Carrega toneladas todos os dias e ainda é guarda-redes aos 47 anos

Paulo Silva chegou a jogar na II Liga e a abandonar os relvados, mas a paixão pelo futebol falou mais forte e nem o emprego duro de grande desgaste diário o impedem de continuar entre os postes, agora ao serviço do Seixal, nos distritais.

Uma história que tinha tudo para não acontecer. Paulo Silva tem 47 anos, tinha deixado de jogar futebol há cinco, tem um emprego fisicamente desgastante e era treinador dos seus atuais concorrentes na baliza do Seixal, clube que esteve na I Divisão na década de 1960 e reativou o futebol sénior na época passada depois da refundação como Seixal Clube 1925. Mas a paixão falou mais alto e aí está ele como o guarda-redes da defesa menos batida da Série B da II Divisão Distrital da Associação de Futebol de Setúbal.

"É só uma questão de vontade, de gosto pelo futebol, porque tive de trabalhar bastante a nível físico para estar mais ou menos apto para ainda conseguir fazer alguma coisa dentro de campo", confessou o veteraníssimo guardião, cuja equipa sofreu 16 golos em outras tantas jornadas da fase regular - o segundo melhor registo é o do Almada (19). Porém, distribui os louros pelos companheiros: "Não é só a minha parte. Também é mérito dos defesas, têm sido muito capazes."

Paulo Silva nasceu no Barreiro e iniciou-se no futebol sénior em 1990, no Paio Pires, também no concelho do Seixal. Quatro anos depois, começou no Lusitano de Vila Real de Santo António um percurso de praticamente duas décadas nos campeonatos nacionais, quase sempre passado em clubes da margem sul. O ponto alto foi em 2005, quando ajudou outro histórico do distrito de Setúbal, o Barreirense, a subir à II Liga, prova na qual chegou a jogar por 23 vezes. Na altura, tinha 34 anos, era futebolista profissional e saboreava a cereja no topo do bolo. Mas o bolo, afinal, ainda era muito maior do que o que se podia julgar...

Hoje, a capacidade física já não é a de outrora, o que exige uma adaptação no modo de estar entre os postes. "O meu jogo é mais posicional, não arrisco tanto, tento comunicar mais com os colegas, que acabam por me ajudar bastante se respeitarem bem o que eu digo, e chegam menos bolas à área", contou ao DN, explicando a decisão de voltar a voar para as bolas depois de dar a carreira como terminada há cinco anos no local de partida, Paio Pires.

"Foi para ser uma ajuda para o treinador, o Tiago Correia, meu amigo de longa data e que foi meu companheiro de equipa. Já há uns anos que venho a trabalhar com ele na academia do Fusco e na do Paio Pires. Fui para adjunto dele nos seniores no Seixal e ele fez-me o convite, para ver como conseguia correr, saltar e cair. Depois fui para um ginásio para perder peso e ganhar mais mobilidade", desvendou, referindo-se a um treinador que é filho de Manuel Correia, antigo central e técnico do Desp. Chaves na década de 1990.

"Jogadores ainda me tratam por mister"

No balneário, a mudança de Paulo Silva da equipa técnica para a baliza foi bem aceite, é alvo de brincadeiras mas ainda gera alguma confusão em alguns companheiros. "Tratam-me por velho. E como no ano passado fazia parte da equipa técnica e treinava os guarda-redes, muitos tratam-me ainda por mister nos treinos e nos jogos. São palavras que acabam por ser carinhosas", afirmou, sentindo-se respeitado pelos adversários, que o cumprimentam e dão os parabéns todos os domingos.

Da bancada, há sempre uma boca ou outra, mas às quais o veterano guarda-redes procura responder... em campo. "Sei de alguns comentários, mas é o normal no futebol. Começo-me a rir, porque os anos levam a que nós nos acalmemos um bocadinho e encaremos as coisas de uma maneira diferente. Dentro de campo é que damos a resposta, não por atitudes menos corretas", vincou, grato por voltar a representar um clube pelo qual já tinha jogado entre 1996 e 2002, tendo subido de duas vezes à II Divisão B (1997 e 1999) e descido uma à III (2000).

A família, essa, pede cuidado, mas já sabe o que a casa gasta. "Ao início, chamaram-me maluco, especialmente os meus pais. É normal pela idade, porque podem aparecer lesões, é sempre aquela preocupação de pais. Mas ninguém pôs entraves, sabem da vontade que tenho em andar no futebol, mesmo não jogando", revelou, bem-disposto.

Toneladas pelos braços todos os dias

Desengane-se quem pensar que Paulo Silva consegue responder aos desafios que lhe são colocados nos treinos e nos jogos porque tem um emprego pouco desgastante. Nada disso. É precisamente o contrário. "Neste momento trabalho numa empresa de importação e distribuição de baterias de automóveis e de outros tipos. É dos serviços mais desgastantes, carrego mesmo os pesos. Tenho de carregar paletes de 700 ou 800 quilos, tudo feito a braços. Há dias em que me podem passar quatro, cinco ou seis toneladas pelos braços", contou. Como é que há força para ir treinar? "Já trabalho nisto há uns anos, o físico foi-se adaptando. Mas é tudo à base da vontade e da adoração pelo futebol", frisou, piscando o olho... à próxima época.

"Vontade não vou dizer que não tenho, mas depende do objetivo da subida. Se o objetivo for conseguido, porque não mais um ano?", admitiu o guarda-redes, consciente de que se a promoção à I Distrital for conseguida "faz mais sentido ter um guarda-redes com uma certa idade e certas capacidades físicas para atuar num escalão superior" do que alguém com a sua idade. A subida de divisão é, aliás, a sua "principal motivação".

"Casillas a jogar com 47 anos? Não acredito"

A menos de dois meses de completar 38 anos, Iker Casillas renovou por um ano com mais outro de opção pelo FC Porto, mas Pinto da Costa já avisou que está convencido que este não será o último contrato que o guarda-redes espanhol vai assinar pelos dragões. Será que vai imitar Paulo Silva e chegar aos 47 anos ainda no ativo? "Não... [risos] A nível de competição penso que não. Quando acabar a carreira, tem outras formas de continuar no futebol. Por brincadeira, acredito que vá fazendo uns jogos como todos fazem, mas em competição não acredito", crê o guarda-redes do Seixal.

O mesmo se aplica a Gianluigi Buffon, que aos 41 anos poderá estar prestes a renovar por mais uma temporada pelo Paris Saint-Germain. "Deve fazer a última época ou a penúltima. Em alta competição penso que não é possível jogar com 47 anos. Nas divisões em que estou inserido, acredito plenamente que tenham capacidades físicas se não se desleixarem. Mas não acredito que façam o que estou a fazer pelo estatuto e o estilo de vida que terão depois", rematou o veterano guardião, que deverá terminar a época com 48 anos, uma vez que celebra o próximo aniversário a 6 de junho.

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