantes admitiram que os seus hábitos de consumo foram afetados.

Quatro em cada dez inquiridos pela Deco Proteste dizem não ter margem financeira, se a crise causada pela guerra na Ucrânia se agravar. Apesar disso, sete em cada dez pessoas são a favor das sanções à Rússia.

A Deco Proteste analisou o impacto da guerra na vida dos consumidores portugueses através de um inquérito online realizado em maio de 2022.

A guerra na Ucrânia está a ter impacto no ocidente da Europa continental, acelerando a inflação que se tornou evidente quando se iniciou o desconfinamento da pandemia covid-19 e as pessoas começaram a procurar bens de consumo. Cerca de três quartos dos 1051 participantes revelam que a invasão russa, em marcha desde 24 de fevereiro, tem afetado, pelo menos, parcialmente, a qualidade de vida.

Em comunicado, Ana Guerreiro, das Relações Institucionais da Deco Proteste, destaca as alterações nos hábitos de consumo dos portugueses: "Estamos preocupados com as pressões inflacionistas, aceleradas pela guerra na Ucrânia, que se fazem sentir em áreas tão sensíveis para o dia-a-dia das famílias, da alimentação às atividades sociais e de lazer, passando pelas compras para a casa ou pela saúde. Os portugueses têm adaptado as suas decisões de consumo à medida que temem que o conflito arraste o mundo para um cenário nuclear."

Mesmo com as dificuldades demonstradas, que levam 40% dos inquiridos a dizerem não terem margem financeira ou poupanças que lhes permitam superar um agravamento da crise, 73% das pessoas envolvidas no estudo concordam com as sanções à Rússia e são da opinião de que a União Europeia deve mantê-las, mesmo que afetem também as economias dos Estados-membros.

Conduzido em paralelo na Bélgica, Espanha e Itália, o estudo mostra que a conjuntura está a afetar uma importante proporção de europeus. O receio de gastar dinheiro nestes tempos incertos foi uma das consequências que a guerra trouxe - 81% dos portugueses confirmam esta preocupação. No entanto, a proporção é muito mais baixa nos restantes países incluídos na análise, oscilando entre os 58% da Bélgica e os 63% de Espanha.

Ainda assim, o inquérito aponta para que os portugueses estejam a cortar, sobretudo aquilo que consideram supérfluo. Em termos gerais, a Deco Proteste verificou que 73% das pessoas reconheceu que parte dos seus hábitos de consumo foram afetados. Por exemplo, a alimentação tem sido uma das esferas mais afetadas pela inflação, com mais de metade dos inquiridos a escolherem marcas mais baratas no supermercado, como as das insígnias (53%), e com 40% a cortarem nos alimentos que não entendem como essenciais, como é o caso do álcool, doces e salgados.

Em casa, a água e a energia também são usadas com mais moderação e 46% dos participantes afirmam desligar mais vezes os eletrodomésticos ou evitam mesmo usá-los. Nas deslocações, metade dos inquiridos revelam usar menos o carro e 35% alegam fazer uma condução mais económica. As atividades sociais, culturais e de lazer também sofreram uma redução prudencial e a compra de produtos de lazer e de vestuário está em compasso de espera ou foi mesmo cancelada.

A Deco Proteste constata ainda que um em dez participantes tem passado por mais dificuldades quanto ao pagamento das despesas de educação dos filhos.

Saúde sem poupanças

A saúde é a área em que os portugueses menos ajustes se dispõem a fazer. Segundo os resultados, os cuidados dentários, a compra de óculos ou aparelhos auditivos, as consultas e as sessões de psicoterapia têm sido adiados ou cancelados num moderado número de situações. De entre os inquiridos, 64% dizem-se ainda afetados no plano da saúde mental, com a maioria a estimar a continuação do aumento dos preços da energia (91%) e dos combustíveis (89%), duas variáveis que podem agravar o custo de vida.

Mas os portugueses percebem que não é só pela guerra que os preços estão a subir: 87% consideram que muitos produtos sem relação com o conflito estão agora mais caros. Ao futuro económico incerto, soma-se o receio de um cenário nuclear, presente na mente de 75% dos portugueses, contrastando com a visão dos participantes de outros países europeus - apenas 56% a 67% de belgas, italianos e espanhóis revelam idêntico estado de espírito.

A subida dos preços traz incerteza para o futuro próximo. Quase um em quatro dos europeus que participaram no estudo descrevem a situação financeira do seu agregado familiar como difícil, e 39% afirmam que estão pior do que há um ano. Em termos europeus, são 35% os que dizem não ter margem de manobra financeira, se a situação se agravar, valor ligeiramente abaixo da realidade portuguesa (40%).

Apesar de o panorama não se mostrar favorável, belgas, espanhóis, italianos e portugueses mostram solidariedade com os ucranianos. O futuro dos consumidores está a mudar significativamente e o mesmo se pode dizer do futuro das organizações de consumidores. Para que os europeus não percam liberdade de escolha nem bem-estar, é necessário continuar a desenvolver soluções à medida das suas necessidades, mas também trabalhar com os mais relevantes e responsáveis intervenientes no mercado.

Foram recolhidas as opiniões e as experiências de 4191 cidadãos portugueses, belgas, espanhóis e italianos, com idades entre os 25 e os 74 anos. Os resultados obtidos são representativos das realidades nacionais e refletem as opiniões e experiências dos participantes.

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