O dia a seguir ao dérbi. Morato a passear, Duarte Gomes a trabalhar e Futre barricado em casa

Um viveu dias de glória quando aos 18 anos ajudou a roubar um título às águias e no dia a seguir festejou com um almoço de família na Ericeira. O outro decidiu um dérbi a favor dos encarnados e no dia a seguir nem podia sair à rua

Paulo Futre nem saiu de casa, Morato saiu e fez o "passeio dos pobres". O dia a seguir é sempre agridoce para quem decide um dérbi. Se por um lado são heróis, por outro não passam de vilões. Uma coisa é certa: quem decide um Benfica-Sporting ou um Sporting-Benfica fica na história do futebol português e com estórias para contar. Foi assim com Francisco Stromp (fundador do Sporting) e Cosme Damião (fundador de Benfica), eles que além de fundarem os respetivos clubes ainda deram o pontapé de saída no primeiro dérbi lisboeta de que há memória (ver foto n.º 1). E também foi assim que se imortalizaram jogadores como Rogério Pipi e Peyroteo, Eusébio e Manuel Fernandes, Cardozo e Liedson. Ou António Morato e Paulo Futre.

O primeiro marcou num jogo em que os leões venceram e roubaram o título aos encarnados, em 1986, o segundo decidiu um encontro a favor das águias, em 1993, e os adeptos do clube que o formou nunca mais lhe perdoaram... Estórias que tiveram epicentro no atual presidente da SAD, Sousa Cintra. Morato saiu do Sporting porque tinha oito meses de ordenados em atraso e Sousa Cintra recusava pagar antes de ele renovar. Já Paulo Futre foi para o Benfica porque Cintra não apareceu com o dinheiro prometido para o regresso aos leões...

Comecemos por 13 de abril de 1986

Antes de recordar como foi o dia a seguir convém lembrar como se fez herói do jogo um central com apenas 18 anos e que nem foi o autor do golo da vitória. "O Sporting não ganhava há 22 anos na Luz. Quando chegámos à Luz, no balneário levámos com o hino do Benfica pelos ouvidos adentro. Ainda hoje o sei de cor à custa disso. Entranhou-se de tal maneira... Depois havia cachecóis e bandeiras à venda com Benfica campeão. Até as mulheres dos jogadores e dirigentes estavam aperaltadas e prontas para a festa", contou o antigo leão, lembrando que tudo isso funcionou como estimulante para o Sporting.

Morato fez o 1-0 no jogo da 29.ª jornada do campeonato (1985-86). E, acredite-se ou não, tinha "sonhado com isso". "O Damas era o meu companheiro de quarto e tinha-lhe dito que ia marcar. Ele, com aquela calma de gigante, disse, "oh miúdo deixa de sonhar, isso não é para ti". Marquei e ele veio da nossa baliza a correr a dar uns cascudos à bruta, como ele era, e chamar sacaninha, sacaninha, marcaste, foi um espetáculo", recordou saudoso desses tempos o mais jovem capitão dos leões de sempre.

O jogo era no lotado Estádio da Luz "e nesse dia em vez de 120 deviam estar uns 140 mil adeptos nas bancadas" e o Benfica viria a empatar o jogo com um golo de Manniche. Depois "o Manuel Fernandes fez o golo da vitória (2-1)". Mas hoje todos recordam o Morato como herói desse jogo. Porquê? "Porque eu era miúdo, tinha 18 anos, e o Manel tinha 32 e decidir jogos já era normal", respondeu o antigo extremo, revelando que, ainda no balneário da Luz, os jogadores do Sporting todos repetiam "o nosso campeonato está ganho, vamos jantar". E foram. Foram ao restaurante do senhor Evaristo, "coitado, ainda por cima é benfiquista", o Solar dos Presuntos.

Depois Morato foi para casa. Vivia em Loures. No dia a seguir acordou como sempre, "com um café e um cigarrito". "Sempre fumei e às claras, não fui menos jogador por isso", atirou, antes de contar que depois, "como era dia de folga", meteu-se ao caminho com a família e foi almoçar à Ericeira. "Era o passeio dos pobres antigamente. Era verão, passámos lá o dia todo. Porra, não me largaram o dia todo, os adeptos do Benfica viravam a cara e chamavam-me nomes, diziam - "olha o gajo que deu o campeonato ao FC Porto" - eu ouvia tudo, mas não estrebuchava nada. Os adeptos do Sporting era só abraços e autógrafos, autógrafos, autógrafos... até disse à minha mulher na altura: "Se soubesse nem tinha saído de casa."

Golo dedicado a Sousa Cintra

Ficar em casa, foi exatamente isso que Paulo Futre fez no dia 22 de março de 1993. Mas não por opção! "Se saísse não voltaria vivo" para contar a história, admitiu o ex-jogador. Nesse ano tinha assinado pelo Benfica, depois de ter tudo acertado para voltar a Alvalade, clube que o formou. Uma "traição" que os adeptos ainda hoje não lhe perdoaram, segundo ele. E aquele golo no Benfica-Sporting da jornada 25 do campeonato não ajudou. Era o primeiro dérbi com a camisola do Benfica e Futre marcou o golo da vitória. E festejou: "Ergui os braços e apontei para a tribuna, para o Sousa Cintra. Ele sabia porquê. Poucos sabiam. Ele quis contratar-me, só que nunca chegou a aparecer com o dinheiro prometido e apareceu o Benfica e eu assinei, já todos sabem essa história..."

Futre já não se lembra do que fez no dia a seguir ao jogo. "Já não me lembro do que fiz, mas tenho a certeza de que não saí de casa. Devo ter feito as coisas normais de um dia de folga, descansar, dormir, ver televisão... Por isso não houve aplausos nem assobios", recordou aquele que nunca perdeu de águia ao peito.

Por esses dias, Futre só saía de casa para ir treinar e jogar. Uma rotina para o qual já estava calejado. Tinha acontecido o mesmo no Porto e em Madrid, cidades onde aprendeu "a viver em casa". Mas desta vez até um amigo de infância, "dos melhores amigos que tinha", se zangou com ele: "Só conseguimos fazer as pazes há meia dúzia de anos." Ele garante que "estava vacinado" contra tudo no futebol, mas para perder um amigo não. E, como esse amigo, muito adeptos anónimos lhe viraram as costas. "Não me perdoavam e ainda hoje alguns não me perdoam por ter ido para a Luz", contou ao DN.

Árbitro sofre por muitos dias a seguir

Quem também não costuma ter muita vontade para enfrentar a rua depois dos dérbis são os árbitros.

Duarte Gomes enfrentou os colegas de trabalho, "sem problemas, mas com algumas chatices". O ex-árbitro não esquece o 15 de dezembro de 2001. Apitou o primeiro de quatro dérbis na carreira e cometeu alguns erros, mas, ainda hoje, toda a gente se lembra de um em particular...

Mas que erro foi esse? "Um penálti mal assinalado" a favor dos leões. O Benfica vencia por 2-0 quando Quaresma cruzou a bola para Jardel, que na luta com Caneira deixa-se cair... o árbitro assinala grande penalidade e o brasileiro devolve a esperança ao Sporting. Três minutos depois, aos 88m, empata mesmo o jogo (2-2). "Se há jogos que marcam uma carreira, o penálti do Jardel foi um erro entre muitos que cometi. Tinha 27 anos e tinha três anos de I Liga, o Benfica-Sporting foi o meu primeiro grande jogo e não me correu bem", contou ao DN entre lamentos: "Correu francamente mal, não foi só uma decisão, foram várias. Os jogadores não ajudaram nada, pressionaram muito desde o primeiro momento, entre eles desentendiam-se muito, muita pancada, muita falta, muito atrito, muita confusão... mas a memória das pessoas é seletiva e ficaram com esse erro na cabeça."

O jogo da 15.ª jornada da Liga 2001-02 terminou com um empate (2-2) e no dia a seguir o árbitro foi trabalhar: "Foi diabólico! Foi o primeiro contacto a sério com o lado irracional das pessoas, mesmo alguns amigos... Fui trabalhar normalmente, chateado porque o jogo me tinha corrido mal. Percebi logo o impacto que a minha atuação tinha tido. Percebi que, mesmo no trabalho, pessoas que me conheciam há muitos anos estavam de tal forma transtornadas que chegaram a perguntar-me se fiz de propósito. Quando um amigo nos pergunta isto, está tudo dito, alguém que nos conhece, conhece a nossa família, os nossos hábitos, onde vivemos e como vivemos, isto diz muito sobre o day after de um dérbi."

Mas o dia a seguir não foi o pior. Os incidentes foram-se prolongando no tempo. "A campainha a tocar a meio da noite, caixotes do lido incendiados à porta de casa. Ameaças de todo o tipo, por telefone, por carta, no trabalho... Nas semanas seguintes tive de ter cuidado ao sair do trabalho porque estava sempre com aquela ideia de que podiam estar a fazer-me uma espera. A imprensa também me crucificou. Foi um drama, mas fez-me crescer como árbitro e como pessoa e reconhecer que naquele momento, aos 27 anos, se calhar não estava preparado para um ambiente daqueles e um dérbi muito quezilento", confessou Duarte Gomes.

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