O novo Benfica de Bruno Lage continua 100% vitorioso

Seferovic e Jardel marcaram os golos de um jogo em que o Benfica sublinhou sinais de uma nova identidade, mas teve a tarefa facilitada pelos erros do Santa Clara, que jogou mais de 45 minutos apenas com dez

Dois jogos, duas vitórias e a subida ao segundo lugar. Não está mau o resumo da era Bruno Lage ao fim de dois jogos no comando interino do Benfica, após a demissão de Rui Vitória.

A equipa da Luz ganhou nos Açores por 2-0 e, mais do que uma vitória facilitada pelos erros do Santa Clara - e em especial do central Fábio Cardoso, em noite desastrada -, ficou sobretudo sublinhada a tentativa de construção de uma nova identidade neste Benfica.

Mais elaborada, com um futebol mais diversificado e aparentemente mais cativante para os próprios jogadores, que na segunda metade, com a vitória assegurada, se divertiram com a bola durante largos períodos. Por vezes em excesso até, diga-se, perdendo a objetividade exigida em alta competição e a oportunidade para construir um resultado bem mais volumoso.

Para este segundo jogo ao comando dos encarnados, Bruno Lage apostou em duas alterações, em relação ao onze que tinha escolhido para defrontar o Rio Ave na jornada anterior. O jovem técnico fez entrar no onze o médio brasileiro Gabriel (que não era titular na Liga há dois meses) e o sérvio Zivkovic, em detrimento dos argentinos Salvio e Cervi, mas, ao contrário do que poderia deixar supor esse alinhamento, isso não implicou um regresso ao 4x3x3 da era Rui Vitória.

Pizzi apareceu do lado direito do meio-campo, onde já não surgia há muito, e o Benfica apresentou-se num 4x4x2 menos "largo", mas a apostar muito na mobilidade dos jogadores. Sobretudo pela ação de João Félix, o "menino" do Seixal que manteve a titularidade com Seferovic na frente de ataque.

A noite infeliz de Fábio Cardoso

Este Benfica aposta mais no jogo interior, na capacidade de movimentação entre as linhas média e defensiva do adversário e, nisso, João Félix é um exímio desequilibrador. Seferovic também se mostrou bastante ativo a procurar servir de referência para a criação de jogo, enquanto na zona central do meio-campo Gabriel era o distribuidor de serviço, fazendo uso da sua superior capacidade de passe, mesmo num ritmo baixo.

Ainda assim, estava longe de ser brilhante o Benfica na parte inicial do jogo. Os bons princípios travavam na falta de velocidade de execução até o Santa Clara "estender a passadeira" para o golo.

A equipa de João Henriques, que tinha prometido inspirar-se nas proezas cinematográficas de Rocky Balboa contra o favorito opressor, não precisou propriamente de um grande golpe do adversário para cair ao tapete. Ela própria escorregou num azar de Fábio Cardoso, traído pelas condições do relvado quando tentou abordar o lançamento longo de André Almeida para Seferovic, ao minuto 22. O escorregão do central deixou o avançado suíço receber a bola e correr isolado, com César Martins incapaz de o acompanhar, para bater Serginho e dar vantagem ao Benfica.

Antes disso, a equipa de Bruno Lage tinha ameaçado timidamente um par de vezes, pelo próprio Seferovic e por João Félix, mas sem mostrar uma superioridade clara sobre o adversário.

Defensivamente, o Benfica foi conseguindo não passar por grandes sustos, notando-se uma evolução também na pressão (mais alta) da equipa sobre a construção do adversário, embora aqui e ali os açorianos tenham exposto algum espaço nas costas do meio-campo encarnado, obrigando Rúben Dias e Fejsa a amarelos ainda bem cedo na partida.

Penálti, VAR, expulsão...

A terminar a primeira parte, o cenário ficou ainda mais favorável à formação da Luz, quando João Capela expulsou Fábio Cardoso por ter agarrado Pizzi quando este se isolava. O árbitro assinaçou primeiro um penálti, mas reverteu a decisão para livre direto depois de recurso ao VAR, que mostrou a falta fora da área. Os açorianos foram poupados ao penálti, mas perderam o defesa antes do intervalo.

Pior ainda para o Santa Clara: mal as equipas regressaram dos balneários, Jardel fez o 2-0, de cabeça, num canto, aos 48 minutos.

Com as coisas assim facilitadas, o Benfica entregou-se então a um exercício ideológico de troca de bola, passe curto, progressão apoiada, com grande preferência pelo lado esquerdo (Grimaldo, Zivkovic e até Félix e Gabriel) e sem vislumbre sequer daquelas correrias e cruzamentos para a área que povoaram os tempos de Rui Vitória na Luz.

Os jogadores soltaram-se, divertiram-se com a bola, acumularam tabelas e pormenores técnicos, perderam também a objetividade em boa parte do tempo e desperdiçaram golos em dose maior do que o recomendável.

Não foi uma exibição brilhante, repita-se, o desfecho foi facilitado pelos erros do Santa Clara, mas o Benfica parece gostar da sua identidade nova. Que, para já, lhe vale a subida ao segundo lugar, ultrapassando o Sp. Braga, a quatro pontos de um FC Porto que entra em campo amanhã, no clássico de Alvalade frente ao Sporting.

Ficha de jogo

Jogo no Estádio de São Miguel, em Ponta Delgada.

Santa Clara - Benfica, 0-2.

Ao intervalo: 0-1.

Marcadores:

0-1, Seferovic, 22 minutos.

0-2, Jardel, 48.

Equipas:

- Santa Clara: Serginho, Patrick, César Martins, Fábio Cardoso, Mamadu, Bruno Lamas, Pacheco (Accioly, 45+1), Anderson Carvalho, Ukra (Pineda, 59), Zé Manuel e Alfredo Stephens (Guilherme Schettine, 53).

(Suplentes: João Lopes, Accioly, Clemente, Pineda, João Lucas, Kaio e Guilherme Schettine).

- Benfica: Odysseas, André Almeida, Rúben Dias, Jardel, Grimaldo, Pizzi (Gedson, 90), Gabriel, Fejsa, Zivkovic (Salvio, 70), João Félix (Castillo, 85) e Seferovic.

(Suplentes: Svilar, Franco Cervi, Salvio, Krovinovic, Samaris, Castillo e Gedson).

Árbitro: João Capela (Lisboa).

Ação disciplinar: Cartão amarelo para Patrick (08), Anderson Carvalho (20), Ruben Dias (25), Fejsa (34), Jardel (61) e Mamadu (78). Cartão vermelho direto para Fábio Cardoso (43).

Assistência: Cerca de 10.000 espetadores

Figura

João Félix. Mais do que qualquer influência direta no resultado final, as ações do jovem avançado da formação benfiquista dão à equipa uma amplitude de soluções que dificulta, e muito, a vida às defesas contrárias. Voltou a entender-se muito bem com o suíço Seferovic e deixou uma mão cheia de pormenores que revelam inteligência e técnica próprias dos predestinados.

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