Bélgica: A geração Sablon ainda pode fazer história

Bélgica vai jogar com a Inglaterra pelo pódio do Mundial 2018. Projeto do sucesso começou com o fiasco no Euro 2000, que levou o então diretor técnico a explorar modelos de sucesso de federações como a alemã, francesa e holandesa e traçar um novo caminho a seguir

Kevin De Bruyne, Eden Hazard, Romelu Lukaku e Thibaut Courtois já fazem parte da história do futebol belga. Falharam a presença na final do Mundial 2018, mas igualaram, para já, a melhor classificação de sempre da Bélgica num Campeonato do Mundo (meias finais em 1996). E podem fazer melhor, caso vençam este sábado o jogo do terceiro e quarto lugar, frente à seleção inglesa.

Os belgas queriam ser campeões mundiais e imortalizar o mentor da revolução do futebol belga, Michel Sablon, mas a eliminação nas meias-finais não apaga o que de bom foi feito no futebol belga na última década e meia.

Tudo começou com a humilhação no Euro 2000, coorganizado com a Holanda, altura em que o então diretor técnico da federação belga, desenhou um plano que viria a revolucionar a prática desportiva no país e criar a nova bíblia do futebol belga, um documento ainda hoje sagrado para clubes, seleção e treinadores da formação

Nesse plano, por exemplo, foi pedido a todos os clubes para jogarem em 4x3x3 nos escalões abaixo dos sub-18: "Levou mais de cinco ou seis anos para que todos o pusessem em prática, porque para a maioria dos treinadores e clubes o mais importante era ganhar. Mas isso era absolutamente errado para o desenvolvimento de todos os jogadores. No início foi terrível. Mas depois começaram a ver resultados...", explicou Sablon ao DN em 2016.

Este sábado, 16 anos depois do início do projeto (2002) os diabos vermelhos de Roberto Martinez vão jogar para fazer história e superar o 4.º lugar do Mundial 1998. Mas seja qual for o resultado, o projeto saiu vencedor.

4x3x3, investimento humano e estrutural

De 2000 a 2002, Sablon, com a ajuda e colaboração de Bob Browayes, viajou pelo mundo e observou três modelos distintos de academias de futebol, mas todos eles de sucesso: o alemão, o francês e o holandês. Depois foi traçado um plano com o objetivo de repetir a campanha de 1986, quando a Bélgica chegou às meias-finais e ficou em quarto lugar. Algo que também foi conseguido na Rússia, 22 anos depois.

O primeiro passo foi realizar uma reunião entre a federação, os clubes e as universidades de futebol do país para unir esforços em torno de um ideal, que na altura mereceu tantos elogios como desconfiança por parte dos belgas. O projeto passou do papel para os relvados quando começaram a filmar 1000 jogos da formação até definirem o 4-3-3 (hoje utilizado no Mundial 2018) como esquema tático obrigatório para todas as seleções nacionais.

A federação belga e os clubes comprometeram-se a investir e apoiar o projeto revolucionário. E não se ficaram pelo apoio financeiro e institucional. Trataram de garantir que o projeto estava a ser seguido na prática e contrataram uma empresa para auditar os clubes do país e assim controlar que todas as mudanças estavam a ser cumpridas.

Paralelamente a isso foi feito um investimento na capacitação de treinadores e no desenvolvimento da academias de futebol do país e na consciencialização da sociedade sobre os imigrantes. Sablon defendia que os imigrantes e filhos de imigrantes que fossem belgas, podiam igualmente representarem a seleção, o que permitiu que nomes como Vicent Kompany (hoje capitão) e Romelu Lukaku (goleador mor da seleção), entre outros pudessem defender as cores belgas na Rússia.

E assim, de 2008 para 2018, a Bélgica saltou mais de 70 lugares no ranking FIFA. Era 71.ª e hoje está na liderança do ranking mundial de seleções. Tudo graças à geração dourada do futebol belga, com Kevin De Bruyne, Eden Hazard, Romelu Lukaku e Thibaut Courtois, e a um revolucionário de seu nome Michel Sablon.

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