Clubes ingleses tentam igualar feito inédito de 1966 com cinco equipas nas meias-finais

Foi há mais de meio século a única vez que Inglaterra colocou cinco equipas nas meias-finais das provas europeias, numa altura em que ainda havia Taça das Taças. Esta semana a faceta pode ser igualada, no melhor dos cenários com três equipas na Champions e duas na Liga Europa.

Inglaterra está a poucos dias de poder igualar o feito inédito de 1966, ano de boas memórias para os britânicos pela organização e conquista do Campeonato do Mundo mas também pela presença de cinco equipas nas meias-finais das provas europeias.

Numa fase em que já se realizou a primeira mão dos quartos-de-final tanto da Liga dos Campeões como da Liga Europa, já se sabe que pelo menos uma equipa inglesa (Tottenham ou Manchester City) estará na fase seguinte da competição, três estão bem encaminhadas (Liverpool, Chelsea e Arsenal) e uma em desvantagem mas com legitimidade para sonhar (Manchester United). Na Champions, os spurs bateram os citizens em casa (1-0), os reds venceram o FC Porto em Anfield (2-0) e os red devils foram derrotados em Old Trafford pelo Barcelona (0-1) na primeira mão, enquanto na Liga Europa os blues venceram no terreno do Slávia Praga (1-0) e os gunners triunfaram na receção ao Arsenal (2-0).

No melhor dos cenários para os ingleses, seria igualada uma marca que remonta aos tempos em que haviam três competições europeias paralelas: Taça dos Campeões Europeus, Taça das Cidades com Feira e Taça das Taças. Há 53 anos, o Manchester United chegou às meias-finais da prova principal; Chelsea e Leeds às da Taça das Cidades com Feira; e West Ham e Liverpool às da Taça das Taças. Nessa época, apenas o Everton não chegou a uma fase tão adiantada de uma prova, no caso dos toffees a Taça das Cidades com Feira, que não era organizada pela UEFA.

Quatro por três vezes

A partir de então, o máximo de equipas que Inglaterra conseguiu colocar nas meias-finais das provas europeias numa só época foram quatro, por três vezes, todas ainda no tempo em que haviam três competições paralelas. Foi assim em 1970-1971 (Liverpool e Leeds na Taça das Cidades com Feira e Chelsea e Manchester City na Taça das Taças), em 1972-1973 (Derby County na Taça dos Campeões Europeus, Tottenham e Liverpool na Taça UEFA e Leeds na Taça das Taças) e em 1983-1984 (Liverpool na Taça dos Campeões, Nottingham Forest e Tottenham na Taça UEFA e Manchester United na Taça das Taças).

Desde a extinção da Taça das Taças em 1999, o melhor que Inglaterra conseguiu foi apurar três clubes para as meias-finais, curiosamente sempre na Liga dos Campeões e em três anos consecutivos. Tanto em 2006-2007 como em 2007-2008, Liverpool, Chelsea e Manchester United representaram o futebol de terras de sua majestade nas meias-finais da Champions. No ano seguinte, os reds trocaram com o Arsenal.

Dinheiro vs. Calendário

Contratos de direitos televisivos com lucro sem paralelo (cerca de 6 mil milhões de euros para distribuir), proprietários milionários, estádios cheios, digressões por vários continentes e merchandising. Não faltam fontes de receita aos clubes ingleses, até mesmo aos da II Liga (Championship), que todos os anos despendem quantidades volumosas de dinheiro para reforçar os plantéis. Nesta época, os clubes da Premier League gastaram 1,65 mil milhões de euros. Na temporada passada, foi estabelecido um recorde: 2,17 mil milhões.

As outras ligas ficam a anos-luz dessa realidade, mas a verdade é que esse desequilíbrio não se tem notado nas derradeiras temporadas, até porque a última vez que um clube inglês venceu a Champions foi em 2011-2012, quando o Chelsea bateu o Bayern em Munique nas grandes penalidades. E desde então, apenas no ano passado uma equipa inglesa, no caso o Liverpool, esteve na final da prova.

Para muitos jogadores, treinadores e especialistas, a natureza competitiva da Premier League, a falta de uma pausa de inverno e a prioridade dada ao campeonato são algumas das razões apontadas para a recente crise inglesa na Europa.

"Tens de estar a 100% durante 90 minutos em cada jogo da liga inglesa ou vais perder. Em Espanha, podes chegar ao intervalo em vantagem frente a um clube menor e tirar o pé do acelerador e fazer descansar jogadores. Se o tentares fazer durante 45 minutos na liga inglesa, não vais conseguir ganhar", afirmou o atacante galês do Real Madrid, Gareth Bale, ao Daily Mail, em março de 2017.

"Obviamente que a pausa de inverno é determinante. Em Inglaterra jogas quatro ou cinco jogos quando nas outras ligas os campeonatos estão parados. Não tens muitos dias de descanso e acabas por pagar por isso mais tarde. Em Espanha não faço nada. Temos sete, oito ou nove dias de férias, volto ao País de Gales e vejo a minha família e amigos. Num ou noutro dia vou ao ginásio ou fazer uma corrida para manter a forma, mas basicamente apenas descanso. Depois quando voltamos temos uma semana de sessões bidiárias para recuperar o ritmo. Se tiveres entre sete e dez dias de férias quando não estiveres a jogar no teu país, estás onde queres e não pensas sobre futebol. É bom fazer uma pausa mental e física. As equipas espanholas têm definitivamente esta vantagem comparativamente às inglesas", acrescentou o antigo jogador de Southampton (2006-2007) e Tottenham (2007 a 2013).

A visão do galês é partilhada pelo antigo central internacional português Ricardo Rocha, que jogou no Tottenham (2007 a 2009) e Portsmouth (2010 a 2013) em Inglaterra. "Isso já foi falado por vários treinadores da Premier League. O campeonato não para e daí também estarem a pensar fazer uma pausa de inverno num dos próximos anos. A maior parte dos campeonatos tem essa pausa no Natal, que ajuda sempre a recuperar e a fazer descansar os jogadores. Mas a liga inglesa, como se sabe, tem nessa fase o Boxing Day e muitos jogos seguidos, o que se ressente na parte final das competições. Isso justifica um pouco as falhas das equipas inglesas", considerou, em declarações ao DN.

Em setembro de 2017, o treinador do Tottenham, Mauricio Pochettino, confessou que a Premier League é a prioridade dos jogadores, clubes e adeptos em Inglaterra. "Quando estás em Inglaterra, a Premier League é a principal competição para todos os jogadores, que querem tentar ganhá-la, talvez por não estarem na Europa continental", revelou, citado pelo Evening Standard. "Em Itália, França e Espanha a Liga dos Campeões é a competição mais importante, mas, na cultura inglesa, é a Premier League e depois a Taça de Inglaterra. A Liga dos Campeões e a Liga Europa são importantes mas não estão ao nível da Premier League. É difícil de explicar às pessoas de fora. Apenas quando estás em Inglaterra é que percebes que a Premier League consome todos os clubes e jogadores", acrescentou o treinador argentino, no Reino Unido desde 2013.

Ricardo Rocha, por sua vez, diz que essa prioridade dada ao campeonato pode depender de clube para clube e das frentes em que cada equipa está envolvida. "Pode depender muito de clube para clube e dos próprios objetivos. Se um clube estiver a lutar pelo primeiro lugar, pode dar prioridade em ganhar a liga e abdicar um bocadinho das competições europeias. Mas acredito que as melhores equipas, as que estão nesta fase da Liga dos Campeões e da Liga Europa, vão lutar pelos objetivos delas até ao fim, independentemente de ser a liga nacional ou as provas europeias. Nesta fase, todas querem chegar à final", frisou o antigo defesa, que também jogou no Famalicão, Sp. Braga, Benfica e Standard de Liège.

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