Judy Murray apela às tenistas para levantarem a voz em caso de abusos

Para a treinadora e mãe de dois antigos campeões de Wimbledon, Jamie e Andy Murray, o ténis deve viver um momento #metoo. "Toda a gente que está no circuito é capaz de identificar algo que não está bem", alerta

"É só necessário alguém começar". Para a conceituada treinadora de ténis britânica é o que basta para que se dê início ao movimento #metoo que, desde 2017, tem revelado casos de abuso e violência sexual, que começaram em Hollywood com as acusações a Harvey Heinstein - o produtor foi formalmente acusado de violação e abuso sexual.

Antes do início do torneio de Wimbledon, que arranca hoje, Judy Murray dá uma entrevista ao The Guardian e apela a todas as tenistas que levantem a voz e denunciem abusos de que tenham sido alvos ao longo da carreira. E garante que há casos, mas é o silêncio que impera na WTA, associação que gere o circuito profissional feminino, lamenta.

Quando questionada se já teve conhecimento de abusos no ténis feminino, Murray não hesita. "Sim. Qualquer pessoa pode dar exemplos. Penso que todos os que estão no circuito podem identificar algo que não está bem", atira, sem, no entanto, revelar nomes.

"Qualquer pessoa que tenha sofrido abusos na relação com o treinador que fale sobre isso"

A detentora de 64 títulos, ex-capitã da seleção britânica para a Fed Cup, treinadora e mãe de dois antigos campeões de Wimbledon, Jamie e Andy Murray, revela que "é muito fácil" aproveitarem-se de uma jovem e inexperiente tenista, quer seja a nível sexual, psicológico e até financeiro. E, nesse sentido, faz um apelo: "Qualquer pessoa que tenha sofrido abusos na relação com o treinador que fale sobre isso", sublinha Judy Murray.

"Usem a vossa voz quando têm uma voz"

Tendo em conta a experiência enquanto jogadora e treinadora, a britânica defende, aliás, a criação de um organismo que apoie as tenistas de qualquer tipo de abuso na modalidade. "As atletas tendem a passar a maior parte do seu tempo com o treinador e com o colega - normalmente são rapazes e mais velhos que elas. Com quem é que estas raparigas falam se tiverem problemas físicos ou emocionais?", questiona-se Judy Murray.

A chamada de atenção da conceituada treinadora é dirigida também às tenistas de elite que ganharam espaço e voz no ténis mundial. "Precisamos que as atuais atletas deem um passo em frente. Usem a vossa voz quando têm uma voz", pede Murray.

Foi o que fez a quádrupla campeã olímpica de ginástica, a norte-americana Simone Biles, uma das muitas atletas que levantou a sua voz ao denunciar que foi abusada sexualmente pelo antigo médico da seleção dos EUA, Larry Nassar, que, em janeiro deste ano, foi condenado a 175 anos de cadeia.

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