Seleção nacional. Há 20 anos a somar apuramentos consecutivos em grandes competições

Desde o Euro 2000 que a seleção portuguesa não falha uma fase final de uma grande competição (europeus e mundiais). Com o apuramento para o Europeu de 2020 neste domingo, são já 11 presenças consecutivas nas provas internacionais mais importantes.

A seleção nacional garantiu neste domingo o apuramento para o Euro 2020, ao vencer o Luxemburgo por 2-0 no derradeiro jogo da fase de qualificação, e passou a somar 20 anos de qualificações sucessivas para as grandes competições internacionais, contabilizando 11 presenças consecutivas em fases finais dos dois grandes torneios (seis europeus e cinco mundiais). Na Europa, apenas Alemanha (26 presenças), Espanha (14) e França (12) apresentam melhor registo.

Veja aqui os golos que valeram o apuramento de Portugal para o Euro 2020.

O 11.º apuramento consecutivo da equipa das quinas foi carimbado neste domingo, com um triunfo no Luxemburgo, com golos de Bruno Fernandes aos 39 minutos e de Ronaldo aos 86', que permitiu a Portugal assegurar o segundo lugar do grupo B de qualificação, atrás da Ucrânia, e assim apurar-se de forma direta para o Campeonato da Europa que no próximo ano se vai realizar em 12 cidades europeias. Será o quinto Europeu de futebol consecutivo em que Cristiano Ronaldo vai marcar presença (feito único) e o nono grande torneio internacional em que o capitão português vai participar.

Esta sequência de 20 anos de sucessos começou a 9 de outubro de 1999, quando Portugal, num Estádio da Luz lotado por 70 mil pessoas, venceu a Hungria, por 3-0. Foi uma qualificação à justa, como um dos melhores segundos lugares dos nove grupos de apuramento. Portugal estava obrigado a vencer por três golos de diferença, o que acabou por acontecer já com a equipa reduzida a dez jogadores, por expulsão de Pauleta já perto do intervalo. Portugal vencia por 2-0, até que surgiu o golo do improvável Abel Xavier que confirmou o apuramento para o Euro 2000.

"Foi uma qualificação de sofrimento. Estamos a construir uma equipa cada vez mais forte a cada jogo que fazemos", disse no final da partida o selecionador Humberto Coelho, que não esqueceu as críticas de que foi alvo ao longo do percurso: "As críticas são normais, apenas lamento ter sido desrespeitado." Luís Figo, um dos jogadores mais importantes dessa equipa, destacou a importância do apuramento: "O futebol português precisa de recuperar e confirmar o seu prestígio."

E a verdade é que o prestígio ficou ainda mais nos píncaros, quando três dias depois a UEFA anunciou que o Euro 2004 realizar-se-ia em Portugal... era o segundo apuramento conquistado em poucas horas, este por ser o país organizador, sem necessitar de passar pela habitual fase de qualificação.

Até essa altura, a seleção nacional contava presenças esporádicas em grandes competições. A primeira das quais no Mundial 1966, disputado em Inglaterra, com Eusébio e companhia a garantir um brilhante terceiro lugar. Depois foi preciso esperar 18 anos para ver Portugal em mais uma grande competição internacional, quando se qualificou pela primeira vez para um Europeu, graças a um penálti conquistado por Fernando Chalana e convertido por Rui Jordão, que levou a equipa das quinas ao Euro'84, no qual chegou às meias-finais.

Seguiu-se, em 1986, a presença no Mundial do México, graças a uma vitória na Alemanha com um fantástico golo de Carlos Manuel... mas a fase final revelou-se um pesadelo devido às polémicas em torno do caso Saltillo. Só dez anos depois Portugal voltaria aos grandes palcos, o Euro'96, mas caiu nos oitavos-de-final.

A vitória frente à Hungria no Estádio da Luz nessa tarde de outono de 1999, alicerçada na "geração de ouro" que conquistou dois títulos de campeão do mundo de sub-20 (1989 e 1991), lançou então Portugal para uma caminhada que até então se julgava impensável, com presenças em todas as fases finais de seleções que se realizaram a partir daí. Ou seja, 20 anos com Portugal sempre em fases finais de grandes provas.

Mas nem sempre os apuramentos foram fáceis de garantir. A qualificação para o Euro 2004 foi automática devido à condição de anfitrião e quatro anos depois o apuramento foi alcançado com o segundo lugar, num grupo em que a equipa das quinas ficou atrás da Polónia. A presença no Euro 2012 só foi alcançada depois de um play-off. Portugal terminou o grupo de qualificação em segundo lugar e só depois de eliminar a Bósnia no play-off garantiu lugar no torneio que se realizou na Ucrânia e na Polónia.

Mais tranquila foi a qualificação para o Euro 2016, já que Portugal terminou o seu agrupamento no primeiro lugar, apurando-se assim de forma automática sem ter de realizar um play-off como havia acontecido na edição anterior.

Neste domingo, Portugal precisou de chegar à ultima jornada para selar a qualificação, garantindo lugar no Euro 2020 graças ao segundo lugar conquistado no grupo B, atrás da Ucrânia.

Nas fases de qualificação para Mundiais, Portugal ganhou presença nos torneiros de 2002 e 2006 depois de ter terminado a fase de apuramento no primeiro lugar dos respetivos grupos. Mas nas edições de 2010 e 2014 foi obrigado a disputar play-offs para carimbar o passaporte. Em 2010 eliminou a Bósnia e qautro anos depois a Suécia. Mais calma foi a qualificação para o último Mundial (2018), graças ao primeiro lugar na fase de apuramento, à frente da Suíça.

Marcados pela indisciplina até 2004

No Euro 2000, a equipa das quinas começou a afirmar-se como uma das melhores seleções europeias, tendo chegado às meias-finais, tendo sido eliminada pela poderosa França, de Zidane, no prolongamento e com golo de ouro - um penálti transformado por Zizou, depois de uma mão na bola de Abel Xavier dentro da área, que criou revolta dos jogadores portugueses contra o árbitro e que valeu castigos a Paulo Bento, Abel Xavier e Nuno Gomes. Um episódio de indisciplina que se repetiria no Mundial 2002, quando João Vieira Pinto deu um soco no árbitro argentino Ángel Sánchez, no jogo com a Coreia do Sul, que ditou a eliminação inglória na fase de grupos.

Era preciso dar uma melhor imagem depois destes dois episódios de indisciplina. E a grande oportunidade para mudar a face era o Euro 2004, que registou um enorme envolvimento dos portugueses, sobretudo em torno da equipa das quinas, que chegou à primeira final da sua história.

Com o Estádio da Luz a rebentar pelas costuras, a seleção então treinada por Luiz Felipe Scolari acabou por ser derrotada pela surpreendente Grécia (1-0). A desilusão voltou a apoderar-se dos portugueses, mas ao mesmo tempo havia um sentimento de orgulho pela forma como foi organizado o Campeonato da Europa. Seria possível algum dia chegar a um título internacional, depois do fracasso de uma geração que tinha Figo, Rui Costa, Deco e o jovem Cristiano Ronaldo.

O Mundial 2006, já sem alguns jogadores dessa geração de ouro, mostrou que havia qualidade para dar continuidade ao que de bom tinha sido feito. Scolari guiou Portugal ao quarto lugar no Campeonato do Mundo da Alemanha. Tal como nos europeus de 1984 e 2000, a França voltava a ser o carrasco nas meias-finais... de novo um penálti de Zidane.

Apesar de mais uma desilusão, a fasquia mantinha-se alta para a seleção, que foi ao Euro 2008 como uma das candidatas, acabando por cair aos pés da Alemanha nos quartos-de-final. A Espanha, que vivia a sua era dourada, tornou-se depois o carrasco de Portugal no Mundial de 2010 (oitavos-de-final) e no Euro 2012 (meias-finais). Os desfechos foram frustrantes, mas a equipa das quinas estava sempre presente na altura das grandes decisões... até que em 2014, no Mundial do Brasil, a seleção nacional regressou a casa no final de uma fase de grupos para esquecer.

Fernando Santos chegou para virar a página

O então selecionador Paulo Bento ainda começou a fase de qualificação para o Euro 2016, mas uma derrota com a modesta Albânia, em Aveiro, logo no primeiro jogo provocou uma mudança técnica que seria um virar de página na história da seleção.

Era preciso vencer todos os jogos para garantir a presença na fase final e para assumir esse desafio foi chamado Fernando Santos. O percurso foi 100% vitorioso, com Cristiano Ronaldo a assumir o seu papel de grande estrela mundial e o novo selecionador a implementar novas regras e a pôr um ponto final a algumas deserções que se tinham verificado no consulado de Paulo Bento.

Portugal estava de novo num Europeu realizado em França, como em... 1984. Após uma primeira fase com três empates e muitas críticas, poucos acreditavam em dias de glória. A exceção foi Fernando Santos, que sempre disse que só regressaria a Lisboa no dia 11 de julho, um dia depois da final do Stade de France. E até já tinha avisado a família... Ultrapassados Croácia, Polónia e País de Gales, eis que, como que por artes mágicas, Portugal estava no jogo decisivo, onde encontraria um dos maiores carrascos da sua história: os franceses.

Como um conto de fadas, Ronaldo lesionou-se ainda na primeira parte e foi obrigado a sair, acabando por ser um remate do patinho feio Eder, já no prolongamento, a dar o primeiro título internacional a Portugal.

As lágrimas de Fernando Santos, de Ronaldo e de muitos portugueses marcavam uma noite de grandes emoções, em que a equipa das quinas era dada como vencida à partida para a final. "Sou muito de feelings. Senti que era o Eder que ia resolver o problema. Há coisas que não têm palavras. Ele sabe o que eu lhe disse. Não sou bruxo nem vidente, mas tenho feelings. Senti que ele ia marcar e sinto-me feliz por ele", disse CR7, no meio da alegria que o invadia.

Fernando Santos revelou ainda o que lhe disse Eder quando entrou aos 79 minutos: "Entendi que ele era o jogador que tinha de entrar. Ele disse que ia marcar e marcou. O patinho feio tornou-se bonito. Está de parabéns."

É este título europeu com um golo improvável que a seleção vai defender no próximo verão numa competição que vai realizar-se em várias cidades da Europa, já depois de, entretanto, ter ficado nos oitavos-de-final no Mundial 2018 e de ter conquistado a nova Taça das Nações, numa final com a Holanda.

A seleção é, por mérito e direito, a sexta classificada do ranking da FIFA, o que lhe confere, mais uma vez, o estatuto de favorita à conquista do troféu. E agora, que lhe tomou o gosto, tudo é possível. Têm a palavra Fernando Santos, Ronaldo e companhia no Europeu do próximo ano, competição que será realizada em doze cidades de diferentes países europeus durante o verão. O sorteio dos dez grupos está agendado para o próximo dia 30 de novembro, em Bucareste, na Roménia.

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