O longo historial de gestos polémicos de Mourinho

Treinador português incendiou o final do jogo que o Manchester United ganhou em Turim ao levar a mão ao ouvido na direção dos adeptos da Juventus. Mas o hábito já vem de longe

"Fui insultado durante 90 minutos. Vim aqui para fazer o meu trabalho, nada mais. Não ofendi ninguém, apenas fiz um gesto que indicava que os queria ouvir falar mais alto. Provavelmente não o deveria ter feito, e de cabeça fria talvez não o teria feito. Mas com a minha família insultada, e até mesmo a minha família do Inter, reagi assim. Não os insultei, respeito a Juventus, os jogadores da Juventus, o treinador da Juventus, e tudo que tenha a ver com a Juventus."

As palavras são de José Mourinho, para justificar o gesto que incendiou o ambiente no relvado de Turim, após a vitória do Manchester United sobre a Juventus (2-1), conseguida com uma reviravolta nos últimos cinco minutos. Assim que soou o apito final, o treinador português atravessou o relvado com a mão junto à orelha, numa espécie de "ora falem lá agora" dirigido para os adeptos da equipa italiana, voltando a colocar-se no centro das atenções.

Este é apenas o último episódio numa extensa lista de gestos polémicos do treinador português ao longo dos anos. Recuperemos aqui alguns deles:

Três dedos em Old Trafford

Já no jogo entre Manchester United e Juventus em Old Trafford, na jornada anterior, Mourinho e os adeptos italianos trocaram provocações, com o treinador a responder com três dedos esticados no ar aos cânticos insultuosos do tiffosibianconeri. "Eles não me amam, eu percebo. O período mais difícil para eles foi quando ganhei o triplete num ano", explicou, no final, lembrando os três títulos (campeonato, taça e Champions) conquistados na temporada de 2009/10 ao comando do Inter de Milão.

Os regressos a Stamford Bridge

Mourinho guindou o Chelsea de Roman Abramovich para os seus primeiros títulos, foi lá Special One, conquistou três campeonatos ingleses em duas passagens diferentes por Londres, mas nem isso lhe garante tratamento privilegiado no regresso a Stamford Bridge. Pelo contrário, o técnico português tem-se visto forçado a lembrar essas proezas nas visitas mais recentes ao recinto dos blues.

A 20 de outubro, no jogo que ficou marcado pela polémica final com o adjunto de Maurizio Sarri, Mourinho também recorreu aos três dedos na direção dos adeptos do Chelsea que o injuriavam, acenando com os títulos de campeão conquistados ao comando do clube londrino.

Já na época anterior, em março de 2017, numa altura em que o Chelsea era treinado ainda por Antonio Conte, técnico italiano com quem Mourinho tinha um relacionamento especialmente difícil, Mourinho recorreu à sinalética dos três dedos quando uma fação dos adeptos blues começaram a brindá-lo com cânticos de "Judas" e "Já não és o Special One". Além da resposta gestual, Mourinho lembrou no final, na conferência de imprensa, que "o Judas ainda é o nº 1" na história do Chelsea.

O histórico 'shhh'

Os ingleses não demoraram muito a ficar a conhecer a faceta polémica de Mourinho, cujo primeiro título conquistado em Inglaterra ficou desde logo assinalado por um gesto que incendiou o palco da final da Taça da Liga 2004/05, em Cardiff. Quando o Chelsea conseguiu chegar ao empate que permitiu levar o jogo para prolongamento, face ao Liverpool de Rafa Benítez, o português não resistiu e percorreu uns bons metros pela linha lateral, diante dos adeptos rivais, com o dedo indicador à frente da boca, em sinal de silêncio. Naturalmente, não foi o silêncio que recebeu em troca.

O Chelsea acabaria por ganhar o troféu, no prolongamento, o primeiro título de Mourinho no futebol inglês, e no final o técnico justificou o gesto polémico como sendo direcionado à imprensa. Mas ninguém acreditou.

O 'shhh' repetir-se-ia em mais um par de ocasiões, como em outubro de 2017, na receção do Manchester United ao Tottenham que terminou com vitória tangencial da equipa de Mourinho (1-0) numa altura em que os red devils eram alvo de crítica cerrada pelos maus desempenhos. O português esclareceu que o gesto era destinado a esses críticos e não aos adeptos da equipa. "Tenham calma, relaxem, não fiquem tão excitados", sugeriu.

O enigma do dedo mindinho

Já esta época, ainda antes da troca de mimos com os adeptos da Juventus, Mourinho já tinha protagonizado um estranho enigma gestual. Tanto no final do jogo com o Valência para a Liga dos Campeões, que terminou empatado a 0-0, como após a dramática reviravolta (de 0-2 para 3-2) frente ao Newcastle para a Premier League, o treinador do Manchester United saiu de campo com o dedo mindinho esticado para quem quis ver, sobretudo na direção das câmaras de tv.

No jogo com o Newcastle, num contexto particularmente difícil em que o lugar do técnico parecia já por um fio, Mourinho acrescentou-lhe mesmo uma coleção de aparentes impropérios em português que lhe valeriam até um processo disciplinar. Mas o significado do dedo mindinho permaneceu um mistério, com a maioria dos media britânicos a entendê-lo como mais uma mensagem para os críticos.

A louca corrida em Camp Nou

É uma das imagens mais icónicas da carreira de José Mourinho (a par de uma outra corrida famosa, em Old Trafford, ainda ao serviço do FC Porto). Assim que acabou o jogo, em Camp Nou, que confirmou a passagem do Inter de Milão à final da Liga dos Campeões 2009/10, Mourinho saltou do banco e lançou-se numa corrida desenfreada pelo relvado com um dedo bem esticado no ar, em sinal de conquista perante os adeptos catalães e aquele aclamado Barça de Guardiola. Uma corrida orgulhosa, de peito no ar, que nem o desesperado guarda-redes espanhol Valdes conseguiu parar.

O ato de contrição

Mas nem só de provocações vive a linguagem gestual de Mourinho nos relvados. Também há exemplos de contrição, como aquele que o técnico deixou após uma vitória no dérbi de Manchester sobre o City de Guardiola, em 2016, para a Taça da Liga. Dia antes, o United tinha sido castigado por 4-0 pelo Chelsea de Antonio Conte e Mourinho aproveitou aquela vitória para pedir desculpa aos adeptos pela humilhação anterior, recriando o resultado com as mãos e juntando-as depois numa espécie de ato de contrição.

Em Turim, Mourinho voltou a confirmar que é um 'animal de palco' do futebol mundial.

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