Portugal vence na Alemanha e regressa ao Championship

Uma fantástica e corajosa exibição do quinze nacional permitiu aos Lobos baterem esta tarde em Frankfurt, a Alemanha por 37-32, no play-off de acesso ao European Championship. Na despedida como selecionador, Martim Aguiar coloca Portugal de novo entre as maiores potências europeias de râguebi.

Independentemente de quem tenha sido a culpa de deixar escapar, a 24 horas do jogo mais importante da época para o râguebi português, a notícia de que o selecionador nacional Martim Aguiar iria realizar este sábado o seu derradeiro jogo ao leme dos Lobos, estando Patrice Lagisquet perto de assinar contrato para o substituir após várias semanas de contactos (inclusivamente o antigo ponta internacional francês não se escondeu quando viajou há alguns dias até Lisboa para conhecer os cantos à casa), este não foi certamente o timing adequado para preparar o vital teste desta tarde em casa da forte seleção alemã.

Mas não só o técnico viu fechar-se este ciclo de três anos com um triunfo assaz histórico - será assim como uma espécie de chapada de luva branca no seu adeus final - como toda a equipa portuguesa reagiu de forma fantástica à divulgação de um segredo tão mal guardado, realizando no relvado do Frankfurt Rugby Club 1880 uma exibição concentrada, convincente, plena de entrega... e aqui e ali com uns pozinhos de classe extra que deixaram os matulões alemães um pouco catatónicos, ou seja, sem capacidade de resposta.

Frente a uma seleção alemã habituada a defrontar rivais de outro patamar (esteve inclusivamente até ao fim na discussão pelo derradeiro lugar no próximo Mundial...) e treinada pelo experiente inglês Mike Ford, um dos mais conceituados técnicos britânicos e antigo responsável dos Saracens, Bath e Toulon, Portugal mostrou desde o apito inicial: a) saber jogar de olhos nos olhos sem temer o fator casa nem a mais pesada mas pouco móvel avançada adversária; b) ter categoria e ousadia para, alargando o perímetro de jogo, utilizar a preceito as suas imaginativas e rápidas linhas atrasadas, onde os irmãos Marta, Rodrigo Freudenthal, António Cortes e Tomás Appleton deram água pela barba aos três-quartos alemães, que nunca atinaram na melhor forma de contrariar todas aquela avalanche de passes bem medidos, corretas linhas de corrida, trocas de pés imparáveis, velocidade de execução... Em suma, um certificado de Classe com C grande. Para alemão perceber direitinho, mais parecia um Mercedes a enfrentar um pobre Trabant.

Pontas ligaram o turbo

E mesmo sem um conjunto mais alargado de opções que teriam dado muito jeito a Martim Aguiar - em especial no pack avançado conferindo outra experiência e poder físico - pois vários atletas profissionais que alinham em clubes franceses mostraram não acreditar no projeto desta seleção (sim, o caso mais badalado de Pedro Ávila não foi único), o quinze nacional esteve sempre muito confiante e coeso, dando clara indicação de que, após as tentativas falhadas nos play-offs diante da Bélgica (29-18) em 2017 e Roménia (36-6) em 2018, à terceira seria de vez e estes 80 minutos eram mesmo para ganhar.

E os Lobos, com uma exibição que colocava os germânicos em sentido - algo que não constitui novidade para a rígida disciplina alemã, é verdade - atingiriam o intervalo na frente por 20-6, graças a dois ensaios de excelente recorte técnico dos pontas António Cortes e Rodrigo Marta, que após receberem a oval ligaram o turbo até à área de ensaio como só eles sabem, deixando a defesa contrária a acompanhar... com os olhos.

Portugal recomeçou de novo bem na segunda parte e com um pontapé de Jorge Abecasis (o médio de abertura do CDUL teve 100 por cento de acerto ao converter os quatro ensaios e somar ainda três penalidades, num total de 17 pontos com os pés!) e um ensaio de Manuel Marta (seis ensaios esta temporada com a camisola da seleção!), cedo colocou o resultado em 30-6.

Ensaio para a vitória de Rodrigo Freudenthal

Mas com o cansaço a acumular-se no corpo dos nossos jogadores - mais uma vez provando que as competições internas não preparam convenientemente os atletas para jogos deste nível de exigência - foi a vez da equipa da casa cair finalmente em cima da área portuguesa. E aí foi a capacidade de entrega, sofrimento e a boa defesa dos Lobos que salvou o dia para as cores nacionais.

Os alemães, que não perdiam com os Lobos desde 2015 e faz este fim de semana precisamente um ano afastaram Portugal no apuramento para o Mundial 2019, por 16-13, em Heidelberg, conseguiriam nos minutos finais quatro (!) ensaios quase de rajada, todos em maul dinâmico, única forma que encontraram para romper a defesa portuguesa, incapaz de aguentar o peso dos tanques alemães. E que ainda veria Duarte Diniz e Bruno Rocha serem castigados com cartões amarelos, o que facilitou a vida aos homens da casa.

Valeu aos Lobos, através de novo lance rápido pelos três-quartos, o ensaio de Rodrigo Freudenthal (o seu primeiro esta época pela seleção), que permitira à seleção sair vencedora deste importante e mesmo vital test-match, por 37-32.

E assim, após três anos consecutivos em que Portugal venceu o European Trophy só com vitórias - 15 nos 15 desafios realizados - a seleção nacional vai, em 2020, voltar ao convívio das maiores potências europeias da modalidade (fora as Seis Nações), indo defrontar Geórgia, Roménia, Rússia, Espanha e Bélgica. Apesar de eventuais pesados desaires, estas são as seleções do nosso campeonato e que permitirão ao râguebi português evoluir e crescer.

Portugal alinhou e marcou por: Manuel Marta (5); Rodrigo Marta (5), Rodrigo Freudenthal (5), Tomás Appleton, António Cortes (5); Jorge Abecasis (2,2,2,2,3,3,3), João Belo; Jacques Le Roux, Salvador Vassalo (cap.), David Wallis, José Rebelo de Andrade, José D"Alte, Anthony Alves, Nuno Mascarenhas e João Vasco Corte-Real. Do banco saíram ainda Francisco Bruno, Duarte Diniz, Bruno Rocha, Salvador Cunha, Sebastião Villax e Gonçalo Prazeres.

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