Só a amarela de Van Aert conseguiu ofuscar o 'conto de fadas' de Jakobsen

A incrível odisseia de Wout van Aert na Volta a França teve este sábado a merecida recompensa, com o ciclista belga a ofuscar a primeira vitória do estreante Fabio Jakobsen na prova, ao vestir finalmente a amarela.

Na sexta-feira, um dececionado Van Aert (Jumbo-Visma) antecipou que seria possível chegar à liderança do Tour nos dias seguintes e, menos de 24 horas depois de tornar-se um 'meme' pela cara de espanto que exibiu quando o compatriota Yves Lampaert (Quick-Step Alpha Vinyl) lhe negou a vitória no 'crono' inicial, subiu ao pódio para vestir a amarela, apesar de ter sido novamente segundo, desta vez atrás de outro dos elementos da 'alcateia'.

"Uma [vitória em] etapa na Volta a França é algo com que sonho há 15 anos", confessou Jakobsen, depois de cumprir os 202,2 quilómetros da segunda etapa em 4:34.34 horas na dianteira do pelotão, onde chegou integrado o português Nelson Oliveira (Movistar).

Falar da história extraordinária de superação do neerlandês após a sua terrível queda na Volta a Polónia em agosto de 2020, que o deixou em coma induzido e 'obrigou' a várias operações de reconstrução do rosto, seria o mais fácil hoje, no entanto, o inqualificável belga, de 27 anos, merece ser o protagonista: 'WVA' foi segundo na tirada, atrás de Jakobsen, e à frente do dinamarquês Mads Pedersen (Trek-Segafredo), mas as bonificações permitiram-lhe 'roubar' a liderança a Lampaert.

Vencedor de seis etapas no Tour, incluindo três no ano passado, o homem da Jumbo-Visma, uma das grandes figuras do pelotão atual, tentava desde 2019 vestir a amarela, sem sucesso, tendo passado sete dias como 'vice' da geral, uma condição que hoje foi herdada por Lampaert, segundo a um segundo.

Numa jornada em que o esloveno Tadej Pogacar (UAE Emirates), bicampeão em título e terceiro da geral a oito segundos de Van Aert, caiu a dois quilómetros da meta -- e cruzou-a a sorrir e com um pneu furado --, numa queda que deixou 'cortados' vários dos favoritos e também Ruben Guerreiro (EF Education-Easypost), todos eles creditados com o mesmo tempo do vencedor, os motivos de interesse foram muitos.

O inédito 'Grand Départ' da Dinamarca, com três desafiantes etapas, abriu uma miríade de possibilidades para os ciclistas locais, uma nova 'dinastia' no pelotão, que tem no carismático Magnus Cort um dos seus expoentes máximos.

E foi precisamente o homem da EF Education-Easypost a iniciar as hostilidades, no primeiro quilómetro dos 202,2 entre Roskilde e Nyborg, sendo prontamente acompanhado por Pierre Rolland, outro dos clássicos 'fugitivos' do Tour, e do companheiro do veterano francês na B&B Hotels-KTM Cyril Barthe, assim como do norueguês Sven Erik Byström (Intermarché-Wanty-Gobert).

À partida, Magnus Cort assumiu sonhar com a famosa camisola às bolas vermelhas e, durante a tirada, não escondeu a sua pretensão, sendo o primeiro a passar em Asnaes Indelukke, a primeira subida categorizada desta edição (uma quarta categoria), responsável por separar os fugitivos, que nunca tiveram mais de três minutos de vantagem.

Os ciclistas nórdicos ficaram isolados na frente -- Rolland e Barthe foram alcançados ao quilómetro 96,5 - e foram discutindo entre si os pontos na montanha, com Cort a levar a melhor e a celebrá-lo como se tivesse vencido a etapa, conquistando a camisola que procurava e tornando-se o primeiro dinamarquês a liderar a classificação da montanha desde Michael Morkov há 10 anos.

Cumprida a sua missão, o corredor da EF Education-Easypost deixou Byström como derradeiro fugitivo, numa iniciativa anulada a 31 quilómetros da meta.

Na aproximação à temida ponte do Grande Belt, a Jumbo-Visma reposicionou-se no pelotão, lado a lado com a UAE Emirates e a INEOS, antecipando movimentações nos 18 quilómetros expostos a fortes ventos laterais, situados mesmo antes da meta.

O nervosismo entre os corredores tornou-se evidente quando o camisola amarela Yves Lampaert caiu, à entrada da travessia, mas, num gesto de 'fair-play', o pelotão decidiu abrandar o ritmo para aguardar pelo belga.

A queda 'retraiu' os ataques e a etapa foi discutida ao 'sprint', conquistado pelo melhor 'sprinter' da atualidade, que, na estreia no Tour, somou a sexta vitória em grandes Voltas (tem cinco na Vuelta) e a 36.ª na carreira.

"Para mim, foi um processo longo, passo a passo. Muitas pessoas me ajudaram durante o caminho. Esta é a minha forma de agradecer-lhes [...]. Estou feliz e ainda adoro andar de bicicleta e competir e, por sorte, ainda consigo vencer. É um dia fantástico e gostaria de agradecer a quem me ajudou a chegar aqui", resumiu o ciclista de 25 anos.

No domingo, o pelotão despede-se da Dinamarca, nos 182 quilómetros entre Vejle e Sønderborg, com Van Aert a envergar o símbolo de líder de uma classificação em que Oliveira é 52.º, a 52 segundos, e Guerreiro 147.º, a 1.39 minutos.

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