"O pós-Ricardinho vai ter impacto, mas vamos continuar no topo"

Segunda parte da versão completa da entrevista com o selecionador de futsal, publicada este domingo em versão mais reduzida no edição em papel do Diário de Notícias

O que pensou naquele momento da final em que o Ricardinho se lesionou? Foi um abalo ou pensou logo no Ronaldo e no Euro 2016 ?
Não... não me lembrei do Ronaldo, mas quando vi o Ricardo tanto tempo a ser assistido, percebi logo que já não estava em condições. Quando chegou ao banco ainda lhe perguntei: 'como é, marcas penalti se for preciso?' Ele disse 'mister, isto não está muito bom'. Mas mais uma vez senti tranquilidade pela reação dos colegas. O Bruno que foi ter com ele e disse 'não te preocupes que eu vou resolver isto'. Ver essas reações a esse momento mau, a lesão do Ricardo, a forma como todos reagiram... Por isso me continuei a sentir tão tranquilo. Acho que a vez que eu vi mais que isto ia cair para o nosso lado foi quando o Ricardo se lesionou porque só ouvia no banco toda a gente a dizer 'isto vai cair para o nosso lado, isto vai cair para o nosso lado'... Pensei: 'fogo, ando há 3 semanas a dizer isto e estes gajos agora é que não se calam com isto'.

É uma pergunta que lhe fazem muitas vezes: como é treinar o melhor do mundo [Ricardinho]?
Ele é que percebe muito bem que é o melhor do mundo também a complementar todos os outros. Foi fantástico quer como capitão quer como colega. Foi o que eu lhe disse: ' tu sendo o melhor do mundo e a complementares os que estão ao teu lado, vamos ter uma equipa fortíssima". O Ricardo é o melhor do mundo porque faz as coisas simples como ninguém. As genialidades depois aparecem, ele faz coisas que nem eu percebo e às vezes lhe pergunto... ainda neste estágio tivemos lá uma discussão dessas com um lance, uma execução, que aquilo do ponto de vista coordenativo parece impossível, mas para ele é possível. E isso vai sempre aparecer. Mas o Ricardo faz as coisas simples como ninguém. Ninguém defende tão bem como ele, ninguém conhece o jogo tão bem como ele, ninguém decide e pensa tão rápido como ele, ninguém fisicamente tem a estrutura e tudo o que ele foi construindo com o trabalho dele. E complementar isso com essa capacidade para fazer os outros em volta melhores, tanto na seleção como no clube... faz dele o melhor do mundo indiscutivelmente. Quando temos um atleta assim, é extremamente fácil de treinar. Difícil é treinar aqueles que acham que são bons.

Mas também por isso a responsabilidade do o treinar não é maior? Não vivia com aquela ideia de ter que lhe proporcionar o título que faltava ao currículo dele?
Honestamente, eu achava que ainda dentro do percurso desportivo do Ricardo iria cair um título de seleções. Eu pensava que neste ciclo de quatro fases finais [pós-Europeu 2014] teríamos de alcançar alguma coisa. E nestas quatro o Ricardo ainda vai cá andar. E o Ricardo iria ter um título pela seleção.

Não teme o efeito do pós-Ricardinho no futsal português?
Vai ter algum impacto, mas vamos continuar a ter seleções para andar no topo. Não tenho dúvida. Agora, deixar de ter o Ricardo vai ter impacto, claro, então não vai. É para mim o melhor de sempre, nunca vi ninguém tão completo, nunca. E isso ainda vai ser mais evidente isso daqui a 4 ou 5 anos quando ele se retirar. Mas, olhe, ver a reação da equipa quando ele saiu na final e em determinados momentos que tivemos de gerir sem ele, ver como nos comportámos deixa-me tranquilo. A renovação geracional está a ser garantida e dá garantias.

O Fernando Santos, atual selecionador de futebol, tentou em tempos desviar o Ricardinho para o futebol. Já teve oportunidade de falar com ele sobre isso?
Não, com o Fernando Santos por acaso nunca falei. Mas eu estava nesse estágio [era adjunto do Orlando Duarte na altura], estávamos em estágio na seleção, e o Ricardo estava connosco quando na capa do jornal saiu que ele iria para o futebol. Foi giro, na altura, porque foi a primeira vez que cheguei a um treino da seleção nacional de futsal e vi tantas câmaras, tantos jornalistas, ninguém sabia como reagir àquela situação. Era eu que operacionalizva o início dos treinos e só disse : "não quero esta gente toda aqui dentro do pavilhão, quero esta gente fora porque queremos treinar. Não quero saber se o Ricardo vai para o futebol ou não. Até 4.ª feira não vai, que vai estar connosco." Lembro-me de lhe ter dito isso na altura: ó Ricardo, tu até 4.ª não vais, estás aqui no estágio. Mas nunca falei com o Fernando Santos sobre isso.

Mas costuma haver comunicação/troca de opiniões com a equipa técnica da seleção de futebol e entre as equipas técnicas das diferentes modalidades da FPF?
A Casa do Futebol o que nos trouxe foi essa identidade comum a todas as seleções. E as discussões com o Francisco [futebol feminino], com o Rui jorge [sub-21, fantástico, um treinador fabuloso, uma referência para mim do que é ser treinador], a equipa técnica do Fernando Santos, uma série de treinadores, o Justino dos guarda-redes é fantástico, o João, o Ricardo, o Ilídio, que é uma pessoa que pensa futebol da cabeça aos pés. Existe ali uma série de pessoas que estamos todo o dia a falar sobre treino, a querer saber o que faz este no futebol, aquele no futsal, o outro no futebol de praia, o futebol feminino, os escalões jovens. E há muito intercâmbio de ideias. O Peixe, O Filipe, o Helder... uma série de pessoas extremamente competentes que pensam o jogo... O Narciso [futebol de praia], fantástico também. Essa partilha é fantástica.

O título europeu do futebol em 2016 foi uma inspiração no seio das seleções FPF?
Demonstrou que podemos lá chegar. E faltava lá o cantinho do futsal não é? Parecia mal estar lá o troféu do futebol de praia, do futebol, das seleções jovens...e o cantinho do futsal sem nenhum troféu. Agora já está.

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