Ricardo Pinto trocou os patins pelo plano B e dedicou-se à biologia

Ricardo conquistou vários títulos e foi campeão mundial de solo dance em 2018. Mas ainda no ano passado decidiu colocar um ponto final na carreira de patinador aos 26 anos, porque não conseguia viver deste desporto.

Portugal teve 16 campeões do Mundo em 2018, mas só um deles, Fernando Pimenta, na canoagem, tem mediatismo e reconhecimento público à dimensão do título conquistado. Os outros 15 são ilustres desconhecidos que praticam modalidades individuais com pouca ou nenhuma visibilidade. A maior parte suporta as despesas de participação do próprio bolso. O DN falou com três destes campeões do Mundo que vivem no anonimato e publica as suas histórias nos próximos dias. Depois de Ana Pereira (tiro), conheça melhor Ricardo Pinto, campeão do Mundo de solo dance (patinagem) em 2018.

Para início de conversa, depois do título mundial reconquistado no ano passado, Ricardo Pereira resolveu colocar um ponto final na carreira aos 26 anos. "Não somos considerados velhos para a prática da modalidade com 26 anos, mas os nossos apoios são limitados e como não temos a possibilidade de ser profissionais como praticantes somos obrigados a ter um plano B para a vida", confessou ao DN o campeão mundial de Solo Dance, revelando que foi uma "decisão ponderada e nada precipitada".

Apenas achou que "estava na altura de pensar no futuro", na vida académica e no curso de biologia: "Sou um apaixonado pela vida animal e da biologia, tanto da microscópica como a macroscópica é uma coisa que me fascina imenso." Além de estar a fazer o estágio curricular no Cimar (Matosinhos) é juiz nas provas de patinagem dos mais pequenos: "Era impossível separar-me de vez dos meus companheiros de 22 anos, impossível abandonar os patins assim repentinamente."

Ricardo nasceu em Miragaia, Porto, em 1992, e pode-se dizer que começou a patinar logo depois de aprender a andar. "Tinha uns quatro ou cinco anos". A mãe queria que ele tivesse uma atividade extra-curricular e como o médico tinha recomendado à irmã que começasse a patinar porque era bom para os joelhos, ele também foi experimentar. Desde então a vida de Ricardo é rolar, cair e levantar. Perdeu a conta às vezes que se estatelou no chão."Muitas, mas muitas vezes mesmo. Começamos muito cedo, por vezes ainda mal sabemos andar e já estamos em cima de uma plataforma móvel (patins) que anda sozinha e nós temos de aprender a equilibrar-nos e a dominar. Mesmo no treino, temos de puxar por nós e ir ao limite, e isso dá origem a muitas quedas. Se não formos ao limite no treino nunca sabemos até onde podemos ir em competição, ainda por cima nervosos e com tendência a exagerar".

Não houve queda que o tenha travado. Ganhou o "bichinho" e nunca mais largou os patins. Entrou para o Rolar Matosinhos (antes chamava-se Rolar Custóias Clube) e depois de passar alguns testes para assinalar a progressão começou a competir na patinagem livre. Os saltos e os peões deram depois aos pares artísticos, a seguir pares de dança e depois a especialização em Solo Dance. Basicamente "é dançar sobre os patins, interpretar a música e o estilo que é proposto para esse ano".

"Hoje a patinagem é mais aceite na sociedade"

A patinagem funciona por picos de época. De maio a setembro. Os distritais apuram para os nacionais, que por sua vez dão o passaporte para os internacionais. O Europeu e o Mundial são com um mês de diferença. A Federação ajuda com as viagens, mas "o investimento inicial parte sempre" dos próprios. Não há volta a dar. Os patins são caros, mas nem são a maior despesa. Os figurinos obrigam a um investimento considerável: "Os fatos custam cerca de 300 euros cada um e em cada competição tem de se ter pelo menos dois, além dos fatos de treino (150 euros)."

Um homem a patinar e dançar é pouco habitual. E hoje isso não o afeta minimamente. Mas houve um tempo que sim. "Não era bullying, nem nada que me tenha traumatizado, mas houve algum desconforto em tempos. Hoje a patinagem é mais aceite na sociedade, vista como um desporto", confessou o patinador ao DN. Os títulos dele e de outros contribuíram para isso: "A sociedade vive muito de resultados e a partir do momento em que os tens ajudas a mudar mentalidades e a fazer progredir a modalidade. Os bons resultados beneficiam e dão visibilidade à patinagem portuguesa."

Foi campeão nacional em todos os escalões de formação (infantil até juvenil), também campeão nacional como júnior e foi ainda como júnior que venceu as primeiras competições internacionais, a Taça da Europa, na altura a única competição oficial europeia na disciplina de Solo Dance. Seguiram-se os campeonatos do Mundo e as medalha de ouro (Cali, 20\5, Nanjing, 2017 e Vendé, 2018). Depois do primeiro título mundial muita coisa mudou, mas foram mais coisa a nível da exigência pessoal do que mudanças ao nível financeiro e até de carreira "Mudou. Mais trabalho. Deixamos de ser uma surpresa e temos de manter o nível. Mais difícil do que chegar lá é manteres-te no topo. E quando estão mais atentos ao que fazes dificultam-te a vida. Tive de fazer uma gestão de carreira mais complexa. Mais treino, mais entrega..."

E valeu a pena. Foi campeão mundial mais duas vezes. Uma em 2012 e outra em 2018. Os títulos mundiais deram-lhe "mais visibilidade, respeito e responsabilidade" e alguns patrocínios ao nível do material. Nos últimos anos já não tinha gastos com patins e rodas. Mas a patinagem não tem competição internacional profissional e por isso Ricardo não tinha como crescer mais na modalidade e decidiu colocar um ponto final na carreira.

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