Volkswagen sai de cena e deixa tetracampeão Ogier sem carro

Ainda na ressaca do 'dieselgate' que abalou a marca alemã, a VW confirmou ontem o abandono, após quatro anos de domínio quase absoluto. Sébastien Ogier é piloto livre

Durante os últimos quatro anos, os adeptos habituaram-se a uma imagem dominante no mundial de ralis: adaptando a célebre frase do ex--futebolista inglês Gary Lineker sobre a superioridade alemã no futebol (11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha), nos ralis pode-se dizer que, desde 2013, no fim ganhou quase sempre um Volkswagen Polo WRC. E na grande maioria das vezes pilotado por Sébastien Ogier, que traduziu esse domínio num estatuto de tetracampeão mundial, completado este ano. Mas a paisagem dos ralis vai agora mudar radicalmente, depois de a marca alemã ter confirmado ontem oficialmente o abandono da competição.

O anúncio já vinha a ser admitido em surdina há alguns meses e foi finalmente decidido numa reunião, terça-feira, no quartel-general de Wolfsburgo. O fim da mais forte equipa do mundial de ralis é mais uma consequência do escândalo de adulteração dos níveis de emissões de poluentes nos motores a diesel, conhecido como dieselgate, uma prática que a Volkswagen usou para ludibriar as leis ambientais tanto nos Estados Unidos como na Europa e que, em território americano, a vai obrigar a pagar 12 mil milhões de euros em compensações.

No meio da carga negativa em redor da imagem pública do grupo alemão (que inclui ainda marcas como a Audi, Porsche, Skoda e SEAT, entre outras), a Volkswagen entendeu que o controlo de danos obrigava a abdicar da sua mais bem sucedida aventura no desporto automóvel, onde investia anualmente um montante estimado em 100 milhões de euros, de acordo com publicações em alguns media especializados. Uma decisão que veio na sequência de outra semelhante, anunciada na semana passada: o abandono da Audi das corridas de LeMans.

A prioridade no grupo, agora, é a aposta nos carros elétricos. "A marca Volkswagen enfrenta enormes desafios. Com a expansão futura da eletrificação da nossa linha de veículos, devemos focar todos os nossos esforços nas importantes tecnologias do futuro", justificou Frank Welsch, responsável da Volkswagen pelo desenvolvimento técnico da marca, revelando que a nova estratégia desportiva se focará agora mais em "fornecer carros de corridas a clientes privados", como o Golf GTI TCR nas provas de pistas e o Beetle GRC no ralicrosse. Além disso, começará em 2017 o desenvolvimento do Polo R5 a entregar em 2018, com especificações destinadas ao WRC2.

Ogier: "Continuaremos a ver-nos"

Ora, com a saída de cena da Volkswagen, fica no desemprego o o tetracampeão mundial Sébastien Ogier, que sucedeu ao compatriota Sébastien Loeb como o rosto principal dos ralis desde que assumiu o volante do Polo WRC em 2013. Um desemprego que deve ser curto, já que o francês desperta naturalmente a cobiça de qualquer equipa .

O problema é que grande parte dos carros para 2017 já estão entregues, como é o caso dos da Citröen, que no próximo ano regressa em pleno ao mundial, com a estreia do novo C3 WRC: o primeiro carro está destinado a Kris Meeke, enquanto Craig Breen e Stéphane Lefebvre devem alternar no segundo. Mas Ogier é Ogier e, ontem, o diretor da marca francesa já deixava antever que esta é uma oportunidade que não pode ser ignorada: "Se o piloto que ganhou os últimos quatro campeonatos ficar livre, é natural que queiramos conversar com ele", referiu Yves Matton ao jornal francês L"Equipe, ainda antes do anúncio da Volkswagen. Hyundai, M-Sport (Ford Fiesta) e Toyota, de regresso 17 anos depois, são as outras opções.

Ogier não parece preocupado. O piloto reagiu nas redes sociais para se mostrar "desolado pela equipa [Volkswagen]" com a qual passou "quatro anos fantásticos", mas sobre o futuro disse apenas: "Não se preocupem comigo, vamos continuar a ver-nos." Além de Ogier, ficam também no mercado o finlandês Latvala e o norueguês Mikkelsen.

Para trás, na história, fica a era de domínio da Volkswagen no mundial de ralis. Quatro anos que renderam quatro títulos de construtores e de pilotos, 42 vitórias em 51 ralis (31 delas de Ogier), 622 de 980 especiais ou um recorde de 92,3% de vitórias nas épocas de 2014 e 2015 (12 em 13 ralis). Uma era impressionante.

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