Três anos sem ter o período e tendências suicidas. O relato arrepiante da atleta Mary Cain

A atleta norte-americana denunciou ao 'The New York Times' o inferno que viveu quando foi treinada por Alberto Salazar no famoso projeto patrocinado pela Nike.

A norte-americana Mary Cain foi durante vários anos uma grande promessa do meio fundo do atletismo norte-americano. Em 2013, com apenas 17 anos, apurou-se para final dos 1500 metros do Campeonato do Mundo de Moscovo e deu nas vistas em várias provas da Diamond League, chegando a baixar a marca dos dois minutos em provas de 800 metros. Mas depois de começar a trabalhar sob as ordens de Alberto Salazar, o polémico antigo treinador de Mo Farah que em outubro foi suspenso pela Agência Norte-americana Antidopagem (USADA), a sua vida tornou-se um verdadeiro inferno.

O relato é da própria Mary Cain num vídeo difundido pelo The New York Times, no qual a atleta relata com alguns pormenores o que passou quando integrou o Oregon Project, de Alberto Salazar, um programa patrocinado pela Nike que em outubro terminou após o treinador ter sido suspenso pela USADA, acusado de traficar testosterona e de ter administrado substâncias proibidas a atletas que treinava.

"Era um sonho. Eu queria ser a melhor atleta de sempre. Mas em vez disso fui abusada física e psicologicamente por um sistema concebido por Alberto Salazar e apoiado pela Nike [...] pesava-me em frente aos meus colegas e ficava envergonhada se não tivesse perdido peso. Ele obrigava-me a tomar pílulas contracetivas e diuréticos para baixar o meu peso", confessou a atleta, que chegou a estar três anos sem menstruação e sofreu de síndrome de Rett, uma patologia grave que afeta o desenvolvimento e atinge o sistema nervoso central.

"O peso é obviamente importante no desporto. Mas aprendi da pior maneira: quando as jovens são forçadas a esforçar-se além do normal, surgem vários problemas. Perde-se o período durante uns meses e esses meses transformam-se em anos. No meu caso foram três anos sem ter o período e parti cinco ossos diferentes", confessou.

A dada altura o desespero era tanto, que Mary Cain pensou em suicidar-se, fazendo golpes no próprio corpo, situação que contou ao treinador depois de uma forte discussão em que Alberto Salazar a questionou sobre o aumento de peso. "Sentia-me só e comecei a ter pensamentos suicidas, comecei a cortar-me. Algumas pessoas viram, mas ninguém fez nada. Em 2015 participei numa corrida, não estive bem, estava chuva, e o Alberto gritou à frente de toda a gente que eu tinha ganho cinco quilos antes da prova. Eu disse-lhe o que me estava a acontecer, que me cortava, e ele mandou-me para a cama. Contei tudo aos meus pais e eles ficaram horrorizados. Meteram-me no primeiro voo e disseram-me para deixar aquele inferno. Desde aí nunca mais tentei ser uma atleta olímpica. Apenas quis sobreviver", prosseguiu.

Em 2016, a atleta tentou voltar e classificar-se para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Mas foi 11.ª classificada e falhou o apuramento. Voltou para casa, em Nova Iorque, onde atualmente tenta recuperar do inferno que viveu. E apesar de o treinador ter sido suspenso, Mary teme que os seus métodos continuem a ser utilizados: "Preocupa-me que só mudem os nomes e ponham os antigos treinadores assistentes de Salazar num programa similar."

Em outubro, o treinador Alberto Salazar, que até 2017 treinou o britânico Mo Farah, foi suspenso pela USADA por quatro anos. Em comunicado, a USADA referiu que Alberto Salazar, de 61 anos, foi suspenso "por organizar e instigar uma conduta de doping", acusando o ex-maratonista de ter traficado testosterona e injetado nos atletas o aminoácido L-carnitina acima das doses autorizadas.

Alberto Salazar era o mentor do projeto Oregon, um grupo de treino de alto nível financiado pela Nike e que obteve obtido excelentes resultados no fundo e meio fundo.

Depois de conhecida a suspensão, a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) retirou a acreditação de Alberto Salazar para os Mundiais de atletismo de Doha, a pedido da federação norte-americana.

Salazar foi treinador de vários atletas que disputaram os Mundiais de Doha, entre os quais a holandesa Sifan Hassan, que já venceu os 10.000 metros, e os norte-americanos Clayton Murphy e Donovan Brazier.

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