Thierry Henry. O campeão do Mundo francês que agora ajuda os belgas

Ex-avançado é atualmente adjunto da Bélgica e esta terça-feira vai defrontar o país onde nasceu e viveu várias glórias. Henry gosta de passar despercebido e doa o seu salário a instituições de solidariedade

Esta terça-feira, quando as seleções da França e da Bélgica se perfilarem no relvado na altura em que entoarem os hinos dos dois países antes do jogo da meia-final (19.00, RTP1), provavelmente as câmaras vão apontar na direção do banco dos belgas e focar um senhor que dá pelo nome de... Thierry Henry.

Henry, um dos melhores avançados da história do futebol francês, que pela seleção gaulesa conquistou um Mundial (1998), um Europeu (2000) e uma Taça das Confederações (2003), é adjunto do selecionador belga, o espanhol Roberto Martínez (é o terceiro da hierarquia). Mas esta terça-feira estará do lado do rival, com a particularidade de ter sido colega de seleção do selecionador francês Didier Deschamps quando os gauleses conquistaram os maiores títulos da sua história. Henry fez ainda parte da seleção que disputou a final do Mundial 2006, que perdeu com a Itália.

Thierry Henry em ação no Mundial de 1998

"É estranho ter Thierry Henry contra nós", assumiu Olivier Giroud, avançado da seleção francesa há poucos dias. "Todos sabem que ele quer ter uma carreira de treinador e está ali para aprender e evoluir. É uma lenda do futebol francês e todos o respeitamos muito", acrescentou. "É algo bizarro, porque ele é francês e vai estar do outro lado", considerou o selecionador Deschamps.

"Não sei o que ele vai fazer na altura dos hinos. Talvez cante a Marselhesa, o que é normal. Está numa situação difícil, mas ele agora trabalha para a Bélgica e quer vencer. É o trabalho dele, é o futebol", atirou Kevin De Bruyne, uma das estrelas da seleção belga.

Thierry Henry juntou-se à seleção da Bélgica em agosto de 2016, convidado para assistente de Roberto Martínez após o Euro2016. "A sua experiência na Premier League vai ajudar muitos dos nossos jogadores que competem lá. Ele vai ajudar os nossos jogadores a ganhar títulos e a comportarem-se como uma equipa", disse na altura o selecionador da Bélgica, que na segunda-feira, na projeção do jogo, voltou a elogiá-lo: "Trabalhamos com Henry nos últimos dois anos, temos uma metodologia clara e ele ajuda-nos bastante. Tem know-how de Mundiais, experiência, sabe como os atletas se sentem nestes momentos. Não temos uma geração que tenha ganho um Mundial. O Henry é um líder, atento aos detalhes. Ele ajuda todos os jogadores."

O trabalho de Henry na seleção dos diabos vermelhos está mais direcionado para os avançados. Sobretudo com Romelu Lukaku, o goleador da seleção belga que joga no Manchester United de José Mourinho. Não se sabe se por influência ou não de Henry, a verdade é que Lukaku tem-se exibido a um nível altíssimo neste Mundial. Já não é só um jogador que se limita a empurrar as bolas para as balizas adversárias. É um avançado que trabalha para a equipa e que faz assistências. No final do jogo com o Brasil foi perfeitamente visível a sintonia entre ambos no relvado, com a vitória a ser celebrada com um longo abraço.

"Thierry Henry foi a melhor coisa que me aconteceu. Trabalhar com ele na seleção da Bélgica é ótimo, pois é um avançado que eu tenho como modelo. Às vezes passo horas a pedir-lhe conselhos e a aprender", reconheceu recentemente Lukaku numa entrevista à NBC.

Ao serviço da seleção francesa, Thierry Henry esteve envolvido num dos lances mais polémicos do futebol mundial. Em 2010, no play off decisivo de apuramento para o Mundial da África do Sul, o avançado ajeitou a bola com a mão no golo de Gallas, que permitiu aos gauleses empatarem (1-1) com a República de Irlanda e apurarem-se para o Campeonato do Mundo. "Sim, toquei com a mão, mas não sou árbitro. Eu estava atrás de dois jogadores irlandeses, a bola bateu na minha mão e continuei a jogada", admitiu na altura ao Le Monde.

Doa o dinheiro a instituições de solidariedade

O ex-avançado francês está na seleção da Bélgica para aprender, pois pretende a breve prazo dar início a uma carreira de treinador. De acordo com o jornal Mundo Deportivo, Henry recebe cerca de oito mil euros/mês da federação belga, mas esse dinheiro é doado na íntegra a instituições de solidariedade. Na brincadeira, o agora técnico costuma dizer que está a tirar um Master ao lado de Roberto Martínez.

Henry funciona como um líder silencioso. Não gosta de estar na berlinda e tem recusado todo o tipo de entrevistas e comparecer em conferências de imprensa. Sobretudo agora que vai defrontar o país onde nasceu. Mas o seu nome está sempre presente. Não há conferência onde não seja perguntado ao selecionador e aos jogadores como é trabalhar com Henry e se a sua experiência tem sido importante no sucesso da seleção.

Aliás, quando foi apresentado, o antigo avançado fez logo questão de avisar que queria ficar na sombra. "Não sou o selecionador nem sequer o número 2. Sou o T3, o terceiro treinador. Isto não é o Thierry Henry show: estou aqui para ajudar o selecionador e a equipa. Como treinador não interessa o meu sucesso como jogador no passado. Como treinador ainda não provei nada", indicou.

Thierry Henry, 40 anos, mostrou-se sobretudo no Arsenal, clube pelo qual se sagrou duas vezes campeão inglês e venceu três Taças de Inglaterra. É ainda hoje o melhor marcador da equipa onde foi treinador pelo compatriota Arsène Wenger. Antes do Arsenal representou o Mónaco e a Juventus. E depois de deixar o clube londrino atuou no Barcelona e no New York Red Bulls.

Atualmente, além de adjunto da seleção belga, Henry é comentador da Sky Sports para os jogos do campeonato inglês.

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