O râguebi mundial vai mudar… mas o descontentamento é generalizado

A criação, já a partir de 2020, de uma Liga Mundial a disputar anualmente por 12 seleções vai, segundo muitos especialistas, atingir a alma de uma modalidade que está a mudar rapidamente e de forma demasiado radical. Mas um pedido de boicote à próxima Taça do Mundo por parte de jogadores do Pacífico e a condenação da Associação Mundial de Jogadores iniciaram um braço-de-ferro com o organismo que superintende o râguebi mundial.

Uma onda de críticas nunca antes vista surgiu esta semana em resposta à intenção da World Rugby (WR) de criar, já a partir do próximo ano, uma Liga Mundial com 12 seleções e que exclui nações do Pacífico Sul como Fiji, Samoa e Tonga. Isto para lá de não estar previsto qualquer sistema de subidas ou descidas durante 10 anos, inviabilizando que também países como Geórgia ou Roménia possam aceder à competição.

Segundo o organismo que superintende a modalidade - e que após diversas fugas de informação tornou agora pública uma nova prova que já vinha estudando e discutindo há algum tempo e que irá alterar radicalmente o râguebi mundial - esta Liga pretende ser uma competição global com um modelo comercial e publicitário atrativo e que acrescenta interesse às tradicionais janelas de julho e novembro.

Será disputada todos os anos em que não haja Taça do Mundo - a próxima decorrerá a partir de setembro no Japão e em 2023 será realizada em França - com os 12 participantes a defrontarem-se entre si ao longo do ano em 11 jogos, cinco dos quais incluídos nos torneios que se já disputam nos respetivos hemisférios. Os restantes encontros decorrerão em três fins-de-semana de julho (com as seleções do hemisfério norte a viajarem para disputar três partidas fora) e de novembro (aí será a vez das seleções do hemisfério sul se deslocarem à Europa).

Tudo terminará nos derradeiros fim-de-semana de novembro e primeiro de dezembro com a realização das meias-finais e da grande final em campo neutro, sendo já falados como possíveis palcos o estádio Olímpico de Berlim, o Nou Camp de Barcelona ou Wembley.

Participarão as integrantes do Torneio das Seis Nações (Irlanda, País de Gales, Inglaterra, Escócia, França e Itália) que continuará a ser jogado em fevereiro/março e as seleções que compõem o Rugby Championship (Nova Zelândia, África do Sul, Austrália e Argentina) às quais se juntarão Japão e Estados Unidos numa prova a decorrer em agosto/setembro e que passará a ter assim também seis equipas que se defrontarão a uma só volta.

Por exemplo, a Irlanda irá disputar os seus cinco jogos no Seis Nações e defrontará anualmente os seis adversários da outra conferência, três na digressão de verão (cada equipa passa a defrontar adversários diferentes e não serão realizadas as tradicionais series de três jogos) e os restantes três em casa, nos testes de outono.

Mas a reação dos jogadores de topo internacional tem sido muito negativa ao não acolher a ideia de melhor forma. Os capitães da Nova Zelândia, Kieran Read e de Inglaterra, Owen Farrell, e o presidente da International Rugby Players (Associação Mundial de Jogadores) e Jogador de Ano em 2018, o irlandês Johnny Sexton, estão entre os seus mais ferozes críticos, considerando que esta Liga Mundial surge apenas como resultado de interesses financeiros e comerciais, e mostra um completo desrespeito pela integridade física dos atletas.

De acordo com o calendário previsto, para alguns jogadores isto significa que terão cinco jogos-teste consecutivos em novembro/dezembro. Farrell afirmou: "Os jogadores estão abertos a discutir um novo modelo de época internacional, que terá que incluir as competições de clubes e a forma como estes os irão libertar. Mas sempre tendo em vista o número de jogos que cada atleta fará por ano com vista a salvaguardar a sua saúde. Ora o que vimos até agora não parece ter nada disto em consideração", acrescentou.

Boicote ao Mundial à vista?

A reação à controversa omissão das nações do Pacífico Sul não se fez esperar por parte de jogadores de topo de Fiji, Samoa e Tonga, que decidiram ir votar um eventual boicote ao Mundial deste ano, no que poderá introduzir o caos na principal competição do planeta raguebístico que se realiza a cada quatro anos. A sua respetiva associação, Pacific Rugby Players Welfare (PRPW), mobilizou os 600 membros para uma "legítima forma de protesto em resposta ao calamitoso plano da World Rugby".

"Em termos de origem contamos com cerca de 20 por cento de todos os jogadores profissionais do mundo e um quarto dos que irão estar presentes no próximo Mundial são descendentes das ilhas do Pacífico Sul", revela Dan Leo, líder do PRPW. "Não penso que o Mundial se possa realizar se se retirarem 25 por cento de jogadores." Para o também capitão de Samoa, sem um sistema de promoção ou relegação esta decisão significará "a morte do râguebi das ilhas do Pacífico e mesmo com um modelo de subidas e descidas as seleções de topo vão continuar a afastar-se ainda mais das rivais. Todos os planos para esta nova Liga das Nações devem ser imediatamente parados", conclui.

Segundo o vice-presidente da WR, Agustin Pichot - que sempre se mostrou adepto de um sistema de subidas e descidas, inclusivamente no Seis Nações, no que é contrariado pelos principais países europeus... -, ainda haverá muitos aspetos a definir, muita pedra para partir e parte do que vem sendo dito ainda está aberto a discussão, nomeadamente a ausência das Fiji que, inicialmente, eram dadas como uma das duas seleções convidadas a participar sendo incluídas no Rugby Championship, e parece irem acabar por ser substituídas pelos Estados Unidos. Uma seleção desportivamente bem inferior mas comercialmente muito mais atrativa...

O CEO da federação neozelandesa, Steve Tew, também insiste em que nada está completamente acordado e que todos os planos deverão "balancear tudo num modelo que agrade a adeptos e jogadores, mas também corresponda a interesses comerciais, incluindo um caminho que permita o acesso às seleções do Pacífico Sul e de outros países em desenvolvimento. É mais justo e preservará a integridade da competição", salienta.

Face à crescente onda de especulações e críticas, o presidente da WR, Bill Beaumont, fez esta segunda-feira uma declaração na qual menciona que, ao contrário do que tem vindo a ser escrito "nenhuma decisão está fechada quanto à criação da Liga Mundial." E finaliza anunciando: "Estamos a meio de um processo complexo, demorado e por isso convoquei uma reunião para o final deste mês, em Dublin, com presidentes e CEO"s de todas as nações do Tier One (primeiro nível mundial), Fiji e Japão e ainda representantes dos jogadores, para analisarmos qual o caminho a tomar com vista a esta nova competição internacional."

Uma coisa é certa, o râguebi, uma das mais conservadoras modalidades do desporto mundial - mas, curiosamente, também uma das que mais vem inovando -, está a mudar aceleradamente. Se pelos melhores caminhos, só mais à frente se saberá.

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