Benfica-Rio Ave. O duelo entre o aluno Lage e o professor Carvalhal

Bruno Lage e Carlos Carvalhal ficaram amigos no Dubai e em Inglaterra partilharam ideias na mesma equipa técnica. Pelo meio escreveram livros e criaram uma grande cumplicidade. Neste sábado o treinador do Benfica terá também do outro lado o irmão Luís Nascimento, adjunto dos vila-condenses.

"Será, com certeza, um jogo muito competitivo, dentro e fora de campo." A frase é de Bruno Lage no primeiro dia de trabalho desta época, numa entrevista à BTV, quando questionado sobre o duelo que vai ter com Carlos Carvalhal e o seu irmão Luís Nascimento no campeonato. Pois bem, a hora chegou. Benfica e Rio Ave defrontam-se neste sábado, às 18.00 horas no Estádio da Luz, naquele que será o primeiro duelo entre professor e aluno, mas também um confronto familiar.

No início da temporada, Carlos Carvalhal assumiu o comando técnico dos vila-condenses e escolheu para seu adjunto Luís Nascimento, irmão de Bruno Lage, que deixou para trás 15 épocas de ligação aos escalões de formação do Benfica, seguindo o percurso do irmão em 2015, quando aceitou o convite de Carvalhal para ser seu adjunto do Sheffield Wednesday, do segundo escalão do futebol inglês.

A história da ligação estreita entre os dois treinadores começou em Setúbal, quando o agora técnico do Rio Ave orientava o Vitória em 2003/04 e o então aprendiz de treinador assistia aos treinos dos sadinos para ganhar conhecimentos. Lage estava longe de imaginar que um dia iria entrar no Benfica pela mão do seu mentor Jaime Graça e ainda mais distante de pensar que um dia iria ser o treinador principal dos encarnados.

Reencontraram-se no Dubai, quando Carlos Carvalhal era o coordenador técnico e Bruno Lage orientava a equipa B do Al Ahli. A cumplicidade foi tal que escreveram um livro sobre métodos de treino - "Futebol. Um saber sobre o saber fazer" - editado em 2014 e, três anos depois, Carvalhal assinou o prefácio do livro de Lage sobre o futebol de formação - "Formação. Da iniciação à equipa B". Terminada a aventura árabe, seguiram os dois para Inglaterra, onde estiveram dois anos em Sheffield e meio ano no Swansea, onde tentaram (não conseguiram) evitar a despromoção do emblema galês na Premier League.

A aventura inglesa

Nas várias intervenções públicas de ambos, foram recorrentes os elogios de parte a parte. Quando Bruno Lage assumiu o comando do Benfica, substituindo Rui Vitória, em janeiro deste ano, Carvalhal fez a defesa do seu ex-adjunto. "É um treinador que conheço há muito tempo. Desde quando estava no V. Setúbal e no Belenenses, ele acompanhava os nossos treinos. É uma pessoa com capacidade, sabe de futebol, está habituado a lidar com jogadores de seleção. Tecnicamente está muito bem preparado. Não tenho dúvidas que vai saber liderar o barco sem problemas, seja de forma provisória ou definitiva", disse então Carvalhal numa entrevista à TVI24, na qual destacava "a preponderância" que Lage assumia na sua equipa técnica.

"Nessa altura já dizia que que ele tinha condições para ser um excelente treinador no futuro", argumentou Carvalhal no Fórum de Treinadores realizado em abril, quando o Benfica já ia lançado para se sagrar campeão nacional. "Ele tem uma forma de jogar intensa, atrativa, ofensiva, equilibrada. Era assim que jogava o Sheffield Wednesday e é assim que joga o Benfica, mas com outro tipo de intérpretes e com o dedo de Bruno Lage", defendeu na altura.

O treinador dos encarnados sempre retribuiu a admiração, não esquecendo os tempos que partilhou com o agora técnico do Rio Ave. "Cheguei ao futebol inglês com Carvalhal, sem ele não era possível. Já tinha feito vários estágios com ele, treinava no Benfica ao final da tarde e observava muito os treinos dele de manhã, no V. Setúbal e no Belenenses. Tornámo-nos amigos no Dubai", revelou Lage numa entrevista à BTV, garantindo que aquele que pode ser considerado o seu último professor foi essencial no seu crescimento como treinador: "Tínhamos uma amizade extrema, havia autonomia total em função das suas ideias. Ele conseguiu tirar o melhor de mim e das minhas competências, ajudou-me a evoluir para me tornar um treinador de futebol profissional."

O momento da separação

O reconhecimento de Lage para com Carvalhal é de tal ordem que no dia em que recebeu o telefonema do presidente Luís Filipe Vieira para regressar ao Benfica para treinar a equipa B, a primeira pessoa com quem falou foi com o seu então chefe de equipa no Swansea, dizendo-lhe que era a altura de regressar, porque estava há três anos em Inglaterra longe do filho e da família. "Estava muito bem e confortável a trabalhar com ele mas entre questões familiares e profissionais, tive de tomar outra decisão muito difícil: deixar o Carvalhal e voltar ao Benfica", admitiu.

Carlos Carvalhal confirmou isso mesmo numa outra entrevista à RTP3. "Quando o Bruno vinha para o Benfica, falámos e eu incentivei-o, até porque ele tinha o filho pequenito, o Jaiminho, e estava longe da família... Estar três anos em Inglaterra longe dos filhos é muito complicado. E quando ele me falou da possibilidade de de ir para o Benfica eu disse-lhe: "Ó Bruno, nem hesites, vai. Se quiseres, entras numa primeira liga portuguesa e eu ajudo-te, dentro das minhas possibilidades, porque tens mais do que competência'."

A forma de Carvalhal definir o seu ex-adjunto é bastante particular, como ficou provado numa entrevista à TSF, onde destacou as principais características daquele que foi seu pupilo ao longo de três anos: "Bruno Lage é uma pessoa inteligente, absorve tudo, vive as coisas e depois está preparado para elas. O grande mérito que tem é a sua capacidade de absorver para transmitir. Eu, quando tinha de tomar algumas decisões em que havia um lado mais político da questão, chamava-o, metia-o no gabinete. E era sempre com o Bruno. Ele tem uma perspicácia muito grande."

E é essa perspicácia que vai estar à prova no relvado da Luz este sábado, onde Bruno Lage irá procurar enganar o seu professor e Carlos Carvalhal tentará, por certo, colocar algumas pedras no caminho para travar o Benfica e levar pontos para Vila do Conde. Durante os 90 minutos a amizade será colocada de parte, mas no final, independentemente do resultado, deverá sair um abraço entre os dois amigos, mas também entre os irmãos Bruno Lage e Luís Nascimento. O pai Fernando Lage é que estará, por certo, de coração dividido.

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