CR7 e a Juventus: ponto de situação à entrada para uma semana decisiva

Entre o clube italiano e Ronaldo está tudo certo. Falta resolver o braço de ferro com Florentino Perez para acertar a saída do Real Madrid

Depois do ritmo vertiginoso com que saíram a público os primeiros sinais a prenunciar uma saída de Cristiano Ronaldo do Real Madrid para a Juventus, o cenário da transferência abrandou consideravelmente e pareceu mesmo conhecer um impasse nos últimos dias.

À entrada para a semana que se antevê decisiva, o DN faz um ponto de situação sobre o dossier da mudança de CR7 para o heptacampeão italiano.

Terça-feira, o dia chave?

Depois do travão colocado pelo presidente merengue Florentino Perez no andamento do processo, com algumas exigências que permitam ao Real Madrid uma saída mais airosa desta novela, o dia de terça-feira pode servir para desbloquear definitivamente a transferências.

É o dia da reunião da junta diretiva do Real Madrid, onde a gestão da saída de Cristiano Ronaldo será seguramente o ponto forte de discussão e da qual se espera que saia então uma versão final para a oficialização do adeus entre o clube espanhol e o jogador português, o melhor goleador da história do Real.

Cristiano deve dar o primeiro passo

Como tem contado, sobretudo, a imprensa desportiva de Madrid, o que mais preocupa Florentino Perez nesta altura é sair o menos mal possível na fotografia. Não quer ficar com a fama de ter sido o presidente que "empurrou" para fora do Real Madrid um dos melhores jogadores da sua história. Por isso, quer que seja Cristiano Ronaldo a dar o primeiro passo e a assumir publicamente a vontade de sair do clube nesta fase.

No fundo, a mesma estratégia usada aquando da saída de Xabi Alonso, em 2014, para o Bayern, que o médio espanhol justificou assim: "O Real não queria a minha saída, mas fui eu que quis."

No entanto, segundo o jornal AS, o jogador prefere oficializar o adeus ao Santiago Bernabéu apenas com uma mensagem deixada ao clube e aos adeptos, recusando uma despedida formal ao lado do presidente.

100 milhões de euros podem inflacionar

A transferência tem sido apregoada em cima de um valor de 100 milhões de euros (121, acrescentando-lhe um IVA à taxa de 21%). Essa foi, alegadamente, a fasquia prometida por Jorge Mendes, empresário de Ronaldo, à Juventus. Uma promessa baseada numa outra, que Florentino Perez terá assumido verbalmente em janeiro passado.

Nessa altura, quando o presidente do Real Madrid recusou aceder ao aumento salarial pretendido pelo avançado português - que ganha cerca de 21 milhões de euros anuais no clube espanhol, bem longe dos 45 milhões que o Barcelona aceitou pagar a Messi ou dos 37 milhões de Neymar no PSG -, Florentino transmitiu ao representante do jogador que aceitava baixar a cláusula de rescisão de 1000 milhões de euros para um décimo (100 milhões) caso Jorge Mendes fizesse chegar uma proposta por Ronaldo no final da época.

Uma redução que, segundo a imprensa espanhola, seria válida apenas para clubes que não fossem concorrentes diretos do Real: como Barcelona, Atlético de Madrid ou até o Manchester United. A intenção de Florentino seria abrir portas à saída de CR7 para um mercado periférico. Mas o líder merengue não incluiu a hipótese de a Juventus poder entrar em liça.

Nos últimos dias, surgiram também notícias de que Florentino estará, afinal, a tentar esticar a corda para uma verba entre 120 e 150 milhões de euros. O que pode ser também um fator de pressão para Cristiano Ronaldo assumir o passo decisivo de pedir publicamente a saída.

Só a Juventus interessa

O impasse dos últimos dias inquietou a Juventus, que espera do Real Madrid a confirmação de que está disposto a vender Cristiano Ronaldo pelos 100 milhões de euros que lhe foram transmitidos. Além do mais, surgiram também ecos de uma possível intromissão do Manchester United, que segundo o jornal britânico The Independent contactou o clube espanhol e os representantes do jogador para perceber as condições de um possível negócio.

No entanto, Jorge Mendes já fez questão de tranquilizar o clube italiano: Cristiano Ronaldo já decidiu e é na Juventus que quer continuar a carreira. O capitão da seleção portuguesa até se aconselhou com o seu antigo treinador Carlo Ancelotti sobre a mudança para Itália e para a Vecchia Signora e terá recebido palavras de incentivo: "Allegri [treinador da Juventus] é ideal para ti", ter-lhe-á dito Ancelotti, segundo informa o Corriere Dello Sport.

Acordo patrocinado pela FIAT

Com o clube italiano, Cristiano Ronaldo já tem tudo acertado. O craque português vai ganhar 30 milhões de euros por ano, durante quatro temporadas, até 2022.

Um salário que rebenta o atual teto salarial da Juventus, limitado aos 7,5 milhões de euros que a equipa de Turim paga aos argentinos Dybala e Higuaín, mas que é possível pelo envolvimento direto do império FCA (Fiat Chrysler Automobiles), o grupo automóvel a que a Juve está ligado desde 1923. Atualmente, a Juventus é detida em 60% pela Exor, holding com sede na Holanda, e liderada pela família Agnelli, que engloba a FCA e outras empresas ligadas a diversas áreas.

Outro fator que beneficiará os rendimentos de Cristiano Ronaldo em Itália é o atrativo regime fiscal que permite a estrangeiros pagarem uma taxa de apenas 100 mil euros por rendimentos obtidos no exterior, como pode ser o caso de imóveis ou direitos de imagem. Uma situação bem diferente daquela que lhe valeu problemas com o fisco espanhol.

Apresentação para quando?

A oficialização de Cristiano Ronaldo como jogador da Juventus está, pois, à espera que se desate o nó entre o avançado e o Real Madrid.

De férias nas ilhas gregas, CR7 espera a resolução do impasse para viajar para Turim, onde a Juventus, segundo escreve o jornal La Stampa, prepara uma apresentação hollywoodesca no Estádio.

O clube italiano já esperava ter podido apresentar Cristiano como o novo camisola 7 no passado sábado, dia 7 do mês 7. Mas as exigências de Florentino Perez frustraram os planos. Agora, em Itália espera-se que o capitão da seleção portuguesa possa aterrar em Turim até ao final desta semana que agora começa.

Entretanto, a Juventus arrancou este domingo com os trabalhos da nova época, com outro português já ao serviço (João Cancelo). Mas é por Cristiano Ronaldo que todos aguardam, com uma corrida dos adeptos da Juve aos lugares anuais nos últimos dias, desde que se começou a vislumbrar aquela que em Itália rotulam como transferência do século.

Em relação ao primeiro jogo com a camisola bianconera, é provável que seja em solo americano, onde a Juventus vai participar na International Champions Cup, no final de julho, defrontando o Bayern de Munique no dia 25, o Benfica no dia 28 e o... Real Madrid, a 4 de agosto.

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