As cidades esquecidas estão no roteiro dos turistas deste Mundial

Lembra-se quando esteve no topo da Basílica da Estrela ou na Torre dos Clérigos? Siga, então, o roteiro dos turistas do Mundial e descubra o que esteve sempre à frente do seu nariz

Nestas últimas semanas, o Terreiro do Paço, em Lisboa, é um palco de um festival internacional com sucessivas atuações. Saem uruguaios e portugueses, entram espanhóis e russos. Saem espanhóis e russos e entram brasileiros e mexicanos. Saem esses e entram outros, tem sido assim sempre. Cada grupo apresenta o seu de show de bola para depois desaparecer e dar lugar ao que se segue.

São atores em cima do palco. Entram, desempenham o seu papel de adeptos e saem de cena. Nunca mais os vemos. Apetece perguntar por onde andam e o que fazem quando não estão a representar a sua seleção. Deve ser essa a curiosidade que move as revistas cor-de-rosa, sempre atrás do jet set, mas de facto é difícil controlar o impulso coscuvilheiro perante tanto forasteiro que aparece na Arena Portugal e desaparece pela cidade.

O que vale é que Wesley Harris, adepto inglês da cidade de Manchester, não tem qualquer problema em revelar a sua vida privada de turista: "Além de Lisboa, já estive no Porto, em Sintra e em Coimbra." Correu tasquinhas, igrejas e museus desde zona ribeirinha até à foz do Douro, subiu ao ponto mais ocidental da Europa, no Cabo da Roca, em Sintra, e entrou na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra.

Petar Stjepanić, adepto da Croácia, vive em Zagreb e aterrou há uma semana em Lisboa. Quando não está a ver a bola, gosta de subir e descer os pontos mais altos e baixos da cidade: "Estive no Castelo de São Jorge, desci ao reservatório de água no Jardim do Príncipe Real, andei pelas ruínas do Carmo e subi ao topo da Basílica da Estrela."

O que este inglês e este croata têm para contar não são mais do que postais ilustrados que um português já nem liga muito. Por entre os que assistem à meia-final entre Croácia e Inglaterra, há turistas típicos à procura de lugares típicos. Ouviram fado nos bairros históricos, esperaram para entrar na Torre dos Clérigos, no Porto, ou no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, visitaram o Panteão Nacional, beberam vinho do Porto, comeram pastéis de Belém, passearam pelos jardins de Serralves e descobriram até a Quinta da Regaleira, em Sintra.

Clichés, no fundo, capazes de soltar bocejos a alfacinhas, tripeiros ou sintrenses. Há, porém, qualquer coisa no olhar deslumbrado deles que nos põe a pensar. "Do que gostei mais até agora foi do reflexo da Ponte D. Luís no rio Douro ao entardecer, conta Jonathan Scott, adepto da seleção inglesa. Dá vontade de deixar o futebol para mais tarde, pegar no roteiro destes turistas e voltar a descobrir o que sempre esteve à frente do nosso nariz.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.