FC Porto visita uma Roma cada vez mais americana

Os dragões vão discutir os milhões da Champions com o mais popular clube da capital italiana, que tem vivido na sombra da Juventus e que foi tomada por uma visão empresarial vinda dos Estados Unidos. A história é favorável ao clube português, que nunca perdeu no Estádio Olímpico...

A Loba Capitolina que, diz a lenda, alimentou Romulo e Remo depois de terem sido deitados ao rio Tibre é o símbolo da cidade de Roma, mas também da Associazione Sportiva Roma, que foi fundada em 1927, resultado da fusão de três emblemas para que fosse o porta-estandarte da capital italiana e ser um dos grandes clubes do país. E assim foi. Nasceu um emblema de profundas raízes transalpinas que nos tempos modernos foi tomado por americanos, filhos de emigrantes italianos.

Em 91 anos de história, os populares giallorossi apenas por uma vez (1951/52) não marcaram presença na primeira divisão do futebol italiano, embora só tenham sido campeões por três vezes (1941/42, 1982/83 e 2000/01), juntando a isso nove taças e duas supertaças de Itália, além de uma Taça das Cidades com Feira em 1961, o equivalente atualmente à Liga Europa.

É este clube de raízes populares que vai receber o FC Porto esta terça-feira no Estádio Olímpico de Roma, na primeira mão dos oitavos-de-final da cada vez mais milionária Liga dos Campeões. Um duelo que traz excelentes recordações aos dragões, que nunca perdeu com os romanos e que, por isso, acabou por ultrapassar as duas eliminatórias que colocou as duas equipas frente a frente nas competições da UEFA.

O primeiro jogo entre as duas equipas foi a 21 de outubro de 1981, no Estádio das Antas, a contar para a segunda eliminatória da Taça UEFA. O FC Porto, orientado pelo austríaco Hermann Stessl venceu por 2-0 com golos do irlandês Mike Walsh e de José Alberto Costa, um resultado que causou alguma sensação porque os romanos tinham algumas das grandes estrelas do futebol italiano como Carlo Ancelotti, Roberto Pruzzo ou Bruno Conti, mas também um dos melhores jogadores mundiais como era o brasileiro Falcão, e eram treinados por uma velha raposa do futebol que era o sueco Nils Liedholm.

Na segunda mão, no Estádio Olímpico os dragões sofreram e muito para manter o 0-0, Pruzzo atirou duas bolas à trave e Gabriel salvou quase em cima da linha um remate de Di Bartolomei.

Foi preciso esperar quase 35 anos para que os dois clubes voltassem a encontrar-se, desta vez para o play-off de acesso à Liga dos Campeões de 2016/17. Um autogolo de Felipe causou uma enorme apreensão no Estádio do Dragão logo aos 21 minutos, apenas atenuada pelo golo de André Silva, de penálti.

O empate 1-1 exigia um jogo de superação em Itália por parte da equipa treinada por Nuno Espírito Santo. O brasileiro Felipe redimiu-se da infelicidade na primeira mão e abriu o marcador logo aos oito minutos, obrigando os romanos a esforços redobrados para eliminar os portugueses, mas as expulsões do capitão Daniele De Rossi e de Emerson Palmieri permitiram aos portistas arrancarem para uma goleada de 3-0 completada pelos mexicanos Layún e Jesús Corona. É bom recordar que essa equipa romana orientada por Luciano Spalletti tinha jogadores como Alisson Becker e Salah, que agora brilham no Liverpool, mas também o goleador Dzeko.

Além do FC Porto, o Benfica foi a outra equipa portuguesa que conseguiu vencer no Estádio Olímpico, foi em 1983 por 2-1, nos quartos-de-final da Taça UEFA, graças a um bis de Filipovic que materializou uma grande exibição do conjunto comandado por Sven Göran Eriksson, na caminhada até à final que acabaria por perder com o Anderlecht.

Já o Boavista arrancou um empate 1-1 (golo de Elpídeo Silva) que não impediu a eliminação da Taça UEFA em 2000. Nas restantes quatro receções a portugueses, a Roma acabou por levar a melhor sobre Belenenses (2-1 em 1963), Benfica (1-0 em 1991), V. Setúbal (7-0 em 1999) e o Sporting (2-1 em 2007).

Um clube à americana

A paixão dos adeptos da Roma é enorme, mas o clube é hoje uma empresa de capitais norte-americanos, sediados em Boston. A morte do histórico e carismático presidente Franco Sensi em 2008 fez com que o clube caísse numa espécie de vazio, apesar da filha Rosella ter assegurado a liderança do clube.

A instabilidade levou a que, três anos depois, o grupo americano Di Benedetto, coproprietário da equipa de beisebol Boston Red Sox, adquirisse 60% da AS Roma por 70 milhões de euros. Deste consórcio faz parte o milionário James Pallotta, de 60 anos, que detém uma participação minoritária dos Boston Celtics, uma das melhores equipas da NBA, e que é atualmente o presidente dos romanos. Trata-de de um filho de emigrantes italianos em Boston, que se formou em gestão de empresas e construiu uma fortuna nos Estados Unidos.

O certo é o nível de investimento no plantel não foi significativo, em claro contraste com as grandes vendas que o clube fez desde que os americanos assumiram a gestão em 2011. Foi neste período que foram batidos todos os recordes de vendas da AS Roma com Alisson Becker (62,5 milhões de euros), Mohamed Salah (42 M€), Nainggolan (38 M€), Antonio Rüdiger (35 M€), Miralem Pjanic (32 M€), Marquinhos (31,4 M€) e Erik Lamela (30 M€). Em contrapartida, a contratação mais avultada neste período foi a do francês Steven Nzonzi por 26,7 milhões de euros.

Novo estádio envolto em polémica

Uma das grandes bandeiras da gestão de James Pallotta tem sido a construção de um novo estádio, cuja arquitetura foi inspirada no coliseu de Roma, mas cujo início das obras tem sido sucessivamente adiado devido a alguns problemas, que levaram inclusive à detenção de nove pessoas por uma alegada transferência de 400 mil euros para partidos políticos, por forma a que o projeto pudesse avançar.

Contudo, este escândalo acabou por não atingir diretamente o clube, uma vez que incidiu sobre outros empresários responsáveis por outras construções na zona de Tor di Valle, que irá ser reabilitada e que irá ter como principal atração o moderno Stadio della Roma. Nos últimos dias, contudo, o presidente do município anunciou finalmente que as obras podem arrancar, uma vez que estão preenchidos todos os requisitos legais.

O Stadio della Roma, terá capacidade para 52 500 espectadores e vai implicar um investimento total de cerca de 400 milhões de euros. Ainda assim, nos próximos anos os giallorossi terão de continuar a partilhar o Estádio Olímpico com a eterna rival Lazio, uma vez que, nas melhores expetativas a nova casa não estará pronta a inaugurar antes de 2021.

Épica eliminação do Barça e multa ao presidente

Esta nova Roma "americana" não tem tido, no entanto, grandes resultados desportivos, pois não conquistou qualquer troféu desde que entraram os novos proprietários e o melhor que conseguiu foram três segundos lugares na Série A, que neste período tem estado sob intenso domínio da Juventus, que vai em sete títulos consecutivos.

Na Europa, a Roma deu um ar da sua graça na época passada quando atingiu as meias-finais da Liga dos Campeões à custa do Barcelona, num jogo épico no Olímpico, em que a equipa de Eusébio di Francesco virou a eliminatória contra todas as expetativas, depois de perder 4-1 no Camp Nou.

Dzeko, De Rossi e Manolas marcaram os golos que afastaram os catalães, que era uma das equipas favoritas a conquistar a Champions. Um jogo que deixou em euforia os adeptos, mas também o presidente James Pallotta, que no meio dos festejos mergulhou na fonte da Piazza del Popolo.

Essa excentricidade valeu-lhe uma multa de 450 euros aplicada pelo município de Roma, após a denúncia de uma associação de defesa do ambiente, direitos dos cidadãos e consumidores. Pallotta acabou por telefonar ao presidente da Câmara a pedir desculpas e, como compensação, doou 230 mil euros para renovar uma outra fonte, da Piazza della Rotonda, onde está situado o Panteão.

Humilhação em Florença abriu crise

Quando esta terça-feira entrar no relvado do Estádio Olímpico para começar a discutir a passagem aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, o FC Porto vai encontrar uma Roma em fase de retoma, depois de três jogos consecutivos sem vencer, incluindo uma goleada histórica por 7-1 sofrida em Florença, com a Fiorentina, que ditou a eliminação da Taça de Itália.

O treinador Eusebio di Francesco, que está na segunda época no comando da equipa, chegou a ter o lugar em risco, tendo-se falado inclusive em Jorge Jesus, Paulo Sousa e Antonio Conte como possíveis substitutos. Contudo, o triunfo de sexta-feira por 3-0 em Verona diante do Chievo, último classificado, amenizou a crise que já se instalava na equipa.

Os exigentes adeptos romanos estão desagradados com a equipa que em jogos oficiais disputados esta época conseguiu apenas 14 vitórias em 31 jogos, somando nove derrotas e oito empates. A instabilidade da equipa está muito relacionada com os problemas defensivos que tem exibido, como mostra bem os 45 golos sofridos, dos quais 30 foram na Série A.

Muitas saudades de Alisson Becker

A saída do guarda-redes Alisson Becker para o Liverpool no início da época acabou por não ser devidamente colmatada, uma vez que o sueco Robin Olson ainda não convenceu e no último jogo foi mesmo preterido em favor do veterano Antonio Mirante.

Ainda assim, não se pode dizer que a Roma tem um plantel de baixa qualidade, longe disso. No setor defensivo, onde o espanhol Ivan Marcano, que no final da última temporada deixou o FC Porto em final de contrato, não tem sido muito utilizado, estão jogadores experientes Lorenzi, Federico Fazio, Manolas, Juan Jesus ou Kolarov.

É verdade que no meio-campo Daniele De Rossi, que herdou a braçadeira de capitão do histórico Francesco Totti, deixou de ser indiscutível, mas a equipa conta com os promissores Cristante (ex-Benfica), Lorenzo Pellegrini ou Zaniolo, que tem sido uma das relevações da época, a que se juntam os talentosos Diego Perotti, Javier Pastore e Nzonzi.

No ataque, Dzeko continua a ser o principal goleador, apesar de contabilizar apenas 10 golos em jogos oficiais. Ao lado dele podem aparecer o perigoso El Shaarawy ou o turco Cengiz Under, que aos 21 anos é o menino querido dos adeptos, contrastando com a desilusão que tem sido Justin Kluivert, de apenas 19 anos, mas em quem recaiam grandes esperanças tendo em conta os 17,3 milhões de euros pagos ao Ajax no início da época.

É certo que os tiffosi romanos devem ter saudades de estrelas de outros tempos, que construíram a história de um dos mais importantes clubes de Itália. E na galeria dos notáveis jogadores giallorossi estão nomes incontornáveis como Bruno Conti, Carlos Ancelotti, Francesco Totti, Giuseppe Giannini, Vincenzo Montella, Gabriel Batistuta, Rudi Völler, Thomas Hassler, Falcão, Toninho Cerezo, Aldair, Cafú, Boniek, entre muitos outros.

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