Do cenário aos sofás, da gravata à camisa, das propostas às juras de amor eterno ao Sporting

Debate na Sporting TV juntou este domingo os sete candidatos à presidência do Sporting, nas eleições de 8 de setembro. João Benedito (lista A), José Maria Ricciardi (lista B), Pedro Madeira Rodrigues (lista C), Frederico Varandas (lista D), Rui Jorge Rego (lista E), Dias Ferreira (lista F) e Fernando Tavares Pereira (lista G).

Isaura Almeida

De sportinguismo, dizem, não recebem lições de ninguém, mas vão dando umas bicadas uns aos outros. Não fossem eles, os sete, adversários nas eleições de 8 de setembro para a presidência do Sporting, "o grande amor" de João Benedito (lista A), José Maria Ricciardi (lista B), Pedro Madeira Rodrigues (lista C), Frederico Varandas (lista D), Rui Jorge Rego (lista E), Dias Ferreira (lista F) e Fernando Tavares Pereira (lista G).

A televisão do clube, a Sporting TV juntou-os, neste domingo à noite para debater ideias e projetos para o clube de Alvalade. Com cenário a rigor, telas verdes e sofás brancos, os sete candidatos optaram todos por aparecer de gravata verde, mais escura ou mais clara, mas todos de gravata verde, e camisa branca, qual segunda pele ou equipamento formal que é preciso testar para usar em caso de eleição.

Começaram por prometer respeitar os timings uns dos outros, mas rapidamente o respeito deu lugar ao - "não me interrompa se faz favor..."Aos poucos, as bicadas inofensivas foram dando lugar a reparos e acusações a roçar a ofensa, com os candidatos mais interessados em desvalorizar nomes e ideias dos adversários do que a revelar o próprio projeto. Nem Roberto Carlos, campeão do mundo pelo Brasil e vencedor de várias Champions, escapou. Ele que apareceu em Alvalade no jogo com o Vit. Setúbal depois de se unir a Rui Jorge Rego, como diretor desportivo, mas que "não diz nada ao Sporting".

Dias Ferreira foi o primeiro avançar: "O Frederico Varandas, que se diz uma pessoa civilizada, manda o seu número um, que ficou até ao final a apoiar o Bruno de Carvalho. Vem insultar-me e dizer mentiras a meu respeito."

Já Ricciardi picou Varandas por usar o nome de Manuel Fernandes na campanha e ele respondeu. "José Maria Ricciardi vive à parte e decidiu brincar ao Sporting. Chegou agora... Eu fui o único que dei a cara antes da AG destituitiva", lembrou o antigo médico da equipa nos últimos sete anos, ele que se demitiu no final da época passada e se assumiu como candidato. Facto que foi usado contra ele por todos os candidatos por se ter mantido ao lado de Bruno de Carvalho tanto tempo.

Pedro Madeira Rodrigues não escapou aos ataques quando reafirmou que não manterá José Peseiro como treinador, mesmo que ele ganhe o dérbi de sábado, com o Benfica, o último jogo antes das eleições. "Não vejo Peseiro como treinador a médio prazo. Já Raniri é um gentlemen, garra, talento... Não tenho dúvidas em relação ao meu treinador. Já fiz questão de agradecer ao Peseiro por ter agarrado a equipa, mas deixemos a escolha nas mãos dos sócios", defendeu o candidato da lista C.

Uma mudança que Tavares Pereira não compreende: "Peseiro foi escolhido e tem de fazer o trabalho dele. Que ganhe. Temos é de estar com um sportinguismo familiar. Criar a tal família. Os meus filhos com 34 anos viram dois campeonatos. A situação que está a passar é terrível."

Tal como Dias Ferreira: "Madeira Rodrigues, estou a explicar-lhe que eu que tenho alguma experiência no futebol, ninguém toma a atitude que você tomou [sobre o treinador]. E o Ranieri não é treinador para o Sporting, nunca ganhou nada."

Depois, os dois candidatos mais jovens, Varandas e Benedito, trocaram algumas palavras mais azedas."Uma noção do João Benedito: um capitão. Futsal não é futebol. Um capitão tem de ter força no balneário, e para isso tem de jogar. Não estamos a falar de um plantel de futsal. Há no máximo 7 portugueses, mas 7 sul americanos. Se não tiveres um capitão sul-americano, eles não percebem nada de raça", atirou Frederico Varandas.

Ao que o antigo jogador de futsal respondeu pedindo respeito por ele, pelo passado dele e por que o acompanha na lista e explicando a sua ideia de capitão: "Quando se enverga uma braçadeira, a carreira pessoal tem de passar para segundo plano. Chegar a um balneário e ser confrontado pelo capitão é o primeiro garante de estabilidade. Vejam por que é que os rivais não abdicam do jogador A, B, C, ou D."

Tavares Pereira abriu o tema das finanças leoninas e puxou logo dos galões:"Tenho 44 anos de empresário, tenho 700 funcionários... O Sporting precisa de solidez e empreendedorismo, de arrumar a casa em Alvalade e Alcochete. Já ultrapassei crises terríveis. Quando disse em 2011 e 2013 que não seria candidato, não tinha tempo. Agora tenho. Não quero vencimento. . Ando cá há mais anos do que alguns candidatos têm de idade."

Habituado a gerir crises, o empresário de Tábua, teme ver o passivo aumentar: "O Sporting tem um passivo de 457 milhões, sem saber o que vem da auditoria. Até ao fim do ano tem responsabilidades de 100 milhões. Temos a solução, não entregando a SAD a ninguém. Fizemos um trabalho adequado e adaptado às necessidades do Sporting."

Já Dias Ferreira não se mostrou muito preocupado com a restruturação financeira."Tranquilo? Não, não estou. A principal atenção é projetar o futuro com uma nova Academia, não para os profissionais, que devem ficar em Alcochete na mesma. Mas de formação, na zona de Lisboa, com o apoio de uma escola do Sporting, procurando imitar o estilo americano", disse o advogado antes de explicar que conhece a restruturação financeira: "É uma boa solução. Não me preocupa o futuro do Sporting. Visa reduzir o passivo. O Sporting não tem necessidade de arranjar novas dívidas."

Madeira Rodrigues garantiu que "na Arábia Saudita estão muito interessados em comprar parte da SAD, mas terão de pagar bem". Depois traçou um cenário mais negro do que os adversários em termos de tesouraria: "O Sporting passa por uma situação muito complicada. Quem quiser ser presidente tem de apresentar uma solução para já. Em outubro ou novembro precisamos de 60 milhões para pagar dívida que vem de trás. Não podemos arriscar, temos de ter garantia que esse dinheiro entra no Sporting. Temos entidade que garante."

O gestor que esta semana revelou um acordo com o sheik Badr Al-Samah que visa o investimento de 120 milhões de euros, prometeu uma solução mista: "A nossa solução é mista. O Sporting não vai aumentar a dívida. Vender capital social do Sporting nesta altura é um erro. Com a nossa gestão o Sporting vai valer muito mais daqui a dois anos."

Por sua vez Rui Jorge Rego usou da ironia para abordar o assunto. "Não conhecia a restruturação, pedi reunião com Sousa Cintra, não consegui. Hoje saio daqui mais descansado. Aumentar receitas é algo que temos no programa, mas há uma coisa: como chegámos aqui? O Sporting tem na SAD receitas de 65 milhões e já tem receitas antecipadas. Temos de reduzir a despesa em função da receita, e aumentar esta para a balança se ir equilibrando, espero eu nos 80 milhões."

Em termos de finanças José Maria Ricciardi não deu baile, mas dominou o assunto, apesar de esse ser também o seu calcanhar de Aquiles pelas muitas restruturações financeiras que viabilizou quando estava no BES, incluindo a última de Bruno de Carvalho. "O Sporting gasta 100 milhões por ano na SAD e 23 de no clube. Se chegarmos a novembro e nada se passar, acabou o dinheiro ao Sporting. Não é assustar, porque temos a solução", disse o antigo gestor do BES: "Não vou puxar dos galões por aquilo que fiz, mas liderei o banco que trouxe mais investimento para Portugal."

"Estive a falar com investidores, que tenho um grande conhecimento sobre isso. Tenho uma solução mista. Temos um passivo que vai vencer de 30 M€, os outros 60M € que é défice de tesouraria para este ano e mais 32M € dos acordos que se fizeram com os bancos. Esses 90 são de curto prazo. Sou totalmente contra de negociar dívida de curto prazo com dívida de longo prazo. Isso é aumentar o passivo, aumentar os encargos financeiros. Conjugação de trazer investidores, mantendo a maioria na SAD. Queremos manter a maioria da SAD e securitizar os direitos televisivos", explicou o candidato da lista B.

E para João Benedito "muito daquilo que se fala das questões financeiras, têm de passar por uma participação ativa por parte dos sócios". Por isso pediu "a todos que não deixem de pagar quotas, comprar gameboxes e merchandising do clube". Sobre a situação financeira global e soluções disse: "Identifico ao nível das receitas 70 milhões de euros. Se olharmos para os patrocínios e merchandising, são 15 milhões de euros. Gameboxes e afins, são 15 milhões de euros. Na Liga Europa, onde não queremos estar, são 7 milhões de euros. Nós não queremos estar aqui... Começamos a dizer que precisamos de dinheiro e de entrar na Champions. Precisamos de resultados. Ver duas modalidades sem patrocínio no Sporting... Temos de dar mais retornos a estes patrocinadores."

João Benedito: "É para mim um ato solene desde que comecei a candidatura perceber que estou a trabalhar para o Sporting. Vamos ser candidatos, mas sim pessoas que vão estar na liderança do clube."

Pedro Madeira Rodrigues: "Temos de dar um sinal de unidade. Preocupa muita gente termos sete candidatos, mas temos a obrigação de mostrar união. Temos de ter cuidado. Estamos aqui para passar o nosso projeto, vamos aproveitar esta oportunidade."

Rui Jorge Rego:"Acho que devíamos ir juntos ver o próximo jogo do Sporting. A equipa precisa de sentir que há um só Sporting. Quero discutir o futuro do Sporting."

Frederico Varandas:"Espero campanha com elevação. Tudo o que direi são reparos, não são ataques. Imaginem eu querer apresentar o meu diretor para o futebol e não poder dizer o nome. Isso leva candidatos a socorrerem-se de pessoas de fora, que não conhecem o Sporting."

Dias Ferreira:"Eu, há dois ou três dias enviei ao presidente da CG do Sporting, que sempre respeitei, como sempre disse. Lamento não ter tido resposta. Não quero deixar de chamar à atenção... Não me responderam e irei tornar essa carta pública, pois há uma lista candidata que tem dois membros da Comissão de Gestão. A lista de Ricciardi, que foi buscar dois elementos. Quero ver estes princípios defendidos e quero um esclarecimento, para lá de querer saber o que os outros pensam, pois isto é uma violação das regras estabelecidas"

José Maria Ricciardi: "Não venho para ser o contraditório. Venho para dizer aos sócios e aos adeptos alguns aspetos importantes do meu projeto. Não vou entrar em detalhe. Começarei pelo futebol."

Fernando Tavares Pereira: "Dou os parabéns ao Sporting por ter feito aqui este debate, a fim de esclarecer ideias e projetos. Já me tinham convidado para ser candidato e na altura não tinha condições para tal. Na altura seria só mais um candidato e pensei "Quando o Sporting precisasse de mim, estou disponível". E agora estou"