Troca de etiquetas tramou Laboratório de Lisboa que continua sem poder fazer controlos antidoping

Erro na etiquetagem de uma amostra-teste comprometeu processo que estava quase concluído e que se arrastava desde fevereiro de 2016. João Paulo Rebelo, secretário de Estado do Desporto, admite recorrer da decisão da AMA de revogar a credenciação no Tribunal Arbitral do Desporto.

O Laboratório de Lisboa foi informado esta quinta-feira que vai continuar impedido de fazer controlos antidoping. Mais de dois anos e meio depois de perder a credenciação, a AMA (Agência Mundial Antidoping) notificou a entidade de que a ​recuperação da credenciação foi revogada. Decisão que, segundo soube o DN, se deveu a um "erro de etiquetagem". Ou seja uma troca de etiquetas em amostras-testes da AMA, que comprometeu todo o processo. "Um erro que do nosso ponto de vista não configura condição suficiente para determinar o encerramento do laboratório", disse ao DN João Paulo Rebelo, secretário de Estado do Desporto.

O governante admitiu a possibilidade de vir a recorrer da decisão da AMA."Estamos de alguma forma surpresos, porque fizemos tudo o que tinha de ser feito. Estamos a avaliar, diria com forte inclinação, para discutir isto ao nível do Tribunal Arbitral do Desporto, porque achamos que temos razão para contestar esta decisão da AMA", acrescentou João Paulo Rebelo, prosseguindo a sua análise: " O processo apresenta falhas nomeadamente do ponto de vista da transparência daquilo que é a análise dos regulamentos que devem gerir a AMA."

"Independentemente" desta decisão da Agência Mundial Antidoping, e de ter ou não o laboratório a funcionar em Lisboa, a "politica antidopagem nunca esteve colocada em causa nem vai estar no futuro", segundo o secretário de Estado do Desporto: "Ou seja, o combate ao doping continua."

Caso arrastava-se há mais de dois anos

Em abril de 2016, após duas inspeções surpresa, o Laboratório de Lisboa perdeu a acreditação por seis meses devido à falta de técnicos, de equipamento adequado e de falta de autonomia do laboratório face à Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP). A suspensão passou depois de mês em mês... até esta quinta-feira. Dois anos e sete meses depois, as amostras dos controlos antidoping feitos em território nacional vão continuar a ser enviadas para laboratórios credenciados em Barcelona, Colónia e Gent.

O laboratório foi então dotado de mais funcionários, a quem foi ministrada formação com vista aos métodos exigidos pela AMA, que enviou uma equipa técnica para fazer um relatório, no qual fez alguns reparos técnicos. Mas depois, todo o trabalho foi por água abaixo. A AMA enviou umas amostras para serem processadas e encontrou o que não queria - uma troca de etiquetas, que a entidade considerou algo "muito grave" e que comprometeu a reputação do laboratório e a recuperação da credenciação.

É normal na fase de avaliação a AMA enviar um conjunto de amostras cegas (anónimas), uma espécie de teste ao funcionamento do laboratório, que tem de avaliar, testar, fazer as análises e que tem de bater tudo certo. E foi neste processo que houve uma troca administrativa na cadeia processual, ou seja, uma etiqueta errada numa amostra, o que na realidade significaria dar um atleta como testado positivamente quando não o era. Um erro que equivale a uma penalização no Código da Agência Mundial e logo numa altura em que o laboratório tentava recuperar a credenciação mundial.

Na opinião do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e do Governo, "as exigências" da AMA foram "todas cumpridas à risca" e esse erro aconteceu numa fase de testes, o que não deveria penalizar o laboratório.

Um laboratório fantasma de um milhão de euros

A suspensão da credenciação em 2016 implicou mudanças de fundo no laboratório, de forma a poder receber de novo amostras para análise. Mudanças essas que obrigaram a obras e investimento em pessoas e materiais estimadas em mais de um milhão de euros.

O novo espaço funcionou como um laboratório fantasma durante vários meses. Tanto os técnicos como os demais trabalhadores iam trabalhar normalmente dia a dia na esperança de a curto prazo poderem funcionar em pleno. Uma situação que se vai manter daqui para a frente, com os profissionais a limitarem-se a fazer testes e formação, e a ser alvo de auditorias.

Desde que o laboratório foi suspenso, em 2016, as amostras dos controlos antidoping feitos em Portugal, seja do ADoP ou das competições organizadas no país, vão para laboratórios estrangeiros, credenciados pela AMA, mais precisamente Barcelona, Colónia e Gent. Situação que vai manter-se.