Benfica-FC Porto. Histórias de um clássico em campo neutro

Águias e dragões defrontam-se esta terça-feira, em Braga, nas meias-finais da Taça da Liga. Será o 14.º capítulo de clássicos disputados "em terra de ninguém"

O Estádio Municipal de Braga vai ser o palco do 14.º clássico entre Benfica e FC Porto em campo neutro. E, pela primeira vez, não será uma final, pois esta terça-feira (19.45 horas) disputa-se a meia-final da Taça da Liga, que dá direito a discutir o troféu no sábado.

A história diz-nos que os encarnados levaram a melhor por sete vezes, contra seis dos dragões, sendo que os lisboetas têm mais dez golos marcados nestas partidas disputadas em "terra de ninguém" (21-11). Estes duelos estão cheios de histórias que marcaram o futebol português.

Um dos mais emblemáticos confrontos entre Benfica e FC Porto em terreno neutro foi a final da Taça de Portugal de 1982/83, que acabou por ser disputado no início da época seguinte no... Estádio das Antas. Sim, nessa tarde, aquela que era a casa do dragão virou terreno neutro por ordem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). E tudo porque a direção portista, já liderada por Pinto da Costa, se recusou a jogar no Estádio Nacional, o habitual palco da final da Taça.

O problema começou quando a FPF marcou as Antas como palco do jogo decisivo, bem antes de saber quais seriam as equipas que iriam disputá-lo. Quando Benfica e FC Porto eliminaram, respetivamente, Portimonense e Académica nas meias-finais, estava criado um problema. Os dirigentes federativos resolveram então remarcar a final para o Jamor, uma decisão causou revolta entre os portistas, que em Assembleia Geral decidiu não comparecer à partida se a FPF mantivesse o Estádio Nacional como palco. Pois bem, a federação demorou depois bastante tempo a emitir uma decisão final e quando o fez os jogadores das duas equipas já tinham ido de férias, optando então marcar a final para as Antas no dia 21 de agosto, uma semana antes da 1.ª jornada do campeonato da época seguinte.

Na Luz, Sven-Göran Eriksson, treinador dos encarnados, afirmou para não se preocuparem que o Benfica ia ao Porto para trazer o troféu. E assim foi. Um remate de Carlos Manuel a 30 metros da baliza bateu o guarda-redes Zé Beto aos 20 minutos e valeu a conquista do troféu.

A fuga de José Pratas

Bem quentes foram as Supertaças disputadas no início dos anos de 1990. Na altura, o troféu era disputado a duas mãos e nas três épocas que os dois rivais disputaram este troféu foi sempre necessário realizar uma finalíssima, que é como quem diz um terceiro jogo para desempatar.

Foi assim em 1992, pois o Benfica tinha ganho na Luz por 2-1 e o FC Porto nas Antas por 1-0. Como os golos fora não contavam para o desempate, reencontraram-se a 9 de setembro, em Coimbra. A partida estava a ser bastante quentinha no relvado, mas o caldo entornou-se definitivamente aos 72 minutos quando Isaías abriu o marcador, na recarga a uma defesa de Vítor Baía nas alturas perante Rui Águas. De imediato, os jogadores portistas correram na direção do árbitro José Pratas, que não foi de modas e fugiu deles a sete pés.

18 anos depois, numa entrevista, o árbitro de Évora justificou aquele momento caricato. "Não foi uma fuga, foi uma reação natural de quem se sente atacado e ameaçado. Devia ter acabado com o jogo por insubordinação da equipa do FC Porto", explicou José Pratas que terá mesmo ficado marcado por aquela perseguição: "Nem preguei olho! Cada vez que fechava os olhos lá vinham o Couto e o Paulinho Santos direitos a mim..."

O certo é que o FC Porto acabou por empatar essa finalíssima aos 84 minutos graças a um penálti marcado pelo capitão João Pinto, remetendo a decisão para as grandes penalidades. E aí o Benfica chegou a ter uma vantagem de 3-0. Com o presidente portista Pinto da Costa ajoelhado junto à linha lateral, os dragões treinados por Carlos Alberto Silva acabariam por vencer por 4-3 e levantaram o troféu.

Dois anos depois, as duas equipas voltaram a encontrar-se em Coimbra para mais uma finalíssima da Supertaça decidida no desempate por penáltis, voltando os portistas a levar a melhor. Isto depois de um final de jogo emocionante em que Domingos Paciência marcou aos 85 minutos e Tavares empatou aos 89. No prolongamento, Carlos Secretário voltou a adiantar os dragões, mas a dois minutos do fim César Brito voltou a colocar igualdade no marcador, numa altura em que os portistas Aloísio e Rui Barros já tinham sido expulsos pelo árbitro Veiga Trigo. Os penáltis voltaram a ser malditos para os encarnados que perderam outra vez por 4-3.

Festa portuguesa em Paris

Foi preciso esperar nove meses para atribuir a Supertaça de 1994. Após dois empates (1-1 e 0-0) nas duas mãos realizadas em agosto e setembro, eis que a finalíssima só se disputou a 20 de junho de 1995 e, desta vez, a Federação Portuguesa de Futebol escolheu o Parque dos Príncipes, em Paris, para que fosse feita uma festa de final de época para os emigrantes. Só que as duas equipas apresentavam-se sem algumas das suas principais estrelas como por exemplo João Pinto, Drulovic e Yuran (já tinha terminado contrato) por parte do FC Porto, Preud'Homme, Isaías, Vítor Paneira, Mozer, Edilson e João Vieira Pinto por parte do Benfica.

A organização do jogo, para poupar nas despesas, chegou a propor aos dois clubes que viajassem no mesmo avião, algo logo descartado por ambos... afinal, as relações era péssimas. O jogo, que marcou o fim da carreira do capitão benfiquista António Veloso, lá se realizou sem incidentes, com a vitória do FC Porto por 1-0 graças a um golo de Domingos Paciência no início da segunda parte. Os emigrantes, que encheram o histórico estádio parisiense, fizeram uma festa portuguesa durante a primeira e única vez que o clássico se disputou foram das fronteiras portuguesas.

O fim do jejum benfiquista

No total foram cinco clássicos em campo neutro para a Supertaça, todos favoráveis ao FC Porto, mas foi na Taça de Portugal que estas equipas mais se defrontaram fora dos respetivos estádios. Das sete vezes que se enfrentaram, sempre em finais, o Benfica venceu seis vezes e os dragões apenas uma.

A última vez que houve um duelo no Jamor foi a 16 de maio de 2004. Dez dias antes de o FC Porto conquistar o segundo título de campeão europeu frente ao Mónaco, em Gelsenkierchen. Contudo, essa final da Taça de Portugal sorriu ao Benfica, acabando por ser um marco para o clube da Luz, uma vez que assinalava o fim de um longo jejum e daqueles que foram os piores anos da sua história. Os portistas eram amplamente favoritos nessa tarde e quando Derlei abriu o marcador à beira do intervalo tudo se conjugava para que José Mourinho conquistasse mais um troféu antes da final da Liga dos Campeões.

Só que no início da segunda parte, o grego Fyssas empatou o jogo, que acabou por ir para prolongamento numa altura em que Jorge Costa já tinha sido expulso. Aos 104 minutos, Simão Sabrosa bateu o guarda-redes Nuno Espírito Santo e devolveu os sorrisos aos benfiquistas que há oito anos que não sabiam o que era conquistar um troféu.

O primeiro jogo de sempre entre os dois rivais em campo neutro foi também no Estádio Nacional, em junho de 1953. Era a primeira final da Taça de Portugal em que participava o FC Porto, enquanto o Benfica já tinha no seu currículo seis troféus. A falta de experiência terá ditado o descalabro da equipa, que acabou goleada por 5-0, graças a três golos de Arsénio, e os outros dois apontados por Rogério Pipi e José Águas. O Benfica levantava mais uma vez o troféu, agora pela quarta fez consecutiva.

A desforra portista deu-se cinco anos depois. Quando um golo de Hernâni permitiu aos dragões vencer o Benfica por 1-0, conquistando assim a segunda Taça de Portugal da sua história. Essa foi, aliás, a única vez que o FC Porto venceu o rival em finais da Taça.

Um duelo na Taça da Liga

Há apenas um duelo em campo neutro para a Taça da Liga, foi precisamente na final de 2009/10, no Estádio do Algarve. O Benfica vivia em estado de graça causado pelas boas exibições da equipa no primeiro ano de Jorge Jesus à frente da equipa, enquanto o FC Porto de Jesualdo Ferreira sofria, provavelmente, do desgaste de um ciclo de quatro anos consecutivos em que foi campeão nacional.

Rúben Amorim, Carlos Martins e Cardozo construíram um triunfo claro que assinalou o primeiro de muitos troféus de Jesus como treinador dos encarnados. Aliás, o clube da Luz já contabiliza sete troféus daquela que é a mais nova competição do calendário futebolístico nacional. Ao contrário, a Taça da Liga é a única prova que o FC Porto não conseguiu vencer até ao momento, sendo esse mais um aliciante para o jogo desta terça-feira em Braga. É que quem vencer dá um passo importante para a primeira conquista da temporada.

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