Benfica começa o novo ano em modo de autodestruição

Rúben Dias e Jardel marcaram na própria baliza, ainda na 1.ªparte, e ditaram derrota histórica do Benfica frente ao Portimonense. Rui Vitória voltou a ver lenços brancos e águias podem acabar a jornada em quarto lugar

O ano novo trouxe fantasmas antigos para o Benfica, que caiu em Portimão numa derrota histórica forçada por dois autogolos dos seus centrais ainda na primeira parte e viu os adeptos recuperarem os lenços brancos para Rui Vitória no final da partida.

A exibição confrangedora com que o Benfica se despedira de 2018, num empate nas Aves que valeu a qualificação para a final four da Taça da Liga, significava afinal bem mais do que o técnico encarnado queria admitir.

O Benfica mostrou isso em Portimão, com uma capacidade de autodestruição que sintetiza os males que a equipa arrasta desde há bastante tempo. Os autogolos de Rúben Dias (12 minutos) e Jardel (38) são uma caricatura disso mesmo. Uma evidência de que os adversários nem precisam de fazer muito para causar dano a este Benfica de veia masoquista.

Esta quarta-feira, por exemplo, o Portimonense nem teve de rematar à baliza para se ver a ganhar por 2-0, vantagem que soube depois gerir com classe até ao final, perante um Benfica desesperado, para garantir o seu primeiro triunfo de sempre sobre as águias, ao fim de 41 jogos.

Com esta derrota no primeiro jogo do novo ano, o Benfica viu interrompida uma série de cinco triunfos na Liga, caiu já para o terceiro lugar (fruto da vitória do Sp. Braga sobre o Marítimo) e pode ainda terminar a jornada em quarto, a sete pontos da liderança, caso Sporting e FC Porto ganhem os respetivos jogos - os leões recebem o Belenenses e os dragões visitam o Aves, quinta-feira.

Direita volver, esquerda volver... o resumo de um pobre menu futebolístico

A goleada frente ao Sp. Braga, na Luz, na jornada anterior do campeonato, terá sido mesmo um raro oásis no deserto exibicional da equipa de Rui Vitória nesta Liga. Em Portimão, os encarnados voltaram a exibir um futebol pobre, sem rasgo nem ideias para ultrapassar a boa oposição algarvia e a noite infeliz dos seus centrais.

O Benfica até entrou com vontade de assaltar desde cedo a área do Portimonense, mas, como tem sido a nota dominante deste Benfica de Rui Vitória, revelou pouca criatividade no processo ofensivo e fraca mobilidade no último terço.

O ataque vivia invariavelmente à procura de combinações entre lateral e extremo - ora pela esquerda, ora pela direita -, por vezes com a tentativa de apoio de algum médio interior ou do inevitável Jonas, mas com o resto da equipa aparentemente desligada dessas movimentações.

Benfica somou a terceira derrota no campeonato e pode cair para o quarto lugar no final desta jornada

Ou seja, pouco jogo coletivo, a facilitar a tarefa defensiva de um Portimonense que anulava bem as zonas de intervenção de Gedson (exibição muito pobre) e Pizzi, obrigando o jogo encarnado a resumir-se a essas correrias pelos flancos.

Naturalmente, os autogolos de Rúben Dias (muito mal também a deixar fugir Jackson no segundo golo) e Jardel facilitaram o processo aos algarvios, que até nem terão feito o melhor dos jogos em termos ofensivos na primeira parte, apesar da tentativa de sair sempre em transição com um futebol apoiado. Tirando os lances dos autogolos, o Portimonense quase não chegou à área de Vlachodimos nessa metade inicial.

Na segunda parte, sim. Com o jogo partido pelas substituições de Rui Vitória e, depois, com a expulsão de Jonas, o Portimonense podia até ter ampliado o triunfo, não fossem as belas intervenções do guarda-redes encarnado.

Expulsão de Jonas sentenciou a reação

Rui Vitória lançou Salvio e Seferovic para a segunda parte, o Benfica passou a jogar em 4x4x2, aumentou a velocidade de jogo (sobretudo com as arrancadas do extremo argentino que na véspera renovou contrato até 2022), apareceu mais vezes e com mais gente na área, mas também abriu mais espaços para os contragolpes do Portimonense, que então mostrou mais a qualidade que abunda na equipa de António Folha, desde o virtuoso Nakajima - que se despediu rumo à Taça da Ásia e não se sabe se regressa, tantos os interessados noticiados - ao heroico sobrevivente Jackson Martinez, de Paulinho a Ewerton ou Manafá, um lateral incansável em todo o corredor esquerdo.

A expulsão de Jonas, aos 72 minutos, num lance polémico de choque com o guarda-redes Ricardo que Manuel Mota decidiu com vermelho direto após recurso ao VAR, serviu apenas para sentenciar de vez o destino do Benfica neste jogo, Um jogo em que, mesmo contando a quase meia hora de reação na segunda metade até à saída de Jonas, não fez mais do que três remates enquadrados à baliza.

Muito pobre, como assinalaram, com lenços brancos, os adeptos no final da partida - alguns resvalaram mesmo para o vandalismo e pegaram fogo a uma parte das bancadas.

Para os registos, fica uma vitória histórica para o Portimonense, que esta época já aqui fizera tombar também o Sporting de José Peseiro, num percurso caseiro que não conhece a derrota desde a primeira jornada (Boavista).

Ficha de jogo

Jogo no Estádio Municipal de Portimão.

Portimonense - Benfica, 2-0.

Ao intervalo: 2-0.

Marcadores:

1-0, Ruben Dias, 12 minutos (própria baliza).

2-0, Jardel, 38 (própria baliza).

Equipas:

- Portimonense: Ricardo Ferreira, Vítor Tormena, Jadson, Ruben Fernandes, Manafá, Pedro Sá, Dener, Ewerton, Paulinho (Lucas Fernandes, 76), Nakajima (Wellington, 90) e Jackson Martinez (João Carlos, 86).

(Suplentes: Leo, Marcel, Hackman, Felipe Macedo, João Carlos, Lucas Fernandes e Wellington).

Treinador: António Folha.

- Benfica: Vlachodimos, André Almeida (João Félix, 80), Rúben Dias, Jardel, Grimaldo, Fejsa, Pizzi, Gedson (Seferovic, 46), Cervi (Salvio, 46), Zivkovic e Jonas.

(Suplentes: Svilar, Gabriel, Seferovic, Salivo, Kravinovic, Samaris e João Félix).

Treinador: Rui Vitória.

Árbitro: Manuel Mota (AF Braga).

Ação disciplinar: cartão amarelo para Cervi (22), Paulinho (63), Jonas (63) e Jackson Martinez (79). Cartão vermelho direto a Jonas (72).

Assistência: 5.884 espetadores.

Figura

Wilson Manafá. Do pé esquerdo do lateral do Portimonense nasceu o primeiro golo da partida, num cruzamento tenso para a pequena área que Rúben Dias desviou para a própria baliza. Mas não se ficou por aí o incansável luso-guineense nascido em Oliveira do Bairro. Manafá correu para trás e para a frente durante os 90 minutos, num ritmo "louco", capaz sempre de esticar o jogo e provocar desequilíbrios. Esteve perto do golo uma vez, mas Vlachodimos negou-lhe o prémio.

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