Podia ter sido em Alvalade, mas havia "muita bófia": tudo o que o MP sabe sobre o ataque

Ataque podia ter sido em Alvalade, mas havia "muita bófia". Estavam para ser 20 ou 30 e até 100 os agressores, acabaram por ser cerca de 40. Despacho de acusação refere que escalada de violência foi incentivada por Bruno de Carvalho

O plano para "castigar" os jogadores do Sporting foi delineado em grupos privados nas redes sociais, mas a escalada de violência terá começado muito antes, alegadamente incentivada por Bruno de Carvalho e alimentada por elementos das claques. O despacho de acusação do Ministério Público (MP) indica que foi o ex-presidente do Sporting quem determinou o ataque à Academia. O método para a invasão terá sido traçado dias antes, através de contactos pessoais, telefónicos e dos grupos de WhatsApp com os nomes "Piranhas on tour " e "Academia amanhã ". Bruno de Carvalho terá ajudado, até porque"manifestava sentimentos de desprezo contra todos os jogadores", nomeadamente contra Rui Patrício e William Carvalho, diz o MP.

A acusação indica que a maioria dos arguidos se organiza em modo de guerrilha urbana, ou seja, fazem ataques em grupo, criando um clima de terror e pânico nos dias dos jogos. Dos 43 indivíduos que invadiram a Academia de Alcochete a 15 de maio deste ano, 41 estão acusados, juntando-se-lhes Bruno de Carvalho, Nuno Mendes (Mustafá) e Bruno Jacinto, num total de 44 pessoas acusadas.

Os elementos da Juve Leo entraram na academia do Sporting quase todos encapuzados. O despacho explica a intenção: "Criar um clima de medo e terror junto dos jogadores e da equipa técnica". Durante a invasão foram usadas tochas e nas agressões, cintos, paus e bastões.

Os agressores receberam, de acordo com a versão do Ministério Público, instruções de Bruno de Carvalho e de Mustafá, líder da Juve Leo, e ainda de Bruno Jacinto, antigo Oficial de Ligação aos Adeptos (OLA) do Sporting, garante o MP.

Segundo a acusação, foi a 7 de abril que a ideia de atacar os futebolistas começou a ganhar forma. O despacho assinado pela procuradora Cândida Vilar refere que Bruno de Carvalho marcou uma reunião com Mustafá (Nuno Mendes) e com outros elementos das claques. Nesse dia falaram em "visitar" a Academia. Bruno de Carvalho terá dito: "Façam o que quiserem."

O jogo na Madeira, a 13 de maio de 2018, em que o Sporting foi derrotado, foi o gatilho para o ataque. É também em grupos do WhatsApp, como o denominado "Exército Invencível", do qual fazem parte sete dos atuais arguidos neste caso, que a invasão começa alegadamente a ser planeada.

"Esse Patrício é uma ganda merda, não vale um caralho, esse é que devia levar umas kinkas", é uma das mensagens trocadas num dos grupos dessa rede social. Alguém sugere que se vá a Alcochete atacar os jogadores.

"Tb sou dessa opinião de ir a Alcochete, mas poucos, 20/30." As restantes mensagens são insultos, ameaças, sede de vingança: "William não vale uma piça; "Filhos da puta, era levar na boca já aí na Madeira", "Tochada neles", são algumas das mensagens transcritas pela investigação para o despacho de acusação.

"Tem que ir tudo, porque é para bater mesmo"

Houve quem quisesse "castigar" os jogadores ainda na Madeira, para logo o grupo se organizar melhor, alega o MP. "Mano Alcochete antes do Jamor." Alguns não queriam esperar e sugeriram que o ataque fosse feito em Alvalade. "O melhor é Academia. Alvalade está sempre cheio de bófia", respondem-lhe.

É então que se começam a traçar alguns pormenores: "Todos Tapados" ou "Partam o carro". Importava também saber quantos iriam participar na "missão". Os mais inflamados escreviam: "Tem que ir tudo, porque é para bater mesmo", como houve quem defendesse: "Mais vale poucos e bons e sem dar canas do que muitos e fracos." E, por fim: "Se queres uma coisa bem feita, temos de ser nós: o núcleo."

O jogador argentino Acuña era um dos mais visados:"É MESMO IR À PORTA DE CASA". Um dos arguidos pede as matriculas dos veículos dos futebolistas argentinos Acuña e Rodrigo Battaglia. E recebeu-as.

As mensagens de ódio trocadas entre os elementos do grupo de WhatsApp são várias, e o ataque começa a ser uma certeza. "Amanhã há academia ou não?", perguntam, a 14 de maio. "Malta toda inclusive os Casuais [grupo de adeptos mais radicais dentro da Juve Leo]", respondem.

"Sim, vamos varrer todos." "É para avacalhar grande." Pergunta-se a hora do treino, sabe-se que é à tarde. Fica marcado.

Mustafá irá, também a 14 de maio, dar alegadamente o aval à invasão. O dele e o de Bruno de Carvalho. "Já falei com o presidente, ele disse-me: desta vez façam o que quiserem aos jogadores." No mesmo dia, informou o líder da Juve Leo "que Jorge Jesus já não era treinador do Sporting Clube de Portugal".

No grupo online "PIRANHAS on Tour" - do qual fazem parte dez dos acusados pelo MP - é então supostamente delineado o plano final. A violência cresce a cada mensagem."Acuña a chamar-nos filhos da puta. Tem que ser apanhado mesmo em casa, tudo para Alvalade se desse já para partir os carros deles partia-se, têm mesmo que levar nos cornos todos."

"Eu vou dar bastonada no Patrício", "jornalistas também é para varrer tudo", são algumas das ideias veiculadas entre o grupo.

São ainda definidas as medidas de segurança dos elementos que vão participar no ataque para não serem identificados: "OK! Todos de balaclava, não saem do carro! Não há infos para fora nem antes nem depois."

Percebe-se que o grupo está exaltado, pois as mensagens sugerem extrema agressividade. "Levam todos menos o Bruno Fernandes", "Até o Coentrão, vão-se foder", "Não vou andar aqui a escolher ninguém", "É bater em todos e ponto, por um pagam todos", "Juntamos 30 gajos fácil", "Mas com atitude", "Um jogador para cada um", pode ler-se no despacho conhecido esta sexta-feira.

Terrorismo, diz MP. "Os jogadores têm que pensar que o Iraque chegou a eles"​​​​

Um exemplo da distribuição: "Mini Fica com o Podence", "Bas Dost é para o Neves", "Samuka Ficas com o Jesus", "Levam com um bastão nos cornos caem todos".

Entre as mais de 140 páginas da acusação encontram-se dezenas de mensagens num crescendo de violência.

"Vamos... Acuña também as mama... Levam Todos, até o Paulinho", "Vejam lá isso...Para bater no Paulinho é preciso quantos gajos? Esse chibo bêbedo. O Jesus drogado do caralho... Vamoooos!!!!"

Em resumo, as mensagens: "Só me apetece bater nos jogadores, mais nada" e "Os jogadores têm que pensar que o Iraque chegou a eles".

Os arguidos estão acusados, entre outros, de crimes que são classificados como terrorismo: 40 crimes de ameaça agravada, 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e 38 crimes de sequestro.Bruno de Carvalho, Nuno Mendes (Mustafá) e Bruno Jacinto estão acusados dos mesmos crimes, como autores morais.