Xavier foi melhor do que Bruno Fernandes

Esquerdino de 26 anos revolucionou o jogo quando entrou, podia mesmo tê-lo ganho, mas dizer que se superiorizou ao abono de família do Sporting é suficientemente forte. História do empate (1-1) do Tondela em Alvalade

O Tondela empatou em Alvalade frente a um Sporting diminuído pela expulsão de Ristovski (a terceira...) aos 35 minutos. E pela falta de qualidade do futebol. Os leões marcaram cedo, quando já sentiam o perigo a rondar a sua baliza (penálti de Ricardo Costa sobre Luiz Phellype que Bruno Fernandes não perdoou aos 6'), mas os beirões foram sempre um perigo à solta, sobretudo quando Xavier saltou para o relvado. O médio marcou o canto que permitiu a Tomané fazer o 1-1 final.

O Sporting já não sai do 3.º lugar, o Tondela conquistou o ponto que ambicionava para depender apenas de si próprio na luta pela permanência - ganhar ao Chaves na próxima semana garante a manutenção na I Liga. Ou até menos, dependendo do que fizerem os transmontanos na receção, este domingo, ao V. Setúbal. Os leões vão ao Dragão testar a final da Taça (25 de maio) e evitar perder o 'título' de melhor equipa em casa (14 vitórias, dois empates e uma derrota: 44 pontos), que só pode ser ultrapassada, precisamente, pelo FC Porto (14 vitórias e duas derrotas: 42 pontos, mais o que fizer frente aos leões). O Benfica (13 vitórias, dois empates e uma derrota: 41 pontos) podem apenas igualar o rival lisboate se na próxima semana vencerem o Santa Clara.

Se no Sporting brilha, até quando está em quebra, um tal de Bruno Fernandes, médio recordista de golos numa época (agora, 32), no Tondela também há uma espécie semelhante. Xavier, que até começou no banco, destila veneno na relação entre o pé esquerdo e a visão de jogo acima da média. E por pouco não foi um herói coroado com um golo triunfante (no final, Renan negou-lhe essa medalha com uma enorme defesa).

Pepa tinha dito que o Tondela ia atrás do ponto que colocaria a equipa a depender apenas de si própria na luta pela manutenção (igualou o Chaves, que recebe este domingo o V. Setúbal, e visita os tondelenses na próxima semana). E a equipa demonstrou que o discurso do técnico não foi verbo de encher. Se a expulsão de Ristovski potenciou a capacidade da formação de Pepa? Provavelmente, tendo-se notado um leão muito anárquico. Mas quem agrediu o adversário foi o defesa, que igualou os mais indisciplinados do Século XXI...

Entra bem o Tondela (Tomané não conseguiu bater Renan no primeiro minuto, nem logo a seguir num livre direto), entra mal o Tondela. Ricardo Costa não encontrou outra arma que não as mãos para impedir que Luiz Phellype se voltasse para a baliza, derrubando-o. Bruno Fernandes, confiante, atirou para um golo promissor. Afinal, o Sporting ganhava um ascendente que ainda não tinha atingido e podia gerir o jogo de uma forma mais eficaz.

De facto, o Tondela perdeu algum gás, nocauteado pelo golo sofrido. Mas os leões não criavam grande perigo. Então, Ristovski pisou Delgado e foi expulso. Keizer reorganizou a equipa, passando Borja para a direita e recuando Acuña, mas perdeu um homem na frente. No minuto 45', Matthieu teve de derrubar Delgado, que, se não fosse travado, seguiria perigosamente para a área.

E chegou o momento do jogo. Pepa lança Xavier para a segunda parte, tirando João Pedro. O médio/avançado nascido e criado em Guimarães, aos 26 anos, está um senhor jogador. Inteligência, um pé esquerdo invejável, compreensão dos momentos do jogo... O que faz no Tondela, então? Falta-lhe golo - esta época, é a primeira em que chegou aos sete golos. Com golo, seria uma outra versão do senhor dezenas de milhões de euros Bruno Fernandes. Basicamente.

Se o Sporting sofreu, e bastante, na segunda parte, muito se deve a Xavier, embora Tomané e Bruno Pinheiro também tivessem atingido um nível alto (não por acaso, o golo do empate passa pelos três). Curiosamente, foi no meio de alguma sofreguidão que os leões construíram as verdadeiras ocasiões de golo.

Aos 57', Bruno Fernandes não conseguiu bater Cláudio Ramos (servido por um superlativo Raphinha), tal como aos 62' Luiz Phellype, desmarcado por Acuña, ou Matthieu na melhor jogada dos leões (66'). Phellype soltou Rapinha, o brasileiro cruzou com precisão e o central francês, depois de um pique de 50 metros, rematou acrobaticamente para a defesa do guarda-redes contrário.

Entretanto, já Delgado desperdiçara um passe perfeito de Bruno Pinheiro (54') e, aos 60', Jaquité viu Renan andar de gatas atrás de uma bola a que não conseguiria chegar - após o remate do médio, houve um desvio em Gudelj e por pouco não deu o empate. E aos 64', Ricardo Costa quase chegou a tempo de desviar um livre exemplar de Xavier, na cara de Renan.

Logo a seguir, o golo de Tomané. Canto de Xavier na esquerda, desvio de Bruno Pinheiro ao primeiro poste e o ponta-de-lança (11 golos) empurra na pequena área para o 1-1. Não foi surpresa para ninguém, diga-se. De tal forma que Keizer resolve dar mais múscula à defesa: sai Borja, entre o matulão Illori (70').

Mas dois minutos depois, Jorge Fernandes tem um falhanço incrível. Primeiro, a bola ressalta no braço de Matthieu (que nem o árbitro, nem o VAR consideraram irregular), depois, o central, na cara de Renan, falha literalmente o remate. "Nas orlehas da bola", conhece? Isso, Jorge apanhou a bola de raspão e perdeu o segundo para o Tondela.
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Luiz Phellype ainda teve a vitória na cabeça, quando já tinha a companhia de Bas Dost (saiu Wendel), mas Cláudio Ramos superou a ação do brasileiro, que acabou em jejum e interrompeu a série de seis jogos consecutivos a marcar (sete golos).

A palavra final teve-a Renan, ou Xavier. O esquerdino atirou com força e colocação, o guarda-redes evitou o triunfo dos beirões sobre os 90', dois minutos depois de Raphinha ter arriscado muito num carrinho sobre Joãozinho na área leonina.

Figura

António Manuel Pereira Xavier. Xavier, aos 26 anos, está num patamar superior a quase todos os companheiros de equipa.

Há muitos bons jogadores na equipa de Pepa (Bruno Pinheiro, Tomané, Delgado, Murillo...), mas só o minhoto tem a mais-valia dos melhores. Marca o ritmo, gere os ataques, evita os adversários. Tudo isto servido por um pé esquerdo de eleição.

Há algo que hoje vale milhões, muitos, que Xavier não tem, ou ainda não tem: golo. Com golo, Xavier já estaria a lutar por troféus ou a ser muito bem pago para deslumbrar em paragens mais competitivas.

Reações dos treinadores

Marcel Keizer (Sporting)

Pepa (Tondela)

Ficha do jogo

Jogo no Estádio José Alvalade, em Lisboa.
Sporting 1-1 Tondela
Ao intervalo: 1-0.
Marcadores:
1-0, Bruno Fernandes, 06 minutos (penálti).
1-0, Tomané, 67.

Sporting: Renan Ribeiro, Ristovski, Coates, Mathieu, Borja (Ilori, 69), Bruno Fernandes, Gudelj, Wendel (Bas Dost, 77), Raphinha, Acuña e Luiz Phellype (Diaby, 88).
(Suplentes: Salin, Ilori, André Pinto, Diaby, Doumbia, Bas Dost e Jovane Cabral).
Treinador: Marcel Keizer.

Tondela: Cláudio Ramos, Moufi, Jorge Fernandes, Ricardo Costa, Joãozinho, Jaquité (Pité, 75), Bruno Monteiro, João Pedro (Xavier, 46), Murillo, Delgado (Peña, 57) e Tomané.
(Suplentes: Pedro Silva, Ícaro, Xavier, Patrick, Pité, Peña e David Bruno).
Treinador: Pepa.

Árbitro: Tiago Martins (AF Lisboa).
Ação disciplinar: Cartão amarelo para Ricardo Costa (04), Bas Dost (41), Delgado (44), Mathieu (45+3), Borja (55), Jorge Fernandes (58), Moufi (81), Coates (84), Pité (85) e Peña (90+1). Cartão vermelho direto para Ristovski (37).

Assistência: 41.665 espetadores.

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