Beitar Jerusalém abre pela primeira vez portas a jogadores árabes

Novo dono diz que a religião vai deixar de ser um critério de contratação naquele que é conhecido como o clube mais radical de Israel

Moshe Hogeg é um jovem empresário israelita que ganhou fortunas no mundo das startups tecnológicas. Entre a carteira de projetos que o ajudaram a enriquecer estão por exemplo a app de mensagens Yo, que conseguiuangariar mais de um milhão de euros de financiamento para uma aplicação que permite aos utilizadores enviar a expressão Yo uns aos outros, ou a plataforma Mobli, uma espécie de Instagram que conseguiu cativar investimentos de várias figuras públicas, como a tenista Serena Williams ou o multimilionário mexicano Carlos Slim.

Também um dos investidores pioneiros das criptomoedas e blockchain, Hogeg virou agora algum do seu dinheiro e das suas atenções para o futebol, onde quer igualmente deixar uma marca de inovação. Desde 13 de agosto, o empresário de 38 anos é também o proprietário do Beitar Jersualém, conhecido como o clube mais radical de Israel. E anunciou na última quarta-feira uma declaração de intenções que pode fazer história na sociedade israelita.

Segundo o novo dono, o Beitar vai passar a contratar jogadores independentemente da sua religião. Ou seja, o clube abre as portas pela primeira vez à hipótese de contar com futebolistas árabes, para combater a imagem de clube racista. "O Beitar não é um clube racista. A partir de agora, a religião não será mais um critério de escolha para o plantel", prometeu Hogeg, garantindo que apenas o mérito será determinante. "Contratar um jogador somente porque é árabe também seria uma forma de racismo", disse.

Em maio passado o clube mudou o nome para Beitar Trump Jerusalem, para assinalar a decisão dos EUA em mudar a embaixada para Jerusalém

O mais popular clube de Jerusalém, com seis títulos nacionais no seu palmarés, é o único clube israelita que nunca teve qualquer jogador árabe na sua equipa. Com raízes ligadas ao movimento sionista, o Beitar tem os adeptos mais radicais e extremistas de Israel, entre os quais se destaca a claque ultra-nacionalista "La Familia", famosa pelos seus cânticos de "morte aos árabes" nos estádios e pelas perseguições violentas a adeptos rivais dentro e fora dos estádios.

A má experiência de 2013

Em 2013, o então proprietário do clube, o magnata russo-israelita Arcadi Gaydamak, que tinha interesses económicos na Chechénia, anunciou a contratação de dois jogadores muçulmanos chechenos para o Beitar, Gabriel Kadiev e Zaur Sadayev, o que provocou a ira dos radicais de "La Familia".

Os jogadores foram recebidos no primeiro treino com manifestações racistas, os dirigentes foram ameaçados de morte, a sede do clube foi atacada e os adeptos compareceram nos jogos com cartazes a apelar a um "Beitar puro para sempre". Kadiev e Sadayev duraram pouco tempo no clube, tal como o próprio Gaydamak, que abandonou no final da época.

Agora, o Beitar, que em maio passado alterou o seu nome para Beitar Trump Jerusalem como agradecimento pela decisão do presidente norte-americano Donald Trump em mudar a embaixada dos EUA para a "cidade santa", pretende iniciar uma nova etapa. Pelo menos é essa a intenção de Moshe Hogeg, o guru israelita dos empreendedores tencológicos. Falta perceber até que ponto está determinado a enfrentar a fação "orgulhosamente radical" do "clube mais puro" de Israel.

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