"Até quando vou continuar a saltar? Gostava de dizer a vida inteira, mas sei que não é possível"

Jacqueline Valente, a atleta brasileira, de 33 anos, compete na prova do Red Bull Cliff Diving World Series, na ilha de São Miguel, nos Açores, como wildcard (convidada). Depois de deixar as artes circenses, está focada na competição de saltos de grande altura. Mas tem os olhos postos no futuro, como conta nesta entrevista.

Estamos em São Miguel, nos Açores, onde Jaki executou em 2018 os saltos mais difíceis do mundo na competição feminina de saltos para a água em grande altura. Como é a única atleta a falar português entre os 24, a brasileira diz que é um sonho chegar ao pódio no ilhéu de Vila Franca do Campo, onde este sábado se disputam as rondas e as finais da prova da Red Bull.

Começou a praticar ginástica acrobática aos sete anos e passou depois para as artes circenses. O que faz neste momento além de se atirar de penhascos a 20 metros de altura?

Trabalhei em circos nos últimos anos, mas este ano decidi concentrar-me só nos saltos e ficar com a minha família no Brasil. Estou a pensar começar a estudar alguma coisa, mas ainda não decidi o quê. Gosto bastante de fazer acrobacias, de me expor com a arte circense, mas não sei se não começo a sentir-me um pouco velha. São muitos anos a trabalhar com o corpo. Acho que chega um momento em que me vou cansar, então estou a tentar encontrar alguma coisa para fazer.

Quais as áreas que mais a atraem?

Gosto bastante de educação física. Entretanto, comecei a interessar-me pela naturologia, em que trabalhas com massagens, reiki. Também gosto de fisioterapia, mas ainda não tive uma decisão definitiva. Como viajas bastante e vês muita coisa, é difícil encontrar um caminho. Espero em breve decidir o que quero fazer.

Até que idade é viável ser cliff diver? Há um limite?

Acredito que não haja um limite. Agora há meninas muito jovens a começar, muito mais jovens do que eu quando comecei [aos 28 anos]. Temos uma menina da Colômbia que tem 18 anos. Cuidando bem do corpo acho que talvez aguente mais quatro ou cinco anos. Tudo depende. Para me manter somente assim, é importante a busca de patrocínios. É complicado não ter outras formas de sustento. Gosto muito disto, mas precisamos de pensar financeiramente no futuro, nas coisas que quero fazer como comprar uma casa ou alugar um espaço para mim.

É difícil ter patrocínios neste desporto?

Para mim está a ser um pouco complicado. A situação no Brasil está difícil e o futebol ainda continua a ser o foco do desporto e dos patrocínios. Mas espero que haja uma reviravolta e que não somente o meu desporto, mas os outros sejam bem vistos e consigam dar apoio e sustento para todos os atletas. É muito interessante mostrar o desporto, a modalidade e a paixão pelo desporto, que é tão enlouquecedor como o futebol.

Este ano tem mais tempo para treinar. Que preparação está a fazer?

Este ano estou a focar-me só nisto. Passei pela ginástica e não pelos saltos, que tem movimentos similares, mas a técnica é diferente. Quanto mais repetições fazes, mais o teu corpo se acostuma e vai automatizando. Se me pedes para fazer acrobacias de solo, eu faço, porque o corpo não esquece. Mas com a idade tudo dói mais um pouco. Acredito que focando-me mais nisso consiga ter resultados diferentes.

Isso quer dizer que o objetivo para esta época é mais ambicioso?

Não falo em objetivo final, mas o resultado já está à vista, porque as dizem que os saltos estão melhores. Competição é competição. Num dia estás muito bem, no outro estás lá em baixo. Vamos ver como corre amanhã [sábado]. Como antecipámos a competição [para quinta-feira], houve mais adrenalina. Nunca sabemos como vai ser o tempo.

Tentou alguns dos saltos mais difíceis nos últimos anos aqui nos Açores. Como correram?

Aqui foi a primeira vez que fiz um salto de parada de mão numa prova, mas, não sei se foi por ser a primeira vez, não fiz tão bem como no treino. Além do treino, é preciso manter a calma e a tranquilidade. E às vezes é difícil. Mas estou na lista dos saltos mais difíceis do mundo entre as mulheres. Sinto-me super honrada por esse título. Às vezes não precisamos de ver as pessoas no pódio. Sinto-me vitoriosa.

Que saltos são esses?

Contêm o maior nível de dificuldade. Um deles é com três mortais para trás com duas piruetas e o outro são duas piruetas com dois mortais e meio, a começar com um pino. Quando começa com as tuas mãos, é mais difícil.

Prefere a palavra "amor" à "coragem". Que paixão é esta?

É a paixão pelo desporto, pela forma como entrei nesta vida. Não foi algo que eu tenha procurado ou imaginado. Nunca pensei: 'vou fazer cliff diving'. Nem sabia que existiam estas competições. Mas é apaixonante pelos locais que conhecemos, as pessoas à nossa volta, a oportunidade de conhecer culturas, gastronomias diferentes. Os Açores? Nossa. Nunca imaginei que pudesse estar aqui. Via as fotos e achava que era um sonho, assim como tantos outros locais. Às vezes ficamos cansados. Fisicamente é muito impactante. Quando me pergunta: até quando vou continuar a saltar? Não sei. Gostava de dizer a vida inteira, mas sei que não é possível. O corpo chega a um limite. Temos que partir para a próxima jornada.

Às vezes ficamos cansados. Fisicamente é muito impactante. Quando me pergunta: até quando vou continuar a saltar? Não sei. Gostava de dizer a vida inteira, mas sei que não é possível.

Que ainda não se sabe qual será...

A próxima jornada talvez seja um pouco difícil de pensar pelo facto de sempre ter trabalhado com o corpo. Mas dá tristeza pensar no que poderia ser feito... Uma carreira tão legal e diferente... Há indecisão.

O cliff diving é um desporto perigoso. O medo está sempre presente?

Com certeza. O medo é algo que nos motiva a continuar a saltar. Quando alguém disser que não tem medo, não posso dizer que não acredito, mas... É um medo adrenalina. O medo impulsiona-nos a continuar a fazer, a manter a concentração e o respeito pela altura. Não importa quantas vezes é que treinaste o salto. Estás sempre com aquele medinho, as borboletas na barriga. Mas, quando sais da plataforma, vais em busca do melhor salto - dos 10. Ainda não consegui nenhum, mas estou a trabalhar para isso.

Não importa quantas vezes é que treinaste o salto. Estás sempre com aquele medinho, as borboletas na barriga.

Além dos treinos em piscinas, faz pilates, ioga. Isso ajuda a controlar as emoções?

Ajuda bastante a digerir. Faço muitos exercícios de respiração, com o diafragma. Os exercícios de relaxamento ajudam-nos a estar mais calmos. Às vezes há muita adrenalina. É preciso saber controlar. Eu ainda estou a descobrir a melhor maneira de controlar. E há vezes em que tu achas que controlas, mas está vento, chuva...

O que é que passa pela cabeça dos atletas quando estão em cima dos penhascos?

Eu penso em tudo o que tenho para fazer. Tento concentrar-me e depois, no salto, é tudo muito rápido. Não penso muito antes do salto.

O cliff diving é um desporto complexo e arriscado. Como é que a família vê esta prática desportiva?

Eles apoiam-me e veem todas as provas que conseguem, consoante o fuso horário. Estão sempre presentes, dão apoio moral, incentivos. Às vezes ficamos inseguros e eles estão sempre a apoiar-nos. Acham diferente e legal. Ficam super orgulhosos por ser a única brasileira a participar.

Como reagiram quando lhes disse que ia saltar pela primeira vez?

As primeiras vezes que saltei simplesmente não lhes disse. Saltei, fiz os vídeos e depois mostrei-lhes. Acharam que era muito alto, mas sabem que treino bastante e confiam no que eu faço.

* A jornalista viajou a convite da Red Bull.

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