Gémeas Sá: as mulheres árbitro que quebram barreiras no andebol

Começaram no desporto escolar e já chegaram à Liga dos Campeões. Marta e Vânia são um raro exemplo de sucesso de mulheres na arbitragem e contam ao DN que os piores insultos das bancadas vêm... de outras mulheres.

Marta e Vânia Sá vão recordar para sempre aquele jogo do passado dia 6 de outubro. Não só porque marcou a estreia da dupla portuguesa de 'árbitras' na Liga dos Campeões feminina, mas também pelo gesto que as surpreendeu no final da partida entre as húngaras do Gyor e as eslovenas do Krim Mercator: os espetadores faziam fila, de mão estendida, junto ao campo, para as congratular.

"Ficámos a olhar uma para a outra, a pensar que não deveria ser para nós, mas depois percebemos que sim, era mesmo para nos felicitarem... E ficámos muito felizes", conta Marta Sá ao DN. Marta e Vânia são conhecidas como as gémeas do apito do andebol português. As irmãs de Tarouca, pequena cidade do distrito de Viseu, são um raro exemplo de afirmação feminina num meio ainda esmagadoramente dominado pelos homens.

Em Portugal, já há alguns anos que fazem parte do quadro de elite dos árbitros nacionais de andebol. E estão agora também na alta roda europeia, dando sequência a um processo de internacionalização que começou em 2014, quando foram 'validadas' pelo curso de formação da Federação Europeia de Andebol (EHF) - entretanto têm também, desde o ano passado, as insígnias da IHF (a federação internacional).

O trajeto começou bem cedo, "aos 9/10 anos", em Tarouca, no âmbito do desporto escolar, quando os professores da época as incentivaram a experimentar o andebol. Depois, como era preciso indicar duplas para funções de arbitragem, os responsáveis "acharam piada" à possibilidade de constituir uma dupla de gémeas árbitros. E a piada não podia ter sido mais bem sucedida: Vânia e Marta nunca mais largaram o apito.

Começaram a arbitrar a nível regional, em Viseu, pouco depois dos 20 anos já saltaram para o nível nacional, chegaram à primeira divisão masculina e hoje em dia são uma das duplas internacionais do andebol português.

Como se sabe, a arbitragem não é propriamente a atividade mais respeitada em Portugal e a participação feminina no universo da alta competição também só recentemente começou a sair do obscurantismo a que foi votada durante décadas. O que reforça o feito de Marta e de Vânia, rostos de um empoderamento feminino que ainda tem muito para conquistar no desporto.

Estas gémeas do apito garantem que nunca se sentiram desrespeitadas nem menorizadas pelo facto de serem mulheres, ao longo da carreira. Pelo contrário, sublinham que "o andebol é um bom exemplo" no respeito pelo papel da mulher: "Felizmente, no andebol, sempre tivemos um apoio muito grande, em especial dos nossos dirigentes e deste Conselho de Arbitragem. Neste momento podemos dizer que não sentimos diferença entre árbitros masculinos e femininos. Somos árbitros. Ponto."

Dos jogadores, sentem "respeito" e até um comportamento mais "moderado" em campo quando as manas Sá estão aos comandos. "Se calhar até têm mais cuidado no trato, não dizem certas coisas que dizem perante um homem", diz Vânia, garantindo que nunca tiveram qualquer problema complicado de gerir com jogadores, treinadores ou dirigentes pelo facto de serem mulheres.

Família não vai ver os jogos

Das bancadas, sim, ouvem muitas vezes as típicas bocas do preconceito com que ainda se olha para a presença das mulheres nalguns setores de atividade. Como o desporto. "É o habitual. O "vai para casa lavar a roupa" e coisas do género", contam. Impropérios que, curiosamente, garantem, vêm sobretudo de outras mulheres. "É um bocado reflexo da nossa sociedade", reflete Marta. "Ainda vivemos o desporto como um campo onde vamos descarregar tensões do dia-a-dia. E depois acaba por não haver respeito pelo árbitro, quer seja no futebol, no basquetebol, no andebol e quer o árbitro seja homem ou mulher", acrescenta.

Por isso, por esse ambiente hostil que salta das bancadas em relação aos árbitros, a família (pais e dois irmãos mais velhos) cedo deixou de marcar presença nos jogos da dupla Sá. Sobretudo a mãe, para quem "uma vez bastou". "Foi logo num jogo no início de carreira, a nível regional, na nossa terra. Não é muito agradável a uma mãe estar na bancada a ouvir chamarem nomes às filhas e à própria mãe, não é? Por isso, nunca mais foi", contam Vânia e Marta, que costumam lembrar o primeiro torneio internacional, na Tunísia, como a experiência mais complicada que tiveram: "Duas raparigas jovenzinhas, de 16 anos, num torneio masculino e num país muçulmano. Quando entrámos em campo, equipadas, com calções e manga curta, pernas e braços à mostra, cabeça destapada, sentimos um silêncio repentino no pavilhão. Ficámos um bocadinho nervosas, passou rápido."

Abrir caminho a outras mulheres

Vânia e Marta garantem que a famosa cumplicidade dos irmãos gémeos não é apenas um mito. Põem-na em prática a cada jogo. "Facilita. Temos a mesma leitura de jogo. Hoje em dia temos auriculares para comunicar em campo, mas se não usarmos auriculares basta olhar uma para a outra e conseguimos perceber o que cada uma de nós está a pensar sobre cada lance, só pela expressão", diz Marta.

Talvez seja por isso, de resto, que no andebol internacional existem vários exemplos de duplas de irmãos e mesmo outras gémeas do apito. As mais famosas, e uma referência para as manas Sá, são as francesas Bonaventura, "que já apitaram Mundiais e Jogos Olímpicos masculinos".

Marta e Vânia são também elas uma referência para uma nova vaga de "árbitras" que vai surgindo no andebol português. "Só no Porto, já temos seis duplas femininas, há outra no Algarve... Sim, sentimo-nos um pouco como referências para elas. Sabemos que o facto de aparecermos a arbitrar jogos da primeira divisão masculina na televisão pode servir como um fator de motivação para que elas se afirmem nestas escolhas", corroboram as irmãs, que se mudaram entretanto para o Porto, depois de concluírem a faculdade (licenciadas em Educação Física pela UTAD de Vila Real), atrás de oportunidades profissionais.

Sim, porque ser mulher-árbitro não é profissão ainda em Portugal. Apenas uma atividade mal remunerada - 120 euros por cada jogo, segundo dados publicado pelo jornal O Jogo no dia 11 de novembro, 10% apenas do que ganham os árbitros profissionais de futebol. O que faz com que Vânia e Marta repartam a arbitragem com empregos como personal trainers em ginásios do Porto. Isso não as impediu de ganhar, em 2014, o troféu de melhor dupla da arbitragem nacional. Nem as impede de alimentar outros sonhos futuros, como "marcar presença num Europeu e num Mundial de seniores, ou na finalfour da Champions feminina", as próximas metas de umas irmãs gémeas pioneiras no desporto português.

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