Medalhas de Laurel Hubbard reacendem o debate sobre atletas transgénero

Grupos de mulheres do desporto criticam a inclusão de atletas transgénero em provas femininas e apelam à mudança de regras antes do Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020

Os Jogos do Pacífico já terminaram há mais de uma semana, mas as medalhas de ouro da atleta transgénero neozelandesa Laurel Hubbard no halterofilismo continuam a dar que falar.

Na segunda-feira, o grupo neozelandês "Speak Up For Women" exigiu que as autoridades desportivas ponham fim à competição "injusta" e que proíbam as atletas transgénero de competir contra as mulheres. Este grupo defende que o desporto deve manter as categorias por sexo e não por identidade de género e pediu ao comité olímpico da Nova Zelândia e ao ministro do Desporto que "defendam o desporto feminino". "Os kiwis (neozelandeses) sabem que os homens que competem no desporto feminino são descaradamente injustos", disse a porta-voz, Ani O'Brien.

Hubbard, que competiu pela Nova Zelândia no levantamento de peso masculino antes de completar 30 anos, ganhou duas medalhas de ouro e uma de prata em três das categorias de halterofilismo feminino nos jogos que se disputaram em Samoa no início deste mês, superando Feagaiga Stowers, vice-campeã de Samoa e vencedora dos Jogos da Commonwealth, e provocando algum mau estar no meio desportivo. A atleta de 41 anos tem servido como exemplo para as críticas às diretrizes do Comité Olímpico Internacional (COI) para a inclusão de atletas transgénero.

"Eu realmente não acho que ele - ela - deva participar nesta competição, mas percebo que temos de ser inclusivos e não podemos excluir essas pessoas", disse a primeira-ministra de Samoa, Tuilaepa Sailele Malielegaoi, sobre a participação de Hubbard nos Jogos do Pacífico. "Devem participar nestes Jogos com uma categoria própria."

Estas afirmações não estão isoladas. Depois das vitórias de Hubbard, o grupo britânico "Fair Play for Women" escreveu no Twitter que as autoridades desportivas precisam de "acordar" e, nos últimos dias, a campanha por um "desporto para as mulheres" tornou-se mais agressiva:

As diretrizes do COI, definidas em 2015, dizem que qualquer atleta transgénero pode competir como mulher desde que, no período de 12 meses anterior à competição, os seus níveis de testosterona não ultrapassem um valor definido.

Isso tem sido criticado por alguns cientistas que defendem que esta regra não têm conta as vantagens biológicas naturais dos atletas nascidos no sexo masculino, incluindo a densidade óssea e muscular.

Investigadores da Universidade de Otago, com sede em Dunedin, publicaram este mês um estudo no qual defendem que as diretrizes do COI são "mal elaboradas" e que o nível de testosterona das atletas transgénero é "significativamente mais alto" do que o das mulheres. O estudo defende que o COI abandone a sua abordagem binária à competição e considere a criação de uma categoria transgénero ou então que encontre outra solução que equilibre o desejo de inclusão com a necessidade de nivelar as prestações dos atletas.

Esta pesquisa foi imediatamente rejeitada pelos atletas transgénero. "As opiniões dos cientistas, embora válidas, são apenas isso, opiniões", disse Kate Weatherly, ciclista de montanha da Nova Zelândia que fez a transição quando era adolescente e se tornou campeã nacional competindo contra mulheres. "Eu não ganho por margens loucas e as provas mostram que eu tenho pouca ou nenhuma vantagem."

Depois do caso da corredora sul-africana Caster Semenya e das polémicas declarações da tenista Martina Navratilova, que chamou "batoteiras" às atletas transgénero, a troca de argumentos acontece num momento em que todos os atletas estão já a pensar nos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, nos quais Laurel Hubbard tem grandes hipóteses de se tornar a primeira atleta transgénero a ganhar uma medalha de ouro.