Parecia dia de jogo grande! A Reboleira voltou a encher num Estrela-Belenenses

Nove anos depois de se terem defrontado pela última vez, os dois históricos do futebol português reencontraram-se num dia de emoções fortes, a lembrar os bons velhos tempos, num jogo que terminou empatado sem golos e relativo aos campeonatos distritais.

Este domingo, nove anos depois, Estrela da Amadora e Belenenses, dois históricos do futebol português, voltaram a encontrar-se em jogos oficiais. O cenário foi a habitual casa dos amadorenses, o velhinho e degradado Estádio José Gomes, mas com diferenças substanciais. O clube da casa chama-se hoje Clube Desportivo Estrela e a bancada atrás de uma das balizas onde costumava ficar a claque da equipa da casa está inutilizada. O relvado também não é o mesmo de outros tempos. Obviamente que as grandes diferenças estão no facto de atualmente as duas equipas jogarem na Série 2 da I Divisão Distrital da Associação de Futebol de Lisboa.

Mas este domingo até parecia um jogo grande. Nas bancadas estiveram figuras conhecidas do Estrela da Amadora, como Abel Xavier, que aqui jogou durante cinco temporadas, os irmãos Rui e Jorge Neves e ainda Renato e o ex-capitão Rebelo. O cantor Paulo Gonzo também esteve presente.

O jogo terminou empatado a zero, o que permitiu ao Clube Futebol Os Belenenses manter a liderança isolada na classificação, embora tenha cedido os primeiros pontos, depois do registo imaculado de onze triunfos nas onze rondas iniciais. Já o Clube Desportivo Estrela subiu à sexta posição, ultrapassando, à condição, o Operário de Lisboa.

Oito mil nas bancadas

O reencontro entre estes dois históricos do futebol português levou ao José Gomes cerca de oito mil pessoas, de acordo com dados divulgados pelo clube. A esmagadora maioria dos adeptos escolheu entrar em campo muito perto da hora para o pontapé de saída - 15h00 - não prevendo que a casa iria estar tão bem composta ou não se lembrando que o Estádio José Gomes não é um dos modernos recintos construídos para o Euro 2004, que permite a entrada de milhares de espectadores nos minutos que antecedem as partidas.

Por isso, foram longas as filas que se formaram nas portas de entrada, com centenas de adeptos a entrarem já com longo tempo de jogo disputado. Talvez para permitir que o maior número de pessoas assistisse a todo o jogo, o apito inicial foi dado oito minutos depois do horário marcado.

Antes do início da partida, Isaac Jaló, apoiante do Estrela, falou ao DN. "Sempre vivi na Amadora e apesar desse facto, confesso que durante muitos anos fui adepto do Benfica. Com o passar do tempo, comecei a sentir que é importante darmos valor à nossa terra e aos clubes que a defendem. Foi por isso que mudei para o Estrela e desde que o clube voltou a ter futebol a nível sénior [no início desta temporada] passei a vir ao estádio com frequência", revelou.

João Alves, apoiante dos azuis do Restelo, não tem dúvida em eleger esta equipa como o verdadeiro Belenenses. "Mas há dúvidas? Só existe este Belenenses e basta ver o mar de gente que veio apoiar a equipa à Reboleira [cerca de duas mil pessoas]", começou por referir.

João Alves fez ainda a comparação entre a assistência aos jogos caseiros dos dois Belenenses. "Percebe-se facilmente que o verdadeiro Belenenses, mesmo estando nas distritais, leva mais gente ao Restelo do que o outro leva ao Estádio Nacional. Vamos continuar a apoiar em força e se não regressarmos à I Liga em cinco anos, como é intenção do presidente Patrick Morais de Carvalho, regressaremos em sete ou oito. Mas tenho a certeza de que um dia vamos voltar ao lugar que merecemos", sublinhou.

João Tibéria, adepto do Estrela, é presença assídua no José Gomes, apesar de já não morar na Amadora. "Vivi aqui muitos anos, é uma cidade que me diz muito. Os portugueses deveriam aprender com os ingleses e apoiar o clube da terra", realçou, reconhecendo que é preciso fazer muito mais: "Somos a quarta cidade do país e não é suficiente apresentarmos a atual média de assistências no nosso Estádio, em torno das 800/1000 pessoas. Temos de crescer muito, para ambicionarmos voltar um dia ao escalão principal", destaca.

Resultado justo

No relvado, a qualidade de jogo não foi a de outros tempos quando as equipas mediam forças no principal escalão do futebol português. Alguns jogadores que se apresentaram em campo tinham alguns quilos a mais e outros atrapalhavam-se com a bola, mas o mais importante na bela tarde solarenga deste domingo não era apreciar um grande espectáculo de futebol, mas destacar o fantástico ambiente vivido nas bancadas, sempre num clima amigável entre adeptos rivais.

Apesar de estarem em minoria, os azuis foram claramente mais ruidosos e os visitados só respondiam para defender a honra, quando os décibeis vindos da bancada visitante atingiam um nível muito elevado, ou então nas ocasiões em que a bola se aproximava da baliza de Tomás Foles, o guarda-redes do Belenenses.

O Belenenses teve maior domínio, mas houve bastante equilíbrio no número de oportunidades de golo, que foram poucas. O zero a zero adequa-se perfeitamente ao que se passou.

Presidentes orgulhosos e Abel Xavier no balneário

Rui Silva, presidente do CD Estrela, e Patrick Morais de Carvalho, presidente do Belenenses, estiveram presentes nas bancadas, assistindo ao encontro lado a lado. O líder máximo dos estrelistas não escondeu a sua satisfação. "Foi uma festa espectacular, até parecia que estávamos a assistir a um jogo da I Liga! Estou emocionado e acho que só quando chegar a casa é que vou ter tempo para refletir um pouco sobre o significado que esta magnífica tarde teve para o futebol português", realçou.

Rui Silva confessou que estes primeiros meses do ressurgimento do futebol sénior não estão a ser nada fáceis. "Está a ser mesmo muito complicado e todos os dias aparece uma nova batalha. No entanto, está a ser um trabalho bastante gratificante e espero que no futuro haja mais dias como o deste domingo", referiu.

Patrick Morais de Carvalho referiu que "se tratou de um jogo muito especial, entre dois históricos do futebol português, que não merecem estar nos distritais". O líder do clube do Restelo apelou "às forças vivas do futebol português, ou, em última instância, ao Estado, que olhem com atenção para tudo o que o Belenenses fez pelo futebol português e percebam que um clube desta dimensão não pode ser remetido para as divisões distritais, unicamente devido à lei das SAD". E destacou "o ambiente de festa num estádio com 8 mil pessoas, assistência que bate aos pontos a média dos jogos da grande maioria dos clubes da divisão principal do futebol português".

Já Abel Xavier defendeu que "mais importante do que o jogo dentro das quatro linhas, foi o sentimento da causa que uniu todas estas pessoas que vieram ao Estádio José Gomes". O antigo internacional português revelou que se sentiu "muito honrado" pelo facto de lhe ter sido permitido aceder ao balneário do Estrela alguns minutos antes da partida, onde falou com os futebolistas. "Passei-lhes o meu testemunho e falei-lhes da importância do Estrela no futebol português", afirmou.

Os dois clubes vivem hoje realidades bem diferentes do que no passado. O Estrela da Amadora pediu a insolvência em 2010, tendo reaparecido no ano seguinte como Clube Desportivo Estrela, mas só no início desta época ressurgiu no futebol a nível sénior. Já o Belenenses optou esta temporada por começar do zero, depois do divórcio entre o clube e a SAD, e está como o Estrela nos escalões distritais.

Os onzes para a história

Estes foram os jogadores de CD Estrela e Belenenses que viveram certamente um dos dias mais marcantes da sua vida desportiva:

CD Estrela: Bernardo Lopes; João Colaço, Leandro Silva e João Borges; Timmie Pollard, Miguel Almeida e André Mendonça; Bernardo Marques, Sérgio Duarte e Timmy Sanca. Jogaram ainda: Rúben Miranda Latapy Leal.

Belenenses: Tomás Foles; André Serra, Alex Figueiredo, Ilmo Ferreira e Jorginho; Evandro Barros, Francisco Sénica, João Santos e Ricardo Viegas; Tomás Castro e Afonso Alcário. Jogou ainda: Bernardo Ribolhos.

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