Quem faz frente ao City na Premier League mais portuguesa de sempre?

Arranca esta sexta-feira a mais competitiva liga europeia, com vários candidatos a quererem fazer frente a Guardiola. Os clubes passaram a barreira dos mil milhões de euros em contratações e há 18 portugueses entre jogadores e treinadores

É no denominado Teatro dos Sonhos, em Manchester, que a Premier League dá esta sexta-feira o pontapé de saída da sua 27ª edição. A cidade que acolhe os dois primeiros classificados da última competição marca o arranque da mais competitiva liga de entre as cinco principais da Europa (quatro campeões na última década, sendo que nenhum deles conseguiu mais de três títulos nesse período). O jogo coloca frente a frente o United, onde joga Diogo Dalot e treinado por um José Mourinho que se tem mostrado insatisfeito nas últimas semanas com a falta de reforços, e um Leicester que perdeu uma das suas estrelas (Mahrez) e conta com dois portugueses nas suas fileiras (Adrien e Ricardo Pereira).

Curiosamente, há 20 anos, os dois conjuntos também se enfrentaram na ronda inaugural, numa partida que terminou empatada (2-2, com os red devils a recuperarem de uma derrota que parecia certa nos últimos 11 minutos).

Se neste primeiro jogo há quatro portugueses em competição, esta será a edição da Premier League com mais lusitanos em ação. No total, serão 18, três treinadores principais (ainda há mais sete com outras funções) e 15 jogadores, muito por influência da subida do Wolverhampton, onde mora a maior "colónia" portuguesa. Além do técnico Nuno Espírito Santo, os "lobos" ainda contam com mais sete futebolistas nascidos no nosso país: a Rúben Neves, Diogo Jota, Hélder Costa, Ivan Cavaleiro e Rúben Vinagre (que conquistaram o título do Championship na época transata), juntaram-se agora os internacionais e campeões da Europa Rui Patrício e João Moutinho.

O "recorde" estabelecido na temporada de 2008-09, que teve 15 portugueses (todos jogadores, sendo que seis vestiram a camisola do Chelsea), está desta forma superado. Além dos nomes já referidos, ainda há que contar com o técnico Marco Silva (Everton) e com os futebolistas Bernardo Silva (Manchester City), Cédric Soares (Southampton), Rui Fonte (Fulham), André Gomes (Everton, por empréstimo do Barça, conseguido em cima do fecho do mercado) e o jovem campeão de sub-19 Domingos Quina (contratado à última hora pelo Watford, por um milhão de euros). Longe vão os tempos em que Dani se tornava no primeiro português a jogar no principal escalão inglês com a camisola do West Ham, em 1995-96.

Liverpool, o desafiador

Numa temporada em que o mercado fechou na quinta-feira, bastante mais cedo do que aquilo que tem sido hábito (31 de agosto, situação que tem provocado algum desagrado pois os clubes ingleses arriscam perder jogadores até essa data sem conseguirem contratar), o atual campeão Manchester City parte como grande favorito à conquista e revalidação do troféu, depois de ter garantido a vitória na edição do ano passado a cinco jornadas do fim. Não espanta por isso que o diretor-executivo da Premier League, Richard Scudamore, tenha feito votos para que este ano a competição seja mais renhida: "Não quero colocar em causa a excelência do Manchester City mas espero que este ano a época dure até ao fim. Espero ter troféus distribuídos por vários estádios na última ronda por não sabermos quem vai vencer".

Certo é que a a Community Shield já foi conquistada sem grandes problemas (2-0 ao Chelsea no último fim de semana), mostrando que a máquina de Pep Guardiola está a carburar em grande, com Bernardo Silva em plano de destaque. Não que o catalão acredite em facilidades, uma vez que boa parte dos seus rivais se reforçaram bem na teoria - "aumentámos o nível da Premier League", disse o técnico sobre esse assunto -, mas a verdade é que o favoritismo dos citizens é reconhecido por toda a gente. Até um super-computador que analisou a a capacidade dos participantes lhes deu o triunfo, algo que já tinha feito, acertadamente, antes do arranque da última época.

A verdade é que, como em equipa que ganha não se mexe, Guardiola, que não perdeu nenhum dos nomes principais, apenas fez uma contratação de peso: o argelino Riyad Mahrez foi resgatado ao Leicester por cerca de 68 milhões de euros. Este domingo, com a deslocação a Londres para defrontar o Arsenal no primeiro jogo grande da época, já se terá uma primeira ideia sobre se essa foi uma decisão acertada.

Na teoria, o grande opositor à pretensão do City mora em Anfield. Depois de chegar à final da última Liga dos Campeões e apesar de ter terminado apenas em quarto na Premier League, o Liverpool mostrou que está disposto a desafiar os campeões com o seu futebol alegre e incisivo. Jürgen Klopp deixou sair o alemão Emre Can mas, em compensação, fez quatro contratações de grande qualidade: Shaqiri (ex-Stoke City), Fabinho (ex-As Monaco), Naby Keita (ex-RB Leipzig) e o guarda-redes Alisson (ex-AS Roma, que durante uns dias foi o mais caro da história na posição), de modo a ter alguém à altura do resto da equipa, onde pontifica o tridente constituído por Sadio Mané, Roberto Firmino e Mohamed Salah, melhor marcador da última temporada. No total, os reds investiram uma verba a rondar os 180 milhões de euros, que os tornaram no clube mais gastador da presente janela de mercado em Inglaterra.

Heaven Knows I'm Miserable Now

Já o Manchester United, segundo classificado no ano passado, naquilo que José Mourinho classificou ironicamente como a sua maior proeza, parte para esta edição sob o signo da descrença. A direção do clube conseguiu apenas realizar duas contratações de peso (a do jovem português Diogo Dalot e do médio brasileiro Fred, ex-Shakhtar) para compensar as saídas de Daley Blind e Michael Carrick (que se retirou), deixando o técnico português completamente desalentado com os meios à disposição para lutar com o City. Ainda por cima, esta é a sua terceira época no clube e a história mostra que esse não costuma ser um ano feliz para o técnico português, que também perdeu o "fiel escudeiro" Rui Faria - Silvino e Ricardo Formosinho são agora os compatriotas que o acompanham.

"Agora é tempo, pelo menos para mim, de deixar de pensar no mercado, uma vez que está quase a fechar. Vou ter de me focar nos jogadores que tenho e em irmos com tudo o que temos para o primeiro jogo", assinalou, de cara fechada, o manager dos "red devils" na antevisão da partida com o Leicester.

O negativismo que rodeia o ambiente em Old Trafford (até o referido computador colocou a equipa no terceiro lugar final) foi, aliás, confirmado por Paul Scholes, ex-jogador do clube. "Não vejo que o United possa aproximar-se este ano do City. Eles têm grande equipa, grande treinador, grandes jogadores e uma forma de jogar que todos eles conhecem. O United parece não saber para onde quer ir. Não se sabe como se vão exibir de um jogo para o outro... Espero estar enganado mas não os vejo a lutar pelo título esta época", afirmou o antigo médio.

Estabilidade vs. mudança

Os restantes três candidatos ao título, todos londrinos, tiveram um defeso diferente. O Tottenham, em processo de construir um novo estádio, não fez qualquer alteração no plantel orientado por Mauricio Pochettino. Não comprou nem vendeu, apresentando este ano o mesmo conjunto de jogadores que terminou a época 17/18 num excelente terceiro lugar. É uma situação invulgar no futebol moderno, que se tornará, por certo, num "case study" sobre o valor da estabilidade num mundo completamente instável.

O rival do norte da capital inglesa Arsenal, por seu turno, vai jogar pela primeira vez, em mais de duas décadas, sem o comando de Arsène Wenger. Também sem grandes contratações (fez cinco: o guarda-redes Bernard Leno, ex-Leverkusen, os defesas Lichtsteiner, ex-Juventus, e Sokratis, ex-Dortmund, e os médios Lucas Torreira, ex-Sampdoria, e Matteo Guendouzi, ex-Lorient), cabe agora ao espanhol Unai Emery dar seguimento aos títulos que conseguiu ao serviço do Paris SG - foram sete em dois anos. A pré-temporada nem correu mal, com três vitórias, incluindo uma goleada ao seu antigo clube (5-1) e dois empates, mas resta saber como é que os jogadores vão lidar com uma nova filosofia - e qual será a tolerância dos adeptos depois da saída do francês se as coisas não começarem a correr bem.

Já o Chelsea imitou os gunners: também trocou de manager, embora tenha continuado a apostar na escola italiana. O contestado (sobretudo no plantel) Antonio Conte deu lugar a Maurizio Sarri, o homem que transformou o Nápoles numa máquina de jogar bom futebol embora sem grande sucesso prático - aliás, o técnico nunca conquistou qualquer título ao longo da sua carreira. Se o espectáculo parece garantido em Stamford Bridge, dificilmente Roman Abramovich terá paciência para esperar muito tempo pela chegada de troféus. Ainda por cima, os blues também não estiveram particularmente ativos no mercado: perderam o guarda-redes belga Courtois e tiveram de gastar 80 milhões de euros (recorde mundial) no seu substituto, o jovem basco Kepa Arrizabalaga (e ainda foram buscar o veterano Rob Green para suprir a saída do português Eduardo). Mas, com a aquisição de Jorginho (ex-Nápoles), foram o segundo clube mais gastador do mercado, uma vez que Mateo Kovacic (incluído no negócio com o Real Madrid), chegou a Londres por empréstimo. Pelo menos por enquanto, a continuidade de Eden Hazard foi a grande notícia para Sarri.

Portugueses ambiciosos

Marco Silva e Nuno Espírito Santo partem este ano com a ambição de lutar pelo lugar europeu que pode ficar livre caso as duas taças não contemplem qualquer surpresa. O novo mister do Everton vai para o seu terceiro ano de Premier League e tem, ainda assim, pouca margem de manobra depois da boa imagem mas fracos resultados das duas primeiras experiências: no Hull City entrou bem mas não evitou a descida de divisão; no Watford arrancou de forma excelente e chegou a estar em quarto lugar mas acabou por sair dos hornets a mal depois de manifestar a intenção de rumar a Goodison Park, o que coincidiu com uma abrupta queda de forma da equipa.

Agora num estádio que tanto diz a Portugal - foi lá que Eusébio deu show frente à Coreia do Norte, em 1966 -, Marco Silva tem de dar outra resposta, até porque a pré-temporada não foi exatamente bem sucedida (quatro derrotas consecutivas e apenas um triunfo frente a um adversário amador). Foi buscar o avançado brasileiro Richarlison ao seu antigo clube (pagando quase 45 milhões) e o defesa Lucas Digne ao Barcelona, de onde também chegou o já referido André Gomes (o compatriota João Virgínia, campeão europeu pelos sub-19, chegou do Arsenal mas não deverá fazer parte do plantel principal). Com o central Yerry Mina (ex-Barça, que custou pouco mais de 30 milhões de euros e foi um dos destaques do último Mundial) e o extremo Bernard (ex-Shakhtar, contratado a custo zero), a partida de Rooney para a MLS deverá estar devidamente compensada embora haja quem se queixe da falta de um goleador.

Do Wolverhampton já se referiu a extensa colónia portuguesa, a que se juntam alguns futebolistas que passaram pela liga nacional (como Raúl Jiménez, emprestado pelo Benfica, Willy Boly, contratado definitivamente ao FC Porto, ou Leo Bonatini, que passou pelo Estoril). Mas os campeões do Championship querem regressar em grande à Premier League e não se ficaram por aqui. Jonny Castro (emprestado pelo Atl. Madrid), Benik Afoe (ex-Bounemouth), o belga Dendoncker (emprestado pelo Anderlecht) e o extremo Adama Traoré (ex-Middlesbrough), contratação mais cara de sempre do clube (20 milhões de euros), completam a lista de nomes sonantes que chegaram às mãos de Nuno Espírito Santo para atacar a época do regresso.

Dos restantes clubes, o destaque vai para o West Ham. Depois de um ano atribulado, que meteu uma invasão de campo dos adeptos em protesto contra a direção, os hammers reforçaram-se bem e prometem apontar à metade cimeira da classificação. Sob orientação do chileno Manuel Pellegrini, que já se sagrou campeão inglês pelo City, e um punhado de boas aquisições (Fabianski, Wilshere, Lucas Pérez, Yarmolenko, Felipe Anderson, Carlos Sánchez e Issa Diop), os londrinos podem superiorizar-se numa luta que inclui ainda clubes como o Leicester (campeão há dois anos mas que tem perdido demasiados craques - Vardy é o "resistente" e até renovou ontem por quatro épocas) ou o Newcastle (onde Rafael Benítez terá de lidar com o descontentamento dos seus jogadores por a direção não lhes pagar os prémios devidos). Realce ainda para o Fulham, que se tornou no primeiro recém-promovido a superar a barreira dos 100 milhões de libras em aquisições.

E agora, que comece o espectáculo - o mínimo que se exige numa liga onde os clubes gastaram perto de 1,4 mil milhões de euros em mais de 200 jogadores, com a curiosidade de os dois futebolistas mais caros serem... guarda-redes.

Eis os jogos da 1ª jornada
Sexta-feira
Manchester United-Leicester
Sábado
Bournemouth-Cardiff
Fulham-Crystal Palace
Huddersfield-Chelsea
Newcastle-Tottenham
Watford-Brighton & Hove Albion
Wolverhampton-Everton
Domingo
Liverpool-West Ham
Southampton-Burnley
Arsenal-Manchester City

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