Quando jogar em França é ainda melhor do que jogar em Portugal

Portugal volta a disputar um Europeu em França depois de ter chegado às meias-finais do Euro 1984. Passaram-se 32 anos, mas há uma coisa que Eurico, Chalana, Álvaro, Gomes, Diamantino e Jaime Pacheco não esquecem: o apoio dos emigrantes, com quem os futebolistas até tomavam um cafezinho depois de almoço. E agora como será?

13 de novembro de 1983. Portugal recebe a URSS no velhinho Estádio da Luz e precisa de ganhar para marcar presença no Europeu 1984. Um penálti mal assinalado aos 44 minutos, sobre Chalana, num lance faltoso cometido fora da área e convertido por Jordão, enche de euforia os portugueses e deixa os soviéticos irados, convencidos de que foram afastados por uma razão política do Europeu francês, depois de um lance mal ajuizado pelo árbitro... francês Georges Konrath.

A tal razão política seria o facto de Portugal ter muitos emigrantes em França, o que proporcionaria uma adesão aos estádios. Em suma, Portugal tinha, a URSS não tinha. A UEFA, alegadamente, sorria.
Não se sabe ainda hoje se os soviéticos tinham razão, mas numa coisa estavam certos: os emigrantes portugueses foram preponderantes naquela campanha que começou com um estágio em Palmela e terminou em Marselha, nas meias-finais com a anfitriã França, quando a final de Paris estava a seis minutos de ser uma realidade.

"Tudo aquilo que eu possa expressar não é tão forte como aquilo que sentimos. Chegámos a França e parecia que estávamos em Portugal, quiçá para melhor", lembra ao DN Jaime Pacheco, na altura jogador do FC Porto e titular no meio-campo de Portugal.

Fernando Chalana, a maior figura de Portugal no Europeu que lhe valeu uma transferência para o Bordéus, relembra "a enorme carga de energia" que os emigrantes transmitiram à seleção nacional.

Álvaro Magalhães, na altura só Álvaro, fez uma dupla de respeito no flanco esquerdo de Portugal. E também aqui mostra um entendimento perfeito com aquele que foi apelidado de pequeno genial: "Não quero exagerar e não estou a exagerar, era como se estivéssemos em casa. Aquilo era... [silêncio na procura da melhor palavra] impressionante. Nós sentíamos que tínhamos de dar uma alegria àquela gente, que sofria um enorme desgaste num país que não era o seu. Os emigrantes sentem como ninguém o nosso país e para eles era um privilégio apoiarem Portugal no país para onde foram forçados a rumar para procurar uma vida melhor."

Fernando Gomes, que formava com Nené e Jordão o trio de luxo de pontas-de-lança, relembra que "ainda em Portugal" a vontade de não deixar os emigrantes malvistos "era motivo de conversa", tendo depois havido "um reforço da equipa técnica" composta... por quatro treinadores - Fernando Cabrita, o chefe, Toni, António Morais e José Augusto.

"Quando o autocarro chegava perto dos estádios, parecia que estávamos em Lisboa ou no Porto", salienta Diamantino Miranda. "Parecia que jogávamos em Portugal", complementa o extremo.

"Saudades, saudades, eles tinham saudades de Portugal e queriam estar connosco, nós éramos Portugal. E que vontade sentíamos neles e como isso nos ajudou. Deu--nos mais autoestima, incentivo, carinho, eram pessoas ávidas de estar connosco", recorda com alguma emoção Jaime Pacheco, que não tem pejo em relacionar o apoio dos portugueses a residir em solo gaulês com o que se passou em campo, quando poucos esperavam que Portugal chegasse às meias-finais na estreia em Europeus: "Aquele calor português fez-nos perder o receio e a desconfiança em nós próprios. Claro está que era um país inteiro a torcer pela França, mas depois, a seguir, éramos nós os mais apoiados."

"O apoio foi maciço, acredite. Maciço. Mesmo contra a França, a jogar em França, numa cidade como Marselha, os portugueses eram menos, mas não eram uma simples minoria. Aquele convívio com os nossos compatriotas era uma delícia, não se consegue traduzir em palavras. Eram cargas emocionais que nos faziam transcender em campo. Nós nem sentíamos que estávamos no estrangeiro. Talvez seja difícil de compreender para quem não passou por isso", salienta Eurico Gomes, central que foi campeão pelos três grandes mas que esteve nesse Europeu na condição de jogador do FC Porto.

A bica e o "corredor" à Académica

Estamos a falar de uma época sem internet, em que a televisão a cores era uma realidade recente. Outros tempos. De tal maneira que alguns portugueses a trabalhar em França conseguiam fazer aquilo que hoje é completamente impossível.

"Alguns de nós, depois do almoço, tínhamos o hábito de dar uma volta em redor do hotel. O que é que acontecia? Costumávamos ir ao café com eles, tomar a nossa bica e assim conviver mais um pouco", recorda Álvaro.

"No hotel, no treino não havia qualquer distanciamento. Hoje é tudo xpto. Está a ver aquele corredor que os jogadores da Académica formam quando algum jogador se estreia? À entrada e saída do autocarro os "nossos" faziam espontaneamente esse corredor, juntavam-se e gritavam-nos e davam-nos palmadas de incentivo. Estávamos sempre rodeados de emigrantes", sublinha Jaime Pacheco.
Esperança no engenheiro

E agora como vai ser? "Não sei como vai ser, mas hoje em dia os jogadores andam amarrados e escondidos do contacto direto com o público. Quem manda não entende que a empatia com os adeptos faz falta para os jogos", acusa Eurico.

Já Chalana entende que Fernando Santos "pode fazer alguma coisa" para que os futebolistas sintam o apoio dos portugueses que estão em França. "Para os nossos emigrantes, Portugal jogar o Europeu perto deles é muito importante. Eles estão lá a ganhar a vida e vão encher os estádios para estarem mais perto do país deles. Foi isso que sentimos na altura, é isso que agora no fundo ainda se passa", explica o atual treinador das camadas jovens do Benfica.

Jaime Pacheco, técnico campeão nacional pelo Boavista, deposita também as suas esperanças no selecionador nacional: "O Fernando Santos é uma pessoa muito experiente. Ele vai transmitir aos jogadores que o sucesso deles é uma arma para os nossos compatriotas que estão em França a lutar por um presente e futuro melhores. As nossas vitórias serão uma arma para eles se afirmarem junto dos franceses. E, mais importante do que isso, vão sofrer como loucos com o nosso desempenho."
"Não tenho dúvidas de que a Federação vai dar esse privilégio aos emigrantes. Tem de haver treinos abertos, sessões de autógrafos, os jogadores têm de ir às bancadas", sugere Álvaro, que considera que a Federação está a trabalhar "muitíssimo bem".

Já Diamantino pede "estratégia". E estabelece uma comparação temporal: "Há 32 anos a seleção não tinha seguranças, não havia responsáveis pela comunicação, era fácil o contacto próximo com os adeptos. As coisas agora não são assim porque... não são assim. Esse é um aspeto em que deve haver alguma estratégia, porque tem de haver gratidão para quem apoia e espera tanto por aquele momento. Terá de haver carinho recíproco. Sabe... o empenho dos adeptos no apoio à seleção é mais notório no estrangeiro do que em Portugal."

Os cliques e a falta de liderança

A doutrina divide-se. Diamantino, Eurico e Álvaro dizem que os futebolistas que integravam a seleção acreditavam ainda em Portugal que podiam ir longe. Chalana, Gomes e Jaime Pacheco garantem que antes de viajarem para França não tinham ainda a consciência de que podiam ir longe no evento.
Portugal não tinha, como seleção, estatuto para estar no rol de favoritos, mas os feitos recentes de FC Porto e Benfica deixavam no ar a possibilidade de algo de bom surgir. Afinal, o Benfica tinha sido finalista da Taça UEFA com o Anderlecht e o FC Porto da Taça das Taças nesse mesmo ano de 1984, onde viria a cair aos pés da Juventus.

"Nós sentíamos que podíamos surpreender. Tínhamos imensa qualidade. Repare, os nossos pontas-de-lança eram o Jordão, o Gomes e o Nené. O Manuel Fernandes nem foi. Hoje temos um desses quatro?

Depois tínhamos o Chalana, e aí nem preciso de dizer nada", afirma Eurico.
Álvaro vai um pouco mais longe: "Tínhamos jogadores de nível mundial e já com andamento em jogos internacionais de alto gabarito. E ficaram de fora, por esta ou aquela razão, Humberto Coelho, António Oliveira e Manuel Fernandes. Em Palmela [no estágio] percebemos que formávamos uma grande seleção."

Já Fernando Gomes dá uma explicação mais detalhada cronologicamente: "Aquilo era uma situação nova para nós, não tínhamos bem a noção da dimensão do Europeu e recordo-me de que dizíamos uns aos outros que íamos até onde as circunstâncias nos deixassem. Mas houve um primeiro clique no primeiro jogo com a Alemanha em que empatámos, mas todos esperavam por uma derrota de Portugal.

Depois houve ainda o empate com a Espanha, mas o verdadeiro clique, aquele que nos fez perceber que podíamos ir à final, foi no último jogo da fase de grupos com a Roménia. Um jogo em que estávamos obrigados a ganhar e em que não pudemos contar com o Chalana."
"Com a França, naqueles minutos em que estivemos a ganhar e com um pé na final de Paris, sabíamos que se defrontássemos a Espanha na final o título era nosso", descreve Chalana.

Para Jaime Pacheco, o problema de Portugal não ter aguentado a vantagem de 2-1 no prolongamento deveu-se a um fator. "Falta de liderança. Acabámos o jogo com quatro ou cinco avançados. Estavam em campo o Gomes, o Jordão, o Nené, o Chalana e o Frasco com um problema num pé", acusa Jaime Pacheco, que não tem problemas em dizer o que pensa: "Cada um estava a jogar por si.

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