"Trump não tem perfil para ser presidente do país mais poderoso do mundo"

Ainda lhe passou pela cabeça ser jornalista depois de pendurar os ténis, já não tanto a carreira de treinadora. Acabou como agente desportiva, sobretudo para conquistar uma liberdade de movimentos que nunca teve enquanto jogadora. Adquiriu recentemente a dupla nacionalidade, portuguesa e americana, votou e acompanhou com grande interesse as eleições norte-americanas, muitas vezes ficou boquiaberta com as coisas que diz o atual presidente dos EUA. Mas não é isso que a fará regressar a Portugal tão depressa.

Leia a primeira parte desta entrevista:

Fez uma pausa quando deixou de jogar?

Retirei-me em setembro de 2012 e comecei logo como agente desportiva. A minha "reforma" não durou muito tempo.

Tem pena de não ter representado mais vezes Portugal?

As competições eram durante o verão e era difícil para mim conciliar os jogos da seleção com a WNBA, ainda por cima a viver em Sacramento, com 30 horas de avião de viagem entre os dois países mais a diferença horária, que são oito horas. Era complicado, não conseguia participar. Tenho mais de cem internacionalizações e gostava de ter muito mais, é sempre um orgulho representar o nosso país. Gosto de acreditar nos meus sonhos e digo sempre que se deve sonhar alto, mas participar numas Olimpíadas era algo que à partida sabia ser impossível.

Como é que está o basquetebol feminino português comparativamente há 22 anos, quando começou?

Evoluiu bastante, a seleção tem conquistado feitos incríveis, fomos subcampeãs europeias, medalha de prata, participámos no campeonato mundial, o que é inédito. Portanto, o basquetebol feminino continua a andar para a frente e é uma alegria muito grande.

Gostaria de fazer mais em Portugal?

Não estou cá o tempo suficiente para desenvolver qualquer projeto. Cheguei anteontem e vou embora amanhã. Acabo de vir de Praga [a entrevista foi no dia 29 de junho], onde fui ver o Campeonato Europeu de Seniores femininos, passo por Portugal e sigo para os Estados Unidos. A minha vida é nos Estados Unidos, sou portuguesa mas também sou americana.

Não há um projeto que gostasse de desenvolver na Figueira da Foz?

Gostaria de criar uma escola de basquetebol, mas não o faria só para dar a cara. Quando estou cá, pedem-me para ir ao Ginásio Figueirense assistir aos treinos, e vou quando posso. Mas nunca venho com mais de uma semana.

Há o Circuito Ticha Penicheiro e é embaixadora da liga Júnior NBA Portugal, que começa em outubro.

Pediram-me para usar o meu nome e aceitei. Podem usar desde que seja em prol do basquetebol feminino, do basquetebol em geral, para incentivar a miudagem a fazer desporto. O que quero é que os miúdos pratiquem desporto, que joguem qualquer coisa. Na minha altura, não tinha telemóveis, iPad, a minha mãe quase que me vinha buscar pelas orelhas. O que queria era jogar, estar na rua. Hoje os miúdos fecham-se em casa. A liga júnior é outra forma de os incentivar, podem vestir uma camisola da NBA e sonhar com a NBA. Nunca tivemos um português na NBA e seria engraçado conseguir esse feito.

Ou surgirem mais Tichas?

Espero que sim. O basquetebol feminino está a crescer, mas este é um desporto em que é difícil alguém destacar-se individualmente. A nossa seleção funciona mais no coletivo do que propriamente com base numa jogadora que leva tudo à frente, mas espero que apareçam mais Tichas e com uma carreira excecional.

Não foi só a única portuguesa a fazer história no basquetebol norte-americano, mas também a única europeia. Entrou no top 20 das melhores da WNBA.

Sim, e estrangeira só havia mais uma, a australiana. Éramos as únicas estrangeiras no meio de 20 e, quando penso nisso, quase apetece beliscar-me; estar no meio de tanta estrela, quase todas olímpicas, grandes jogadoras e que fizeram muito pelo basquetebol americano. Haver alguém de Portugal, de um país pequeno e onde, como sabemos, o basquetebol não é o desporto-rei é motivo de orgulho, sem dúvida.

É agente desportiva. Quem representa?

Represento jogadoras na WNBA e na Europa, mas 90% são americanas.

O que é mais difícil na vida de agente?

Há dias bons e dias maus, o pior é lidar com alguns clubes da Europa que são muito pouco profissionais e tornam a nossa vida mais difícil. Mas não há ninguém que seja todos os dias feliz no trabalho.

Ganha-se bem no basquetebol?

Não, quando se é mulher. Se tivesse a carreira que tive na NBA e não na WNBA, posso garantir-lhe que já não trabalhava, estava a viajar pelo mundo inteiro. Trabalho porque é uma necessidade. Como jogadora de basquetebol, ganhei o dinheiro normal, se calhar mais do que uma pessoa comum em Portugal, mas não tem nada a ver com o que se ganha na NBA. Nem comparo os valores para não me chatear.

É grande a disparidade de salários entre os sexos?

Sim, sim, está a anos-luz. Um salário anual médio da WNBA são 50 mil dólares [42 500 euros], enquanto que NBA são dez milhões. Não há comparação possível.

Tem alguma jogadora portuguesa?

Não. A minha agência [Sports International Group] representa atletas que estão no nível máximo e, neste momento, não há nenhuma portuguesa a esse nível. Às vezes, as equipas portuguesas pedem-me jogadoras, mas não tenho ninguém para o dinheiro que podem pagar. Infelizmente, não posso agenciar jogadoras em Portugal porque é um nível abaixo do que a agência espera.

O que é que faz uma agente?

Temos o basquetebol, feminino e masculino, e o futebol americano. Assistimos aos jogos para recrutar as melhores jogadoras que estão a sair das universidades, colocá-las na WNBA, segui-las, depois metê-las na Ásia ou na Europa, enfim, o que é preciso para seguirem o percurso que eu tive. Fazer os melhores contratos para ganharem o maior valor de dólares possível. Tem de se ser não só agente mas também uma mentora, uma pessoa que ajuda, que dá conselhos, para que tenham a melhor carreira, dentro e fora do campo.

Representa quantas atletas?

Eu tenho 23, mas a agência tem mais de cem.

Nunca lhe passou pela cabeça ser treinadora?

É muito stressante e eu quero ter liberdade. Posso estar em Portugal, na China, na Cochinchina ou no Polo Norte, e desde que tenha o meu telemóvel e o meu computador, posso trabalhar. É essa liberdade, que não tive durante os anos todos em que joguei, que quero, mais nada. Não quero estar num escritório, não quero trabalhar das nove às cinco, não quero estar num pavilhão todo o dia a treinar. Dei metade da minha vida ao basquetebol, agora quero continuar a ser eu a gerir o meu tempo.

Sente-se realizada como agente?

Quero continuar a aprender, continuar a assinar com as melhores jogadoras que saem da universidade. Continuo competitiva. Fui competitiva como jogadora e sou competitiva como agente. Quero ser a melhor agente e ter as melhores jogadoras. Estou nesta profissão há cinco anos, ainda é pouco tempo, mas o meu nome também ajuda e não há muitos agentes que jogaram e com a carreira que eu tive. Isso também ajuda a contratar jogadoras, mas não estou sozinha, tenho uma equipa por detrás de mim. Também já deixei de assinar com jogadoras que queria, faz parte do ofício.

Também deve ser stressante?

Não, comigo não, não stresso. Sou peace and love, felizmente nisso não saí à minha mãe, saí ao meu pai.

Pensa voltar para Portugal?

Neste momento não.

Sem saudades do mar da Figueira?

Venho cá e vivo em Miami. Tenho um mar mais verde e água mais quentinha.

Como vê a atual política nos EUA?

Mal, e de uma maneira que me parece quase um pesadelo, que não é verdade. Todos os dias aparecem no meu telefone notificações sobre o que o Trump está a fazer. Parece que quer desfazer tudo o que o Obama fez, não sei. Trump não tem perfil para ser presidente de um país, principalmente do país mais poderoso do mundo. Odeio política e esta foi a primeira vez que votei, também sou americana há pouco tempo. Vi todos os debates e sinceramente fiquei boquiaberta com as coisas que se estavam a passar. Conheço zero pessoas que votaram nele. É incrível o que se fala nele nas redes sociais, uma pessoa que foi acusada de violação, que não respeita as mulheres. Já nem é não ter o perfil de presidente, é não ter perfil de ser humano.

E sonha com quê?

Ser feliz e ter saúde.

E colaborar com o seu clube do coração, o Benfica?

Não sou eu que devo bater à porta. Quando ganhei o campeonato, houve alguns rumores de que queriam fazer alguma coisa, mas nunca aconteceu nada. Não sou pessoa de ir bater à porta, se quiserem fazer alguma coisa que me tentem contactar.

Noto aí alguma mágoa. Sente-se reconhecida no seu país de origem?

Sim. Se fosse jogador de futebol como o Ronaldo seria diferente, é o melhor jogador do mundo e do desporto-rei, é normal ser primeira página. No espacinho dado ao basquetebol, falaram bastante. Aqui se um jornal tem 20 páginas de desporto, 18 e meia são sobre futebol.

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