Madeira Rodrigues recusa união proposta por Ricciardi

José Eduardo, homem-forte para o futebol na lista do banqueiro, confirma contactos para agregar outras candidaturas

José Maria Ricciardi lançou um repto de união na apresentação da sua candidatura, quarta-feira, no Centro Cultural de Belém - onde Zeferino Boal, um ex-candidato, já apareceu entre os seus apoiantes - e tem-se desdobrado em contactos com outras listas no sentido de poder agregar mais sensibilidades. Sobretudo com as de Pedro Madeira Rodrigues e de Dias Ferreira, como confirmou ao DN José Eduardo, escolhido por Ricciardi para homem-forte do futebol leonino em caso de vitórias eleitoral.

No entanto, contactado pelo nosso jornal, um dos candidatos em questão, Pedro Madeira Rodrigues, recusou esse cenário. O gestor lembra que tentou essa união em torno da sua lista e que deixou até uma vice-presidência em aberto nesse sentido e frisou que a sua candidatura é "das mais adiantadas em termos de equipa e de projeto". "Este barco já vai muito lançado", disse ao DN, rejeitando a hipótese de abdicar em favor de José Maria Ricciardi.

"Fui a pessoa que mais falou com todos e continuo a ouvir opiniões e disponível para falar com toda a gente. Tenho a consciência tranquila quanto a isso", referiu sobre o facto de o universo leonino aparecer tão fracionado nestas eleições. De resto, Pedro Madeira Rodrigues acha que "os sócios não devem preocupar-se muito com isso". "A união será feita depois. No final ajudar-nos-emos uns aos outros. Estou recetivo a isso, caso ganhe, como estou convencido, ou caso não ganhe".

José Eduardo confirma contactos... inconclusivos

Ainda assim, a entourage de José Maria Ricciardi não perde a esperança de conseguir unir mais algumas candidaturas atuais em volta do banqueiro. Ao DN, José Eduardo, o homem escolhido para liderar todo o futebol leonino na lista de Ricciardi, confirmou que "já houve contactos com essas duas candidaturas [Pedro Madeira Rodrigues e Dias Ferreira], mas não foram conclusivos".

É mau para o Sporting ter o seu universo tão fracionado

A última candidatura a apresentar-se à corrida eleitoral luta contra a dispersão atual de candidatos às eleições de dia 8 de setembro. "É mau para o Sporting ter o seu universo tão fracionado. Vamos continuar a fazer esse esforço. A mensagem foi muito clara na nossa apresentação: queremos unir o Sporting, integrar, evitar essa dispersão", referiu José Eduardo, que não limita esse esforço de união às candidaturas de Pedro Madeira Rodrigues e de Dias Ferreira. "Se calhar já houve mais conversas com outras pessoas. Não têm que ser os líderes de cada candidatura a falar diretamente. Há várias pessoas a tentar estabelecer pontes."

José Eduardo sublinhou que ficou dado "um sinal claro" dessa vontade agregadora com a "entrada de Zeferino Boal". Se vai haver mais candidatos a juntarem-se a Ricciardi ou não... "não depende só de nós", diz. "É sempre preciso haver vontade das duas partes para haver um casamento".

Bruno de Carvalho "perigoso"

Para já, as candidaturas em marcha são oito: além das de José Maria Ricciardi, Pedro Madeira Rodrigues e Dias Ferreira, estão na corrida Frederico Varandas, Fernando Tavares Pereira, João Benedito, Carlos Vieira e Bruno de Carvalho, o presidente destituído a 23 de junho.

Ainda sem confirmação oficial de que Bruno de Carvalho e Carlos Vieira [vice-presidente de Bruno de Carvalho na anterior direção] possam ir a votos - estão a contas com processos disciplinares -, José Eduardo refere que "qualquer movimento Bruno de Carvalho, tenha a cara que tiver, é perigoso" para o Sporting. "Por isso é que foi destituído. É um caso gravíssimo de anomalias comportamentais".

O DN tentou também ouvir Dias Ferreira quanto a uma possível união com a lista de José Maria Ricciardi, mas não foi possível até ao momento.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.