Geringonça no futebol. O deputado que é adepto do Benfica e do Sporting

Paulo Pisco, do PS, gosta tanto de leões como de águias. Foi o resultado de ter um tio que era "absolutamente doente pelo Sporting" e o pai "fanático pelo Benfica". Toda a gente estranha este amor pelos dois clubes, menos o próprio.

Há os que são adeptos de um dos três grandes, os que apoiam o clube da terra, os que conciliam as duas paixões, os que não têm clube e ainda o que se julgava ser impossível. Um adepto tanto do Sporting como do Benfica. Parece ser difícil de acreditar, mas existe. Chama-se Paulo Pisco, tem 57 anos, nasceu em Queluz e é deputado do Partido Socialista pelo círculo eleitoral da Europa.

Antes de mais, a pergunta que se impõe: como é que é possível tal gerigonça clubística? "Quando era miúdo, tinha um tio que era absolutamente doente pelo Sporting, nos tempos do Joaquim Agostinho, e procurava levar-me aos jogos e provas desportivas do clube, arrastava-me com ele e eu gostava. Mas por outro lado, o meu pai era um fanático pelo Benfica, embora acompanhasse os jogos pela rádio e não ao vivo. Com cada um a tentar convencer-me para ser do seu clube, acabei por oscilar entre os dois. Houve alturas em que era mais do Sporting, outras em que era mais do Benfica, dependendo dos resultados. Era normal nos miúdos", contou ao DN em conversa na Assembleia da República.

"Com a minha filha aconteceu a mesma coisa, mas ela acabou por fixar-se no Sporting. Já eu não me fixei em nenhum. Fui aprendendo a gostar dos dois clubes, sem ser doente ou fanático do futebol. Gosto de jogos de futebol, sobretudo dos desafios em que as equipas nacionais jogam com estrangeiras, e os únicos jogos que me põe realmente nervoso e ansioso são os da seleção nacional", acrescentou, confessando que só a conquista do título europeu em 2016 por parte da seleção nacional o fizeram sair de casa para comemorar efusivamente.

Capaz de "dar um grito" pelos dois

Outra pergunta pertinente: como viverá Paulo Pisco os dérbis? "Nessas alturas fico eu próprio surpreendido, porque o que gosto de ver é o futebol. Se o Benfica marcar um golo sou capaz de dar um grito e fico satisfeito, e se o Sporting marcar um golo, idem. Manifesto-me com o mesmo entusiasmo. Para mim é natural, são os clubes da minha cidade, que sempre vi como os grandes clubes de Lisboa, com grandes jogadores", confessou o ex-jornalista, que só há uns anos passou a assumir declaradamente ser dos dois clubes.

"Só aí é que percebi que consideravam um fenómeno, muito difícil de encontrar. Foi a partir daí que assumi declaradamente o meu biclubismo. Passei a dizer com orgulho que gosto tanto do Benfica como do Sporting. Sempre tinha vivido com este biclubismo sem nunca ter dado grande importância a esta questão", prosseguiu o deputado, alvo de reações incrédulas das pessoas com que se cruza.

"Há os que me dizem: 'és maluco, não podes dizer isso a ninguém!', 'vais perder os votos dos benfiquistas e dos sportinguistas', 'isso é uma coisa que não acontece em lado nenhum', 'isso é impossível'... E eu divertia-me com a reação das pessoas, porque diziam isso com um misto de surpresa e divertimento", frisou, bem-disposto.

"Se um se portar mal, que ganhe o outro"

Bem tentámos arrancar a confissão de um ou outro dérbi em que Paulo Pisco tenha pendido mais para um lado do que para outro, mas nada feito. "Em nenhuma circunstância torci mais pelo Benfica ou pelo Sporting. Só em determinadas alturas, quando os dirigentes andavam às turras - e eu detesto isso no futebol! - e um clube se portava mal, fico com vontade que seja o outro a ganhar. Mas de uma maneira geral, fico sempre com aquela ideia de que deve ganhar aquele que tiver o melhor desempenho, o futebol mais bonito e mais fair-play. Isso é que eu valorizo no futebol: ver que os jogadores jogam bem, que os dirigentes tenham um comportamento civilizado, que durante o jogo façam um bom trabalho de equipa, que os guarda-redes desempenhem bem o seu papel. Isso é o que me interessa, a beleza do futebol. Gosto de ver golos, é o momento em que vibramos, o culminar de um bom jogo", vincou o deputado, que não se deixa influenciar por, em determinados momentos, um clube precisar mais da vitória do que outro: "Nem assim. Valorizo é o futebol bonito".

Concretamente falando do Sporting-Benfica deste domingo (17.30), para a 20.ª jornada da I Liga, Paulo Pisco mostra que "à priori", pode dizer que está 51% inclinado para o lado leonino. "Gostava que o Sporting, que está mais atrás, fosse mais para a frente e pudesse aproximar-se de Benfica e FC Porto, para ficarem ao mesmo nível e para a disputa do campeonato ser mais intensa e ter mais emoção. Mas quando começar o jogo vou querer é ver um futebol bonito e que ganhe quem mereça mais ganhar", vaticinou, prognosticando um empate, o resultado que o deixaria "mais satisfeito". Uma igualdade em Alvalade pode permitir que o FC Porto cave um fosso ainda maior para os rivais, mas a questão é habilidosamente driblada pelo deputado: "Eles depois recuperam o atraso. Vamos ficar à espera de um deslize do FC Porto."

Embora admita que possam existir "algumas pessoas" para as quais o seu biclubismo "possa ser importante", diz que continuará a assumi-lo "com convicção e honestidade", apelando ao civismo para o grande jogo deste fim de semana. "Espero que os adeptos se comportem. Que não se agridam como muitas vezes acontece, o que destrói a imagem e a beleza do futebol. E que os dirigentes estejam à altura das suas responsabilidades e que não incitem direta ou indiretamente os seus adeptos a serem antagonistas dos outros", rematou Paulo Pisco, motivo de sorrisos e comentários enquanto posava e passeava pelos corredores do Palácio de São Bento com os almanaques de Benfica e Sporting.

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