O futuro de uma seleção portuguesa começou com treinos à americana

Arrancou com treinos físicos o projeto para uma seleção nacional de futebol americano. Ideia é jogar já no próximo ano, mas projeto é para ser "sustentável". Portugal já tem jogadores no estrangeiro e o selecionador fala em ballet

Foi com duas sessões de treinos físicos, em Lisboa e Paredes, que começou o novo projeto para a criação de uma seleção nacional portuguesa de futebol americano, no ano em que começa a 10.ª edição da Liga Portuguesa de Futebol Americano. Os jogadores não faltaram à convocatória aberta, mesmo que a bola não fosse para ali chamada, e vieram até do estrangeiro.

Em dois combine (treino com combinação de vários exercícios físicos), o selecionador André Amorim e o seu staff técnico puderam ver os jogadores - ao todo treinaram quase 90 - numa ideia muito à 'americana', visto que é também em combines que se mostram os rookies (novatos) que pretendem chegar à NFL, a principal liga dos EUA. Neste caso, entre sprints, saltos, flexões e lançamentos de bolas medicinais, eram cinco estações de exercícios com atletas a darem o máximo para ficarem bem vistos nos apontamentos da equipa técnica.

Só em Lisboa, no campo do Sport Lisboa e Olivais, onde o DN esteve presente, estiveram 44 dentro de campo, das mais diversas equipas, até do estrangeiro, com as mais diversas cores, criando efetivamente um efeito interessante dentro do campo. No norte do país treinaram 42 e inscritos totais foram 124, segundo números da Associação Portuguesa de Futebol Americano. No entanto, o selecionador André Amorim afirmou que "apareceram cerca de 100, porque alguns estavam lesionados" e alguns atletas até vieram "do sul de França e de Madrid".

No centro do campo, enquanto dezenas de atletas correm em volta, André Amorim explica-nos a diferença entre este projeto e outro que já existiu anteriormente com um treinador espanhol: "Na altura a ideia era arranjar uma equipa e jogar dali a uns meses. Não acho que fosse a melhor a ideia. Agora a ideia é explicar o projeto, dar-lhes oportunidades, feedback, e no fim da temporada escolher os melhores para um potencial jogo".

Mas, e então, quando seria esse jogo? "Idealmente em junho ou julho de 2019. Essa é a nossa meta. Agora, vamos ver se é possível...", respondeu o selecionador nacional.

O físico e o ... ballet

Não existia qualquer bola de futebol americano no campo, o que nos levou a questionar o porquê de se começar pelos testes físicos. André Amorim explicou: "Os testes físicos dão uma imagem atual do que eles são como atletas e assim podemos perceber onde estão em falha e dar esse feedback. Mas essa melhoria parte deles, irem para o ginásio ou procurarem ajuda específica".

E já depois do último combine, no norte do país, questionámos o selecionador nacional sobre as diferenças físicas entre norte e sul. Afinal, existem: "No norte acho que o futebol americano está mais evoluído. Em Lisboa está-se mais focado no futebol e no norte há mais variedade, o que leva que exista maior variedade de atributos, porque passas por mais desportos e desenvolves mais competências". Refere ainda que no próximo treino, provavelmente no início do próximo ano, já teremos uma vertente mais "técnica e tática", o que se traduz numa palavra muito simples para os jogadores: bola.

Em jeito de final de conversa no dia do combine em Lisboa, enquanto sprintavam à nossa voltam questionámos André Amorim como é que se chamavam pessoas para um desporto que é tido como violento e que até tem "americano" no nome. "É difícil. É um desporto violento, mas vou dizer algo que pode chocar: o ballet é um desporto violento, porque se formos ver, a preparação do corpo para uma performance é muito violenta, O futebol americano também é violento, e é muito visual. Essa parte visual, dos embates, cabeçadas, corpos a colidir, é o que as pessoas veem e dá a imagem de desporto em excesso, mas não é. Tem a ver com preparação", explica.

Jogar na Suécia, representar Portugal

André Amorim disse também que Portugal tinha cada vez mais jogadores no estrangeiro, mas também mais atletas de fora a usarem Portugal como montra, "desde há três ou quatro anos", para conseguirem chegar a ligas mais competitivas na Europa, como a alemã, a austríaca, ou a finlandesa.

Um desses exemplos é Daniel Fernandes, de 30 anos, que joga na Suécia, para onde foi devido a uma "oferta de trabalho", na equipa dos Gotemburgo Marvels, onde chegou em 2015. Em Portugal jogou nos Lisboa Navigators antes de rumar a norte na Europa, onde começou por jogar na "segunda divisão deles", antes de chegar à "elite", onde as coisas já são "semiprofissionais". Não tem ordenado, mas tem "quatro ou cinco colegas que recebem ordenado ou ajuda, que até pode ser casa paga, para os cativar".

Diz que o "profissionalismo é a principal diferença", porque na Suécia acaba por treinar seis vezes por semana". Em Portugal de férias, admite que a "experiência no estrangeiro" pode ajudar os colegas na seleção, mas que é só mais um a querer jogar por Portugal. "Obviamente gostaria de representar o meu país. Acho que qualquer um que aqui se encontra se sentiria orgulhoso em fazê-lo".

Para o futuro, diz que seleção é um bom passo, "mas que ter uma federação e jovens jogadores, formação, seria muito importante". Refere que na Suécia ajuda a treinar equipas de sub 15, "já com contacto", e que até existem equipas com "miúdos de 10 anos", mas sem contacto.

Presente no treino para a futura seleção nacional estava também João Germano, de 26 anos, natural do Porto, mas atualmente no Fundão. Não tem equipa de momento, e acha "difícil criar-se uma equipa naquela zona", mas não hesitou em viajar até Lisboa para tentar a sua sorte para "voltar a jogar".

Jogou nos Porto Renegades, que depois se tornaram Maia Renegades, mas uma oportunidade de trabalho no Reino Unido levou-o aos Bournemouth Bobcats, onde jogou duas épocas, ainda que uma lesão tenha complicado a segunda temporada. Mesmo sem equipa, nem irá provavelmente competir esta época, quer fazer parte da seleção e ajudar com a experiência: "Não sou mais que ninguém, mas jogo há uns anos. Como os outros, estou aqui, vim fazer as provas e pretendo ingressar na seleção. Espero que projeto avance e que possamos todos contribuir para o desenvolvimento do desporto".

Refere que no Reino Unido existem "muitos apoios" e que a "cultura" do futebol americano já está bem entranhada na comunidade. Contudo, frisa, Portugal está a dar "passos pequenos, mas sólidos".

Clubes têm de se entender

Eduardo Brito, presidente da Associação Portuguesa de Futebol Americano, disse ao DN que o projeto da seleção nacional surge no sentido de dar um "novo fôlego" ao futebol americano em Portugal, "que estagnou nos últimos anos". "Queremos que a seleção venha ser um projeto sustentável. E acho que o que o irá sustentar, e ao desporto com um todo, será a aposta na formação, coisa que poucos fizeram ao longo dos anos e que a associação nunca soube explorar", acrescentou.

Com a Liga Portuguesa de Futebol Americano a entrar na 10.ª edição, o responsável fala também na criação de novas competições, para existir "maior competitividade". Tem também como "principal meta fazer os clubes entenderem-se e remarem para o mesmo lado".

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