De João Félix a Herrera. 75 minutos à conversa com Bruno Lage

O treinador do Benfica falou das emoções que sentiu e das decisões que tomou nos quatro meses em que deixou de ser um técnico entre muitos para se tornar o treinador campeão nacional. E no momento da vitória fez questão de deixar uma palavra ao rival...

Sorridente e disposto a responder a tudo. "Perguntem tudo o que quiserem." Foi assim que Bruno Lage enfrentou os jornalistas pela última vez esta temporada. Aos 43 anos, quatro meses depois de assumir o comando técnico da equipa principal do Benfica, o técnico natural de Setúbal disponibilizou-se a explicar todas as emoções que sentiu desde o momento em que, no dia 2 de janeiro à noite, recebeu um telefonema para regressar ao Seixal para lhe ser comunicado que iria suceder a Rui Vitória.

Em 75 minutos de conversa aberta, Bruno Lage falou de como tomou a decisão de lançar "o miúdo" João Félix como titular logo no primeiro jogo, da relação que tem com Jonas e da promessa que lhe quer pagar. Mas não esqueceu o principal concorrente na dura corrida palmo a palmo pelo título, o FC Porto de Sérgio Conceição.

Define-se como "um homem comum", um genuíno setubalense, mas que nas férias vai usar óculos, chapéu e até bigode para regressar a um passado não muito distante, ainda antes de pisar o Marquês de Pombal para ser aclamado como o responsável do 37.º título de campeão nacional do Benfica.

O que vai contar aos netos sobre este título

"Como fui pai com uma idade mais avançada, nem me lembrei que posso vir a ter netos. O que me deixa realmente satisfeito é deixar uma marca. E quem se dedica tanto a uma profissão, este registo fantástico de ser campeão nacional e deixar uma marca na história do Benfica e do futebol português, é sinal que compensou, depois de tudo o que abdicámos. É uma caminhada de 20 anos marcada agora com um título nacional."

Os primeiros pensamentos como treinador do Benfica

"Fui convidado quando já não estava à espera. Há um primeiro momento que não acontece, depois um segundo após o Ano Novo que já não esperava. Foi no fim de mais um dia de trabalho, após o qual chego a casa por volta das 20.30 e recebo uma chamada para regressar ao Seixal, onde tinha estado o dia todo a preparar o jogo da equipa B com o FC Porto B. Foi regressar à base para falar com o presidente. O primeiro sentimento foi de oportunidade para mostrar trabalho, é essa a minha forma de estar às vezes até como uma forma de tirar pressão. Já sabia o sentido da conversa e quis aproveitar todos os momentos enquanto cá estivesse para mostrar o homem e o treinador que sou e também o trabalho que podia desenvolver. Uma das coisas que disse quando cá cheguei foi de que ia meter o miúdo [João Félix] a jogar. Vinha na estrada e foi a primeira coisa que pensei. Queria deixar uma marca que era dar a continuidade ao que vinha sendo feito, que era a aposta na formação iniciada por Rui Vitória. Para mudar alguma coisa era jogar em 4x4x2 e por o miúdo a jogar."

A primeira conversa com os jogadores

"Acho que foi uma intervenção que marcou, pois senti no olhar dos jogadores que ia ser o líder deles. Entrei no balneário, sentei-me com eles e pedi-lhes para olharem uns para os outros. 'Olhem uns para os outros que a partir de agora vão ter de jogar em função uns dos outros'. Quando as coisas não estão a correr bem é fundamental que cada um deles corra pelos outros, ainda mais. Comecei a sentir que eles me estavam a ouvir e a captar a mensagem. E quando isso acontece, os jogadores dão ainda mais e sentem que podem ir mais além se jogarem como equipa. E senti isso na altura. Senti que, se as coisas corressem bem, podia continuar a ser o treinador deles. Graças as Deus correu bem. Foi um momento bom e achei curioso o Pizzi ter dito que os jogadores acharam desde o primeiro momento que as coisas podiam mudar."

Os níveis de motivação dos jogadores

"Senti que havia a desilusão dos resultados, porque o que me disseram nas primeiras conversas com o presidente e depois com o Tiago Pinto e o Rui Costa era que o grupo era bom e unido, tinha acabado de perder um bom treinador e um excelente homem, e que a desilusão que se vivia era apenas dos resultados. Senti o grupo triste pelos resultados, desiludido por ter perdido o seu treinador durante três anos e meio, que os tinha levado a dois títulos, mas sempre unidos e à espera de uma nova liderança que lhes indicasse o caminho. O trabalho psicológico foi feito a trabalhar: após uma derrota custa a passar o tempo até chegar ao primeiro treino. Aí, quando a bola começa a rolar, as coisas saem logo de outra maneira. Senti que tínhamos seguido em frente para outro capítulo."

Sem medo de ficar "queimado"

"Há coisas que eu não penso e que por isso não me fazem temer. Quando estava na Premier League com o Carvalhal e recebi uma chamada do presidente Luís Filipe Vieira para se reunir comigo para preparar o meu regresso ao Benfica, percebi que poderia ser para a equipa B. Falei com o Carvalhal porque tinha de ouvir o presidente pelo respeito que tinha por ele. Pensei, que aos 43 anos ainda não tinha sido pai e, de forma um pouco egoísta, pensei que regressar a Portugal iria permitir-me vir para perto do meu filho. Quando ele me fala num projeto a cinco anos, pensei que poderia querer dizer mais alguma coisa do que a apenas a equipa B. A vida é feita de ciclos, nunca pensei que fosse no imediato, ou a dois ou três anos, mas poderia haver um momento que entre o terceiro e quarto ano, que na sequência da chegada de Rui Vitória, a aposta na formação, e a possibilidade de o treinador sair, e o presidente ter alguém em casa preparado para assumir."

Um exemplo para se apostar nos treinadores da formação

"Sou um exemplo entre muitos. Há uns anos houve o Carlos Queiroz, José Mourinho, André Villas-Boas, Vítor Pereira... um sem número de treinadores que tiveram vivências na formação e depois com sucesso no futebol profissional. Alguns desses foram exemplos para mim. Com o Carlos Carvalhal tive a oportunidade de liderar jogadores deste nível. Sou apenas mais um exemplo para quem possa estar a começar e a preparar-se para fazer o seu caminho. Tenho a felicidade de, talvez caso único, de trabalhar em todos os escalões dentro do Benfica, chegar à equipa B e conquistar este título."

A passagem de testemunho de Rui Vitória

"Não falei com Rui Vitória, apenas lhe desejei as maiores felicidades e quando cá cheguei recordei os três anos e meio fantásticos que fez, com títulos, em que promoveu os jogadores da formação e reconheceu o mérito de todos os treinadores da formação."

O papel de um histórico como Jonas

"Primeiro é preciso conhecer os jogadores enquanto atletas e homens, depois transmitir-lhes que, mais importante que o passado, é a ideia de que todos contam. Não podemos viver do passado, mas sim do que podemos fazer no futuro. Independentemente do estatuto e da importância que o Jonas tem, houve sempre o sentido de ele perceber que podia ajudar muito a equipa. E para isso ele tinha de estar disponível, e esteve sempre, para fazer os 90 minutos, para entrar como fez com o Feirense, o Belenenses, entrar e mudar o jogo como foi com o Portimonense e, depois, aquela demonstração de classe que me deixou completamente rendido, que foi o jogo com o Rio Ave, em que entrou dois ou três minutos e estar disponível para ajudar a equipa. O importante é sermos verdadeiros com os jogadores e explicar-lhes o que podem fazer para ajudar."

A promessa para Jonas continuar no Benfica

"Quero que Jonas continue, pelo que representa para o Benfica. A primeira conversa que tive com ele foi que sabia que estava com dores nas costas, mas queria-o sempre com um sorriso e disponível para ajudar. E agora quando foi de férias, disse-lhe para ir tranquilo, campeão, com 300 golos no currículo e quando chegar vamos falar. Se ele continuar, tenho de pagar uma promessa porque eu quero que ele continue."

A parceria entre Seferovic e João Félix

"Como disse, a primeira ideia que tive foi meter o miúdo João Félix. Independentemente das questões mais técnicas e táticas, o futebol é um jogo de relações e ligações humanas e percebi que eles ligavam bem, um na procura de espaços nas costas da defesa e outro procura espaços à frente da defesa. E logo nos primeiros dias tive um sinal que eles podiam funcionar. O Seferovic é muito importante para a equipa, principalmente pelo que faz no processo defensivo e disse-lhe isso muitas vezes quando o golo não aparecia e isso ajudou imenso a que a dupla funcionasse, pois o golo podia não aparecer, mas ele não podia deixar de correr, tendo em conta a nossa forma de defender, pressionar e condicionar o adversário. Mas a ligação deles com o Jonas também funcionou muito bem, como no jogo com o Moreirense. Além destes, também tínhamos o Jota e o Rafa que podiam jogar como avançados e ainda tínhamos mais um na manga, o Adel Taarabt, que na altura não pude revelar, porque queria perceber como a equipa ia reagir à entrada de quatro miúdos da equipa B no imediato e, depois, como iria reagir quando chamasse o Adel. Tínhamos muitas soluções para a frente, mas sem dúvida que Seferovic e João Félix foi a dupla que jogou mais e funcionou muito bem."

"O gajo" e a forma de comunicar

"O meu maior receio era o da comunicação. E eu até pensava que era uma lacuna que tinha. Por isso, meti na cabeça que tinha de ser como sou, ser verdadeiro, dizer aquilo que nós íamos sentindo, explicar as coisas como elas são, independentemente de estarmos a passar por um bom ou mau momento. Tenho aprendido muito, sobretudo na forma como dizemos as coisas. E ainda tenho muito a aprender nesse aspeto. Procuro falar como se estivesse com os meus amigos, como sabem sou de Setúbal e falo um pouco como os setubalenses: como um bocadinho as palavras, meto o calão, às vezes sai-me um gajo, mas sou como sou e é isso que quero passar."

O que falhou na Taça de Portugal e Liga Europa

"Nunca partimos para um jogo da segunda mão a pensar no jogo da primeira. Não era nossa estratégia ir a Alvalade com a segurança do 2-1 ou a Frankfurt com a segurança do 4-2. O nosso objetivo foi sempre o de impor o nosso jogo. E isso é uma crítica que faço à nossa equipa: quando tínhamos algo na mão jogávamos de travão de mão... calma que as coisas vão acontecer, mas não aconteceram. Um dos receios que tive no último jogo do campeonato, com o Santa Clara, era precisamente isso. Quando sentimos que o empate chegava, não chegou. Se recuarem ao filme de Alvalade e Frankfurt, só começámos a jogar quando não tínhamos as coisas seguras. E isso é a autocríticas que temos de fazer. Podíamos e devíamos ter feito mais nessas duas competições e não o fizemos por culpa própria e assumimos isso. Temos de melhorar esse aspeto, com um golo as coisas mudam e perdemos o controlo. Esses são aspetos em que temos de crescer, sermos consistentes e termos mentalidade de equipa de elite, como as grandes equipas da Europa: impor o nosso jogo e vencê-lo."

As mudanças no plantel em janeiro

"Tivemos necessidade de fazer duas coisas. Primeiro, quem não estivesse feliz e não pudesse render, teria de procurar a felicidade, como foi o caso do Ferreyra, que é um grande jogador mas nos seis meses que cá esteve não teve oportunidade de render. Tínhamos de criar essas condições, com a crítica negativa à volta dele, fazia-lhe bem encontrar outro desafio para voltar a ter rendimento, fizemos com ele com o Lema e o Castillo. Em segundo lugar, a minha ideia era trazer dois ou três miúdos da equipa B que estavam preparados para entrar em janeiro, tivemos de encontrar espaço para que o Ferro e o Florentino pudessem entrar no plantel, tal como ao Jota e ao Ivan Zlobin. Queríamos ainda ter um grupo reduzido para que pudéssemos trabalhar bem e com a intensidade que pretendíamos. Não faz sentido ter um plantel muito longo quando temos uma equipa B. Há dois ou três jogadores da B que vão fazer a pré-temporada mas eles ainda não foram informados e por isso não quero revelar quais são.

Os princípios da equipa

"Em termos defensivos rigor absoluto, em termos ofensivos tivemos um meio termo. Disse aos jogadores que nunca iria por em causa qualquer decisão que tomassem em campo, porque são eles que jogam e que têm a bola, mas que iria ser muito chato no posicionamento. A partir daí fomos crescendo, fomos colocando o Pizzi mais perto do Seferovic, ou noutros jogos tinha de dar mais largura ou ainda vir à zona de construção para fazer de terceiro médio. Foi um processo evolutivo na forma de jogar à medida que fomos conhecendo os jogadores."

A evolução da equipa para a nova época

"A equipa ainda tem de evoluir em muitas coisas. Às vezes analisamos as equipas em função da forma como joga o Manchester City ou o Barcelona, a construir a partir do guarda-redes, com a bola a passar por todos os setores, mas na minha perspetiva é errado porque temos de olhar para o conjunto de jogadores que temos à nossa disposição e perceber para onde os podemos levar, porque o que queremos é que tenham rendimento. E com os cavalos de corrida que temos, precisamos de os potenciar ao máximo. Olhando para a forma como o Pizzi joga entre linhas e a forma como ele e o João Félix aceleram o jogo, juntando o Seferovic, Rafa, Cervi, mais Grimaldo e André Almeida, vamos tirar aquilo que é o ADN da equipa e dizer-lhes que têm de fazer 50 ou 60 passes antes de chegar ao golo? Não é natural. É ir contra àquilo que eles querem oferecer à equipa. O que fizemos de inicio foi perceber os jogadores e como se podiam relacionar uns com os outros e depois, coisas simples: na organização defensiva uma forte pressão à saída do jogo do adversário e em termos ofensivos começar a construir de trás pelo nosso guarda-redes, mas como estávamos a jogar de três em três dias, tinha de ser de forma mais lenta mas segura para que os jogadores se sentissem confortáveis e confiantes para seguir esse caminho, porque não era de um dia para o outro que iam consolidar esses comportamentos. O fundamental nessa altura inicial foi ter uma transição defensiva forte. Nós crescemos em pequenas coisas e isso deu-nos o rendimento coletivo que tivemos nestes meses. Mas há muita coisa para trabalhar ainda, pois temos de ser mais consistentes a defender e a atacar, mas também ter equilibro que faltou em certos momentos, na ausência de um ou outro jogador. Houve certas coisas na nossa transição defensiva não fomos tão fortes, em que perdíamos a bola na área contrária e a bola acabava na nossa área, um bom exemplo disso é o golo que sofremos em Braga."

Alterações táticas para o futuro

"O nosso plano era construir melhor, pelo guarda-redes, ter ligação entre centrais e médios, mas quando a bola chegasse entre linhas, ter jogadores rápidos como Pizzi, Seferovic e Félix, eles tinham de ter o jogo deles que não é de posse, mas sim acelerar e ir para a baliza. Ouvi algumas vezes que o Benfica ganhou, mas o seu jogo não é de sucesso... então o que é de sucesso? Uma equipa que foge às regras, ao conceito moderno de que só há este jogo? Fizemos 123 golos como há 30 anos não se fazia, temos Seferovic com 23 golos, Rafa com 17, Félix com 15, Pizzi rei das assistências... O treinador não pode jogar de forma contra natura daquilo que os jogadores podem dar. É a partir deles que podemos criar a nossa forma de jogar. Depois é perceber que cada um dos jogadores nos dá coisas diferentes e a partir disso construir a nossa equipa. Temos de olhar para o jogo e para o adversário e perceber o que podemos fazer. Por exemplo, o Rio Ave tinha uma saída de bola muito boa pelo seu o médio centro, o Filipe Augusto, com capacidade de passe para rodar o jogo de um lado ao outro e nós sabíamos disso... Jogando com dois pontas-de-lança e subindo um médio, se o deixássemos rodar o jogo teríamos problemas, e decidimos que o Florentino é que teria de sair a pressioná-lo enquanto o Samaris ficava mais baixo porque não é tão rápido a pressionar e joga melhor de cabeça que o Florentino. E quando o Rio Ave se sentisse pressionado, podia surgir uma bola longa a partir dos centrais e o Samaris tinha mais capacidade de ganhar de cabeça. Com o Santa Clara já foi diferente, sentimos que tinha uma saída forte pelo central do lado direito, o César, e tínhamos de posicionar-nos de outra maneira e ser o Samaris a pressionar o médio mais próximo dos centrais. São estas coisas que temos de preparar para cada jogo em função do adversário e utilizar os jogadores que nos podem dar mais em cada uma das situações."

120 milhões para João Félix... ficar

"O Gaitán disse recentemente que, às vezes, trocamos de clube e pensamos que vamos para melhor e depois de lá chegarmos arrependemo-nos. Acho é que temos de criar uma carreira sólida - eu tenho tido esse cuidado na minha carreira de 20 anos de treinador. O João Félix tem apenas quatro ou cinco meses de Benfica, podia fazer-lhe bem poder ter mais um ou mais anos para consolidar esta meia época, ter ainda oportunidade para consolidar a sua posição na seleção nacional e depois com outra maturidade, poder dar um passo para um clube ainda maior, apesar de já esta num grande clube. Depois há a questão do habitat natural: eu saí do país com 35 anos e não foi fácil, para um miúdo de 19 também não será fácil começar tudo de novo. Pagava 120 milhões por João Félix para ele não ir embora."

O sonho de um título europeu

"Para quem, como eu, leva a vida jogo a jogo, primeiro temos de chegar a uma final. Quando cheguei aos 30 anos era treinador de juniores, depois de fazer todo o percurso na formação, mas depois o meu caminho foi voltar aos iniciados e pensei que iria voltar a fazer o mesmo caminho mas iria fazer com que os jovens não tivessem as lacunas que encontrei nos juniores. Aos 35 anos, houve uma situação inesperada que senti que tinha de sair. O presidente não queria que eu saísse, mas acabei por ir. Fui para o Dubai, algo que não tinha previsto. E a partir daí decidi que era preciso viver com tranquilidade sem idealizar caminhos. Temos de nos concentrar no que temos de fazer. Para chegar a isso, temos de chegar a uma final e para isso é preciso correr com o tempo."

As posições para reforçar a equipa

"Primeiro temos de olhar para dentro e perceber se temos jogadores à altura para no imediato entrar na equipa. Se não tivermos em casa, iremos ao mercado. Fala-se no guarda-redes? Mas ainda temos o Ivan Zlobin, que ainda não jogou e fez uma primeira metade de época fantástica na equipa B. Temos de estar preparados para se perdermos jogadores, não sabemos se aparecerá um clube que leve algum deles. Há alguns jogadores que têm de sair porque não foram felizes, disse-lhes que tive pena de não ter tirado rendimento de alguns deles."

O fascínio por Herrera

"Gosto muito de médios. O Herrera faz tudo, constrói, cria, marca golos, pressiona e corre 90 minutos. Foi o jogador que mais me impressionou porque dá uma dimensão ao FC Porto muito grande. Não o conheço, mas pelo que vejo deve ser um enorme líder porque da forma como joga consegue envolver toda a equipa. No clássico a minha preocupação foi onde o Sérgio Conceição ia colocar o Herrera, numa posição de construção ou mais próxima da nossa baliza. Acho que nos preparámos bem para isso e conseguimos anular o seu jogo. Foi um dos pontos fulcrais tirá-lo um pouco do jogo."

O momento em que sentiu o título seguro

"Quando o quarto árbitro levantou a placa com dois minutos de tempo extra com o Santa Clara. As coisas foram acontecendo com naturalidade. O jogo em Guimarães recuperámos pontos para o FC Porto, ficámos a cinco, e disse aos jogadores que tinha sido ali que se tinha iniciado a conquista de Portugal e poderia ser ali o início da nossa reconquista. Depois tivemos momentos interessantes com o Sporting e no Dragão, e quando estamos em primeiro lugar sentimos que o FC Porto, sob a forte liderança do Sérgio Conceição, não nos iriam facilitar em nada, mas sentimos que não podíamos perder o campeonato duas vezes. Disse aos jogadores que não podíamos facilitar e a prova disso foi uma decisão difícil que tive de tomar para o último jogo: o Zlobin e o Yuri Ribeiro ainda não tinham minutos e eu convoquei os dois, mas para os 18 falei com eles e expliquei-lhes que tinham de ficar de fora, porque levá-los para os 18 poderia ser um sinal de que as coisas poderiam já estar feitas e isso foi algo que nunca quisemos transmitir aos jogadores."

O elogio ao rival FC Porto

"Houve muito mérito do FC Porto. Vejo as pessoas falarem da Premier League, o mérito daquilo que fizeram Manchester City e Liverpool. O futebol inglês são as pessoas: dirigentes, jogadores e árbitros. Se em Inglaterra dão mérito a esses dois clubes, por que é que aqui não fazem o mesmo em relação à campanha fantástica que o FC Porto fez, com 85 pontos que nos obrigou a fazer 87, com duas finais com a possibilidade de conquistar mais um título, além da campanha fantástica que fizeram na Liga dos Campeões. Isso é mérito. Chegar ao fim e ganhar é mérito, mas há vários méritos e o FC Porto fez uma época muito boa e a melhor forma de descrevê-la é como o Sérgio Conceição fez, ao dizer que é uma época à Porto. É uma época à equipa grande porque lutou por todas as competições. Em Inglaterra é isso que dizem do Manchester City e do Liverpool, em Portugal temos de dizer do Benfica e do FC Porto."

A autodefinição

"Sou um homem comum, mas que tiro um enorme prazer de fazer o meu trabalho, mas com equilíbrio porque não se pode permitir tudo."

Lidar com a fama

"Agora vou de férias, voltar à minha vida comum, de óculos, chapéu e vou ter de meter um bigode para ninguém me conhecer. Gostava muito de que isso pudesse ser possível. Represento o Benfica, enquanto aqui estiver estou disponível para tudo, mas há um momento que é muito importante que é estar com a família. Quando procuram o treinador do Benfica eu tiro as fotografias e dou autógrafos todos, mas quando estou com a minha família, gostava que fosse respeitado, na nossa normalidade, no nosso cafezinho do costume."

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