"Pereira Cristóvão mostrou-me SMS íntimos de jogadores"

Em entrevista ao DN, o antigo vice-presidente da Assembleia Geral do Sporting conta como soube da espionagem em Alvalade, do consentimento de Godinho Lopes e daquilo que os bancos credores lhe revelaram.

Quando a sua Mesa da Assembleia Geral (MAG) foi eleita numa lista diferente da do Conselho Diretivo (CD) de Godinho Lopes sentiu que o mandato ia ser intranquilo?

Do ponto de vista do clube, à partida não era bom. Mas no primeiro ano penso que os dois órgãos trabalharam bem em conjunto, foi nesse período que se fez a revisão dos estatutos, o regulamento eleitoral, houve reuniões de trabalho conjuntas e o Sporting não estava na situação tão má em que esteve depois no segundo ano do mandato, portanto houve uma colaboração que foi boa. Houve um episódio que importa referir que foi a destruição dos votos. Foi feita antes do prazo e foi-nos comunicada pelo telefone.

Quem fez essa comunicação?

O presidente Godinho Lopes a mim, porque nessa altura ele dava-se muito bem comigo e não se dava muito bem com o Eduardo Barroso (ndr. Presidente da MAG). Disse-me que ia destruir os votos e eu respondi que tínhamos que ver. Consultei os três juristas da MAG e eles responderam-me que o prazo ainda corria. Telefonei a Godinho Lopes e os votos já tinham sido destruídos. Nós, MAG, nunca falámos sobre isso, porque não queríamos desestabilizar. Mas era uma coisa grave. Se tivéssemos levantado essa questão que seria muito embaraçosa para o CD. Foi o vice-presidente Paulo Pereira Cristóvão que avançou para essa situação. Aí começou uma posição de desconfiança em relação ao vice-presidente, mas achámos que por uma questão de lealdade institucional, que o CD nunca teve para connosco no segundo ano de mandato, ficámos em completo silêncio e acho que fizemos bem. Isto só prova que a colaboração era bastante boa. À medida que se degradaram a situação financeira e a situação desportiva nós começámos a ser um pouco críticos mas só em dezembro do ano passado é que nós começámos a tomar posições mais públicas de crítica ao CD.

Mas internamente quando adotaram essa posição mais crítica?

Em meados de 2012... o CD nas reuniões que mantinha connosco e com o Conselho Fiscal funcionava de forma muito interessante; o presidente Godinho Lopes falava durante uma hora seguida e às vezes ficava com a boca seca de tanto falar. Falava de milhões como um cidadão comum falava de euros de coisas que nós percebíamos que não tinham uma sedimentação rigorosa. O CD ficava em completo silêncio, nunca vi membros do CD emitirem uma posição significativa sobre o Sporting. Ele falava sozinho, passava o tempo e a reunião acabava.

Depois houve o caso Pereira Cristóvão.

Exatamente, no qual houve uma grande divergência entre a MAG e o CD. Devo dizer que tive uma conversa com esse vice-presidente que é hoje arguido e que muito me inquietou. Nessa conversa comunicou-me que espiava os jogadores.

Comunicou-lhe isso assim?

Estava com os meus netos a pedir autógrafos aos jogadores, numa iniciativa junto dos carros dos jogadores onde estavam as suas mulheres e namoradas. Nessa circunstância de uma forma surpreendente para mim, visto que não tinha nenhuma relação pessoal com esse vice-presidente, veio ter comigo contando-me episódios da vida íntima dos jogadores e mostrando-me mensagens trocadas entre um jogador e a sua namorada. Posto isto alertei o presidente Godinho Lopes.

O que lhe disse Godinho Lopes?

A resposta que me foi dada é que todos os clubes faziam isso. Eu disse que não acreditava que todos os clubes vão ao ponto de saber as relações íntimas, e estou a falar de relações afetivas e sexuais dos jogadores, e que isso seja motivo para um vice-presidente saber e ter mensagens da vida íntima dos jogadores. Foi-me mostrado no telemóvel do vice-presidente a mensagem [SMS] de um jogador para a sua namorada e a resposta da namorada. Nessa mesma conversa o vice-presidente disse-me que havia um jogador que tinha uma relação extra-conjugal e que outro jogador tinha uma namorada. Coisas deste género. A expressão que eu utilizei foi "quero é que eles joguem bem, com quem eles dormem não me interessa e acho que não deve falar sobre isso". Respondeu-me que estava a proteger os ativos. Mas achei que devia avisar o presidente pois o clube não ia bem fazendo esta devassa da vida íntima dos jogadores. Godinho Lopes, para além da resposta de que todos os clubes fazem isso, disse-me que era a primeira pessoa a chamar atenção para isso.

Pode-se concluir que Godinho Lopes estava a par disso?

Evidentemente que estava e achou aquilo, que eu considerei perfeitamente inusitado, perfeitamente natural.

Depois mais tarde rebentou o caso Cardinal.

Isso. Tivemos um almoço em que estiveram os elementos da MAG e ele como único membro do CD. Aí dissemos que a situação era muito grave e que o Sporting devia constituir-se assistente do processo e que o vice-presidente devia sair, porque estava sob suspeita. Foi-nos respondido que ia haver uma reunião do CD para analisar a situação. Foi aquela reunião muito longa, ele não se demitiu. Tudo isto foi evoluindo, o vice-presidente acabou por se demitir devido a outros crimes que não tinham a ver com o Caso Cardinal e nós insistimos que o Sporting devia constituir-se como assistente do processo e encarar a possibilidade de pedir uma indemnização cível porque o clube foi lesado na sua imagem. A resposta foi negativa, que havia pareceres contraditórios e o que se sabe é que o Sporting não se constituiu como assistente. A partir dessa situação as relações degradaram-se um bocado e começou a correr a ideia de que havia um movimento de sócios para requerer uma AG de destituição.

Mas desde que rebentou esse caso até ao último dia de mandato a MAG voltou a pressionar o CD a constituir-se assistente?

Fizemos pressões constantemente, quinzenais seguramente.

Não temeu que a sua vida privada também estivesse a ser... espiada?

Não, não. Sobre Paulo Pereira Cristóvão posso apenas dizer que o lamentei ter conhecido, mas nunca me incomodou e foi sempre correto comigo.

Conte-nos lá o processo da polémica AG que não se realizou.

No início de janeiro surgiu o requerimento. Mas a verdade é que nós podíamos ter convocado a AG através do nosso presidente Eduardo Barroso. A MAG do ponto de vista estatutário pode ser ela a requerer uma AG de destituição. Nunca o fizemos por uma questão de lealdade institucional. Dissemos que nunca o faríamos mas se um grupo de sócios o quisesse fazer nós tínhamos que analisar as condições. A 2 de janeiro, com as assinaturas a correr, pedimos uma reunião ao CD em que dissemos que uma das soluções que podia haver passava pela demissão do CD para que não houvesse uma AG de destituição, que não era boa para o CD nem era boa para o Sporting.

Antes disso, alerta Jesualdo Ferreira para a situação no almoço de Natal.

É verdade. Disse ao professor que era necessária atenção quando fizesse a planificação da época porque era provável que houvesse eleições.

Mas o requerimento do grupo de sócios tinha que fundamentar a justa causa para a destituição do CD.

Outro equívoco. O requerimento entrou a 6 de janeiro e essa questão da justa causa era o argumento de alguns membros do CD que diziam que a MAG tinha que decidir se havia justa causa para o requerimento ou não. A nossa interpretação é de que tínhamos apenas de verificar se o requerimento estava de acordo com os estatutos e a justa causa seria decidida pela AG. Havia uma divergência importante do ponto de vista jurídico porque alguns juristas do CD como Rui Paulo Figueiredo e João Pedro Varandas diziam que a MAG tinha que rejeitar o requerimento porque não havia justa causa. Nessa reunião de 2 de janeiro discutiu-se isso e nós dissemos que se o requerimento estivesse de acordo com os estatutos convocávamos a AG e esta decide se há justa causa para demitir ou não. O tribunal apoiou totalmente a interpretação da MAG, por isso é que a sentença foi rejeitada e escondida aos sócios. Acho que as pessoas que meteram essa providência cautelar deviam pagar os custos do processo, não devia ser o Sporting. Bom, depois veio o requerimento e para obtermos os dados dos serviços foi dificílimo. Nunca mais nos diziam se havia mil votos ou não. Uma verificação que se fazia numa tarde demorou uma semana ou mais. E só terminou porque eu e Rui Morgado, secretário da MAG, nos deslocámos a Alvalade e fomos saber se havia mil votos ou não.

Porque é que acha que foi difícil essa verificação?

Porque o CD não queria que a AG se realizasse.

Depois foi acusado de querer comprar a claque Juventude Leonina.

Falámos com as duas claques, Juventude Leonina e Diretivo XXI, com os Leões de Portugal, com o Grupo Stromp, com os quatro candidatos derrotados - Abrantes Mendes, Bruno de Carvalho, Dias Ferreira e Pedro Baltazar - para saber o que estas pessoas achavam do momento atual e da realização da AG.

E o que lhe expressaram?

Ninguém defendeu o CD, o que é interessante. A única pessoa que defendeu Godinho Lopes foi o "Musta" da Juventude Leonina que disse, numa reunião muito cordial, que a claque estava com o presidente. Obviamente que não comprei nenhuma claque. Completamente mentira. E tenho testemunhas. Sobre esta acusação não recebi uma única palavra de solidariedade de nenhum órgão social. O Conselho Fiscal devia ter aberto um inquérito. Ou sou um corruptor e devo ser punido ou então há uma calúnia contra um membro da MAG que tem de ser verificada.

Quando percebeu a intransigência de Godinho Lopes em demitir-se tentou falar com alguns membros do CD?

É verdade. Isso foi-nos sugerido por Abrantes Mendes, que tinha passado por um cenário igual no tempo de Jorge Gonçalves. Em 1988 esteve marcada uma AG de destituição ele falou com os membros do CD, que fizeram cair o CD. Fizemos alguns contactos, que não eram ao acaso. Essas pessoas queriam demitir-se. Aureliano Neves e Rui Paulo Figueiredo várias vezes nos disseram que se queriam demitir. Eu próprio falei com Daisy Ulrich. Nenhum deles recusou liminarmente, disseram que iam pensar.

Entretanto, a MAG tem contactos com os bancos credores para se inteirar da real situação do Sporting...

Sim. O requerimento estava a andar, assim como falámos com claques, grupo Stromp e outros pedimos audiências oficiais ao Milenium BCP e ao BES. Aí a conversa com José Maria Ricciardi foi institucional. O que ele nos disse em janeiro era que a restruturação não estava feita. Mas que ia ser feita. Ele sempre foi contra a AG porque considerava que ia interromper a restruturação. Não havia restruturação. Havia projetos, constatámos isso. A 25 de janeiro fomos ao BCP e fomos recebidos mais alto nível pelo seu presidente, Nuno Amado, que nos disse que não havia restruturação nenhuma. E mais. Garantiu-nos que o BCP só iria colaborar com a restruturação com tudo escrito, quer com o atual presidente, quer com o futuro presidente se houvesse eleições. "Não vamos continuar a dar apoio ao Sporting sem um plano de restruturação completamente escrito com o apoio do Conselho Fiscal e Disciplinar do Sporting, o atual ou o futuro", disse-nos Nuno Amado. Nesse dia percebemos que o principal credor do Sporting, que é o BCP e não o BES, nos tinha acabado de dizer que não havia restruturação nenhuma. Era uma completa mistificação do CD dizer que havia uma restruturação em curso. Não havia nada, havia propostas que não foram aprovadas, discutidas ou escritas. Numa reunião em dezembro o CD chegou a dizer-nos que a restruturação iria ser feita até final de dezembro. Mas devo dizer que nas reuniões que mantivemos com os dois bancos foi-nos dito que seria feito um plano restruturação qualquer que fosse o novo presidente, porque essa história do candidato do banco é uma mistificação. A situação é tão grave, porque o Sporting deve tanto dinheiro, que qualquer banco minimamente sério recebe quem ganhou.

Sentiu que Godinho Lopes se queria perpetuar no poder?

Não tenho a mínima dúvida. Fez tudo para que a AG não se realizasse. Ele tinha a certeza que ia ser destituído.

Na conferência de imprensa de esclarecimento sobre como iria funcionar a AG foi atingido com ovos.

Fui avisado de que devia colocar um polícia à paisana. E através dos meus contactos pessoais consegui que um sócio do Sporting, o Comissário Pinho, fosse assistir à conferência à paisana e como sócio. Foi a nossa sorte. Na primeira parte com os jornalistas correu bem. A segunda parte era com os sócios. Estávamos no auditório e tínhamos solicitado aos serviços que identificassem os sócios para que só sócios entrassem. Essa identificação não foi feita. Depois começaram os insultos e os palavrões e sete ou oito indivíduos levantaram-se e atiraram ovos. O Comissário Pinho imediatamente barrou a saída, pediu reforços e as pessoas foram identificadas. Foram sete pessoas identificadas que eu não sei quem são. E o processo seguiu para a polícia e para o DIAP. Depois constituí-me assistente do processo e tenho também uma investigação particular para acompanhar o processo.

Tem suspeitas então?

Isto foi orquestrado por aquele grupo de pessoas que dominava o Sporting. Pelo menos foi consentido por essas pessoas. E ninguém fez nada até 26 de março. Telefonei e escrevi mails ao presidente do Conselho Fiscal, Melo Franco, e ao presidente Godinho Lopes dizendo que era inadmissível que deixassem terminar o mandato sem fazer nada sobre uma situação que ocorreu nas instalações do clube contra um órgão social. E esclareci que não iria admitir isso e que se não fizessem nada que eu denunciaria o caso na imprensa. No dia 22 de março, véspera das eleições, recebi um mail de Godinho Lopes, tratando-me por Vossa Excelência, que me dizia que já tinha falado sobre o assunto com Melo Franco, que entretanto me realçou que ia fazer um parecer sobre o assunto antes de fechar o mandato mas que transitava para o próximo Conselho Fiscal. Inadmissível, como um órgão social é agredido daquela forma e o CD não faça nada a não ser um comunicado a lamentar.

Não se sentiu um pouco sozinho devido à ausência de Eduardo Barroso, que era o presidente da MAG, e estava a concluir a sua tese de doutoramento?

Tive que liderar o processo pois era o vice-presidente e o presidente não estava. E sinto orgulho do que fiz, de ter contribuído de ter devolvido o Sporting aos sócios. Não hesitei e não me queria nada demitir, pois não tinha motivo nenhum para isso. E no dia das eleições fui muito acarinhado pelos sócios. Sinto que não me escondi.

Quando conheceu Godinho Lopes?

Nas eleições de 2011.

Ao princípio já disse que mantinha uma boa relação com o antigo presidente...

Sim, acreditei que era uma pessoa esforçada.

Acha que ele se dedicou?

Completamente, mas não tem a menor noção de como se gere um clube. Ao fim de um ano e meio disse no Conselho Leonino que estava a aprender. E houve um conselheiro, Nuno Caetano, que lhe perguntou se ele tinha levado ano e meio para perceber que o problema do Sporting era de organização. Durante um tempo dei-lhe o benefício da dúvida, fui solidário, engoli o sapo dos votos queimados... ele confiava em mim eu confiava nele.

Se saísse à rua e se deparasse com Godinho Lopes cumprimentava-o?

Ele agora opta por me cumprimentar à distância, mas se o visse estendia-lhe a mão.

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