Geração de ouro faz 20 anos

O Mundial de Sub-20 foi a última grande conquista da Selecção no futebol profissional, em 1991. Duas décadas depois, o que é feito dos campeões? Histórias e memórias secretas de ilustres e... desconhecidos.

Dia 30 de Junho de 1991. À entrada da antiga «catedral» da Luz, em Lisboa, apinhada de fiéis da bola para assistirem à eterna final frente ao Brasil, podia ler-se, garbosamente, em latim: E Pluribus Unum - de muitos, um. Nada mais elucidativo para uma «família» em que a união em torno de um objectivo comum redundaria naquela que seria a derradeira grande proeza do futebol lusitano a nível de selecções. Uma prova à escala mundial com epicentro em Lisboa. A «geração de ouro» ou os «putos-maravilha» continuam a figurar em escaparates luminosos e a provocar suspiros saudosistas. A NS' esteve com os intervenientes para perceber por que um grupo com aquela costura dificilmente se descosia. O futuro não trouxe, para todos, o esplendor que se vaticinava dentro das quatro linhas. Figo, Rui Costa, Jorge Costa, João Vieira Pinto ou Abel Xavier mantêm-se no imaginário colectivo mas houve, porém, quem mergulhasse no esquecimento global.

Carreira na construção civil

Quatro da manhã. O timbre indesejado do despertador espanta-lhe o sono naquela noite invernosa. Como em tantas outras, os termómetros, inclementes, soçobram aos dois dígitos negativos. No distante Luxemburgo, Toni tem de se levantar para, uma hora depois, pegar ao serviço. A dureza da construção civil embarga-lhe os movimentos, sem, contudo, lhe tolher a capacidade realista de «ter de criar três filhos».

O título «geração de ouro» aqui não conforta. «A vida reserva percursos diferentes para cada um e este foi-me entregue», assume, sem mágoas, o atleta nascido na Guiné-Bissau. Para atenuar as agruras de um quotidiano áspero, a recordação daquele Mundial surge como bálsamo. «Lembro-me como se tivesse sido ontem. Era uma equipa que actuava em família, irmãos da mesma idade. Foi o melhor momento da minha vida. A amizade e o carinho são o nosso bem mais precioso e guardo-os no coração. Viemos sem nada ao mundo e vamos partir de mãos vazias; por isso mantenho esses valores numa existência que não me é nada suave.»

E, de facto, Toni tem de ir à bruxa. «Os meus antigos colegas encontraram-se, há tempos, na Cova da Piedade, mas não pude ir. Naquela altura, além de não ter dinheiro para a viagem, perdi os meus pais e, pouco depois, o meu irmão, todos na Guiné. Um choque e uma perda irreparáveis.» Toni não ficou privado, contudo, da família do futebol. «Desta vez vou mesmo a Portugal, para comemorar os 20 anos do Mundial. O Gil enviou-me as passagens», confidenciou à NS', numa altura em que o encontro ainda não se tinha realizado (ocorreu quarta feira passada, a 22 de Junho).

A Argentina, habitual algoz dos lusitanos, foi presa fácil naquele certame. Três tiros sem resposta, o último dos quais apontado, de cabeça, pelo atacante Toni. Um lance que Luís Miguel recorda com incontida emoção. «Choro sempre que falo desse jogo com o Toni, pelo Facebook. Jogámos quatro anos no FC Porto e ele afirmava que ninguém centrava como eu. Contra a Argentina, entrei aos 82 minutos e, passados quatro minutos, lá se confirmou a regra: cruzei para o golo do meu amigo.» Episódios que atestam a forte relação entre os «putos-maravilha». «Aquele ambiente era, para nós, a melhor coisa do Mundo. Morríamos em campo pelo colega do lado e contra isso ninguém poderia fazer frente», diz Luís Miguel.

A ligação a Toni nota-se, também, pelo seu percurso tortuoso. «Tinha uma fractura no pé esquerdo e como ninguém sabia disso, agravei-a no Mundial. Depois, a minha carreira fez marcha-atrás e nunca mais voltou à normalidade. Não quiseram saber de mim», recorda, com dor de alma, o antigo campeão mundial de Sub-20 e treinador das camadas jovens do Arrifanense, que hoje vive do subsídio de desemprego. «Aquela Selecção é de extremos: tem os famosos e os esquecidos, como eu. Foi o destino.» Apesar de nem todos terem preservado a carreira ao mais alto nível, «a camaradagem manteve-se intacta». Luís Miguel prossegue: «Nas folgas, lembro-me que o pessoal do Norte nem ia a casa. Eu e o Jorge Costa, por exemplo, ficávamos quase sempre em Lisboa com os nossos colegas, entretidos em actividades. Certo dia participámos numa sardinhada no castelo de São Jorge, organizada pelo João Oliveira Pinto», recorda, com melancolia.

Os «minhocas»

Quem não abdicava dos momentos de descontracção era Carlos Alberto Fortes, ou Cau, no mundo da bola, outro dos africanos do grupo, a par de Toni, Gil e Brassard. Nascido em Cabo Verde, onde espera «regressar o mais breve possível», vai treinando os miúdos do Oeiras.

Cau rebobina a cassete para recordar a sua infância. «Eu só queria jogar à bola num relvado. Em Cabo Verde, no meu tempo, só havia campos esburacados. E de tanto sonhar com um futuro melhor, tornei-me campeão mundial por Portugal, num estádio cheio como nunca e num relvado muito verdinho...», relata, entre sorrisos contagiantes.

O trio Cau, Gil e Toni festejou o título, noite dentro, nas discotecas africanas. Tudo à borla. «Naquela noite não pagámos o táxi nem a entrada nas discotecas. E andei sem documentos durante semanas porque todos me conheciam. Quando regressei a Cabo Verde fui recebido como um rei. Inesquecível...»

Tal como Cau, Gil também fazia parte da equipa das... «minhocas». Este angolano é, talvez, o elemento mais dinamizador do grupo. Foi ele quem organizou a futebolada evocativa dos 20 anos sobre o grande feito. No Benfica vaticinavam-lhe um futuro promissor, mas acabou por jogar nos escalões secundários de outros países. Hoje, o «minhoca» é empresário de jogadores.

E porquê essa alcunha? «Aquele grupo era formidável, mas havia regras a cumprir sem protestar. As minhocas, ou seja, os mais novos do grupo, tinham lugares marcados à mesa e, até, no autocarro. E ai daquele que não respeitasse as instruções... Certa ocasião, o Capucho, que entrou mais tarde na Selecção, sentou-se no lugar de uma "cobra" e a coisa ia dando para o torto», recorda, divertido. «As cobras eram o João Pinto, o Rui Costa, o Jorge Costa, o Brassard, o Figo, enfim, os mais velhos. Mas o nome cobra assentava-lhes que nem uma luva...», diz, provocador.

Nomes iguais, percursos diferentes

João Manuel Oliveira Pinto e João Manuel Vieira Pinto. Já descobriu onde está a diferença? Um é Oliveira, o outro Vieira. Um começou no Sporting e foi desaparecendo até se lhe apagar o rasto no humilde Alfarim, dos distritais de Setúbal. O outro, o «fintas», surgiu no Boavista para explodir, depois, nos dois grandes emblemas da capital. Apesar de percursos bem distintos, há 20 anos as diferenças eram pouco perceptíveis.

Hoje, longe das lides desportivas, João Oliveira Pinto é mediador imobiliário mas a memória devolve-o às quatro linhas. «Queríamos muito singrar no futebol, mas sem olhar para o umbigo nem tempo para birras ou vedetismos bacocos. E conseguimos. Passaram-se 20 anos e ainda hoje se fala na loucura que foi aquele Mundial, só se encontrando paralelo no Euro'2004. Naquele tempo não eram as bandeiras que estavam à janela, mas sim pessoas eufóricas. Até um helicóptero acompanhou o nosso percurso. Que tempos...», desabafa. Vencido o bicampeonato mundial (Portugal tinha ganho igualmente a edição anterior, disputada em 1989, na Arábia Saudita), seguiram-se os copos. «Divertimo-nos na discoteca da moda, o Kremlin, em Lisboa. Foi festejar até às quinhentas», confirma.

O agora comentador televisivo João Vieira Pinto também alinhou em fandangos, mas só nos que se seguiram ao apito final. Apesar da tenra idade, era o único casado da equipa. «Por essa razão não pude viajar para Ibiza com mais nove colegas. É uma espinha que ainda me está atravessada», brinca, para descrever, ainda, o espírito reinante no balneário. «Começámos cedo a viajar e a trabalhar juntos. Num ano, passava tanto tempo em estágio como a estudar ou no clube. Brincávamos muito, porque, naquela altura, ainda não havia telemóveis e muito menos internet ou Facebook. Era uma espécie de segunda infância: tínhamos de ser criativos para ocupar o tempo e isso aproximou-nos.»

Por capricho do futebol, João Vieira Pinto conviveu, no Benfica, com um dos brasileiros derrotados. «Partilhei o balneário com o Paulo Nunes durante uma época (1997/98) e aproveitava para lhe dar umas bicadas sobre a nossa festa; de tal modo louca que perdi os sapatos e nem me lembro do que calcei para a cerimónia de entrega dos prémios...»

O último moicano na baliza

Tal como João Vieira Pinto, Brassard também acumula o título de bicampeão mundial, por, dois anos antes, ter erguido o ceptro em Riade, na Arábia Saudita. O guarda-redes foi, em Lisboa, um dos grandes obreiros do feito luso ao defender o penálti decisivo.

«Foi um momento indescritível. Para mim, então, foi a cereja no topo do bolo: venci o Mundial no meu estádio e na sua maior enchente de sempre, frente ao rival Brasil. E, ainda por cima, defendi a penalidade decisiva do Marquinhos. Que mais poderia ambicionar?», questionou, com propriedade, o actual treinador dos guarda-redes da Selecção Nacional de Sub-21. O atleta nascido em Moçambique descreve, ainda, como era o ambiente de balneário. «Começámos o trajecto logo nos Sub-16 e isso cimentou o nosso companheirismo. Até as folgas passávamos juntos, porque o pessoal do Porto ficava connosco em Lisboa.»

Brassard deu a carreira por terminada há precisamente dez temporadas, algo que o seu rival de então por um lugar na baliza ainda não fez. De entre os 18 heróis nacionais, apenas um permanece em actividade. Tó Ferreira, a dois meses de chegar aos 40 anos, defende, orgulhosamente, as redes do Boavista. «Continuo a jogar pela paixão que tenho pelo futebol e, enquanto me sentir capaz, vou estar activo. Com esta idade tenho de pensar ano a ano, porque a constituição física é diferente, o risco de sofrer lesões é maior. Estive recentemente com o Rui Costa e o Jorge Jesus que me encorajaram: "Se te sentes bem, não deixes de jogar." Podem estar descansados!»

Tó Ferreira, que se esforça por ser «um bom exemplo para as gerações mais novas», até porque muitos dos seus colegas «nem sequer eram nascidos quando Portugal ganhou o Mundial», puxa pela memória para partilhar o que sentiu em 1991. «Uma hora e um quarto antes do jogo, eu e o Jorge Costa fomos ao túnel da Luz espreitar o ambiente e arrepiámo-nos ao ver o estádio lotado. Ainda tenho tudo gravado numa cassete VHS», lembra.

«Contávamos anedotas, jogávamos às cartas e até fumávamos às escondidas dos treinadores. Outros tempos.» O seleccionador Carlos Queiroz é que não achava brincadeira às baforadas. «Levava cada raspanete... Lá deixava o cigarrito, mas só até regressar aos trabalhos no meu clube», acrescenta, em tom jocoso.

Vítima do «pé-canhão»

Roberto Carlos, o famoso «pé-canhão», foi, além de Paulo Nunes, outro dos brasileiros vergados ao desaire. O veterano lateral-esquerdo, que, tal como Tó Ferreira, também permanece em actividade - joga no Anzhi, da Rússia -, aproveita para mandar, através da NS', um pedido de desculpas a Nélson. Eis a razão: «Acertei-lhe logo no início do jogo, mas foi sem maldade e sinto muito que ele ficasse "machucado" e perdesse a final, que foi de alegria para os portugueses e de tristeza, para nós, brasileiros», recorda.

A verdade é que o lateral-direito terá sido o português mais desventurado daquela partida. «Prefiro nem me lembrar... Ainda não havia 10 minutos jogados e o Roberto Carlos atingiu-me em cheio, com tamanha violência que só parei fora do campo.» Resultado: «Fui para o balneário e por lá fiquei durante duas horas, sozinho. Nem uma televisão havia para assistir ao que se passava no relvado. No final, quando soube do desfecho, festejei loucamente, mas... ao pé-coxinho. Fui ao palanque descalço, porque o meu pé parecia a bola do jogo.»

Apesar de ser outro dos retirados dos olhares do grande público, Nélson mantém-se ligado ao futebol jovem através de uma academia de futebol chamada Superball. Tal como há 20 anos, continua a considerar-se uma pessoa tranquila. «Era um dos mais recatados do grupo. De tal forma que o pessoal combinou uma viagem a Ibiza para festejar a conquista do Mundial, mas eu não fui. Preferi ficar em casa e matar saudades da família.» Não foi, sequer, às discotecas após o jogo da Luz. «Não fui a lado nenhum. Fiquei a fazer gelo e a cuidar da minha lesão. Eu gostava muito daquele ambiente, mas era da minha natureza ficar no meu cantinho», admite.

Ibiza e Caracas

Aquela espécie de hino à ilha espanhola das Baleares I want to live in Ibiza [«Quero viver em Ibiza»] - letra que, de tão repetitiva, entra até nos ouvidos mais incautos -, bem podia ter sido entoada pelo famoso grupo dos nove. Abel Xavier foi um dos convivas, mas o que por lá se passou, lá ficou. «Inicialmente, íamos quatro para Ibiza, mas depois juntaram-se mais cinco e lá fomos os nove para a farra.» Um convívio que certifica «a forte amizade vigente no grupo». «Infelizmente, cada um teve de seguir as suas carreiras, a sua vida pessoal e familiar mas, naqueles tempos de teenagers, a nossa família era a selecção, onde passámos parte das nossas vidas», prosseguiu a agora estrela de Hollywood.

O grupo seleccionável estava praticamente fechado quatro anos antes. Abel Xavier foi dos primeiros a ser chamado. «De facto já pertencia, inclusive, à Selecção de Lisboa, que antecedia os Sub-16. Contudo, devo salientar o companheirismo fora do normal: ali não entrava clubite. A nossa equipa era a selecção nacional e aí outros valores se levantavam. A lealdade e o facto de sermos bem conduzidos pela equipa técnica, chefiada por Carlos Queiroz e Nelo Vingada, estiveram na base de um feito tão marcante.»

Questionado sobre as emoções vividas na final, Abel Xavier foi taxativo: «Se me lembro? É impossível esquecer. Estava um ambiente fantástico no antigo estádio da Luz. Penso que se o recinto de jogo comportasse 200 mil pessoas estaria igualmente lotado. Ao entusiasmo inicial seguiram-se os festejos, não por uma noite mas por várias semanas. Julgo que a nossa geração foi a que mais empatia criou junto do povo português.»

Tal como João Vieira Pinto, Tulipa também não embarcou para Ibiza por ser «meio» casado. «Não pude ir para a farra porque nessa altura namorava com uma venezuelana - com quem viria a casar -, e tinha viagem marcada para Caracas, na Venezuela, para conhecer os meus futuros sogros.»

Para o actual treinador, o título mundial «provocou uma reviravolta no futebol português». «É verdade que dois anos antes Portugal se sagrara campeão mundial em Riade, mas o facto de a nossa conquista ter sido em Lisboa obrigou as altas esferas do futebol a olharem-nos de outra maneira. Mostrámos que o futebol de formação e os jogadores portugueses tinham muita qualidade e deveriam ter acesso às equipas seniores.»

Tulipa recorda que, naqueles tempos, todos remavam no mesmo sentido. «Havia uma disponibilidade e entreajuda muito grandes e aqueles que não tinham tanta capacidade técnica não se importavam de fazer aquilo a que chamamos de jogo sujo, de desgaste. Hoje isso não acontece, não existe sequer», explica o agora treinador, que esta época salvou o Covilhã da descida à II Divisão Nacional.

Nazaré dos Meus Amores

Os vários sucessos desta Selecção, ao longo de quatro anos, com epílogo em Lisboa, tiveram sempre o acompanhamento do som da guitarra. Catoja, o fisioterapeuta da Federação, era o responsável pelos acordes, impulsionando... Emílio Peixe. «O ritmo da marcha Nazaré dos Meus Amores era uma espécie de hino, que ensinei ao pessoal, mas o hino oficial da equipa chegou mais tarde, devidamente gravado em estúdio.» Peixe também dava uns acordes. «Passava muito tempo a tocar viola, apenas a escutar os sons porque, de facto, não sabia tocar. Como era filho único e o meu pai passava largas temporadas no mar, a pescar, acabava por ter saudades dele e da minha mãe. Não gostava de estar tanto tempo longe de casa. Daí o cantar as músicas da minha terra, para os sentir mais perto. Era o chorão do grupo. Aliás, até chorava sempre que tocava o hino», reconhece. Emílio Peixe só não ficou muito triste quando integrou o famoso «grupo dos nove» que foi para Ibiza. «Lembro-me de dizer ao Nélson, que estava lesionado, para ir também. Porque eu iria nem que estivesse magoado nas duas pernas...»

Peixe logrou uma carreira auspiciosa e hoje integra os quadros técnicos da Selecção Nacional, com obrigações nos Sub-16, precisamente o escalão onde se iniciou na Selecção. Mas aquele que foi galardoado como o Melhor Jogador do Mundial de 1991 não se esquece dos que não tiveram igual fortuna. E lança um repto: «Que alguma entidade do futebol ou patrocinador possa ajudar a reunir alguns dos atletas que passam por dificuldades. O futebol deveria favorecer quem precisa e quem muito deu à modalidade.» Fica o recado.

O último a chegar

Num grupo semifechado, Capucho vislumbrou uma nesga. «Fui dos últimos a entrar no grupo, talvez por jogar no Gil Vicente e não ter a mesma projecção dos meus ex-colegas. Consegui encontrar o meu espaço naquele grupo e tive, inclusive, a felicidade de jogar a final do Mundial, a lateral-direito, depois de o Roberto Carlos ter lesionado o pobre do Nélson.»

Passadas duas décadas, Capucho mantém o contacto com grande parte dos antigos colegas. «O facto de muitos de nós continuarmos ligados ao futebol facilita a comunicação e a proximidade», esclarece. «Éramos uma equipa na verdadeira acepção da palavra. Unida, disponível e sempre pronta a ajudar o colega mais próximo. Tínhamos o prazer de jogar futebol e não estávamos obcecados pela conquista, apesar disso vir por acréscimo e reflectir o nosso valor.»

Agora a treinar os escalões jovens do FC Porto, Capucho analisa o actual estado da modalidade. «Que estes vinte anos sirvam para se reflectir sobre o futuro do futebol português, tão necessitado de atletas para várias posições de campo. Veja-se só a necessidade de naturalizar alguns brasileiros, o que nunca acontecera antes.»

Na realidade, Portugal não produziu outra «Geração de Ouro» que lhe proporcionasse novo título internacional desta envergadura. É que uma união invulgar como a de 1991 não parece compatível com o futebol moderno. Rui Bento concorda. «O grupo formou-se uns quatro/cinco anos antes e como passávamos largas temporadas em estágio, a união fortaleceu-se. Sabíamos as manias e virtudes de cada um e agíamos em conformidade, tendo-se criado laços de amizade eternos», salienta o actual treinador do Beira-Mar, um dos primeiros a entrar no grupo.

Toda a verdade sobre o hino

No balneário, a unanimidade é geral: José Manuel Catoja, ou simplesmente Catoja para os íntimos, era a figura do plantel. Primeiro, porque era ele quem dominava a arte e a ciência dos cuidados físicos e da reabilitação, depois porque também animava a malta com a sua contagiante boa disposição, acompanhada pelo dedilhar na inseparável viola. E foram os seus sons que estiveram na base de um tema que permanece no imaginário colectivo dos atletas. Mas há segredos por detrás do hino, desvendados à NS' duas décadas passadas.

«Criámos um hino, da minha autoria, que se chamava Todos Somos Portugal, gravado no então famosíssimo estúdio Tchatchatcha, fundado pelo músico e meu amigo Ramón Galarza. Para aqueles miúdos entrarem num estúdio a sério, por onde passavam cantores como Adelaide Ferreira, Tozé Brito ou os Xutos & Pontapés, era uma experiência indescritível.»

Catoja preparou a letra noites a fio e durante seis meses os atletas ensaiaram a cançoneta. No entanto, ao contrário do que se julga, a maior parte das vozes dos atletas não foi gravada. «De facto, eles tinham jeito para jogar à bola, mas não para cantar», sorriu, para reconhecer alguns (poucos) bons cantores: «O grupo encabeçado por Abel Xavier ainda tinha algum valor e aproveitou-se para o hino mas os outros desafinavam em excesso. Até o médico Camacho Vieira, conhecido por cantar o fado de Coimbra, pensa que a sua voz também foi gravada. Nada disso...»

Jogadores «muito especiais»

Catoja, a par de João Vieira Pinto e Fernando Brassard, é outro dos bicampeões mundiais. O fisioterapeuta alia o seu espírito criativo a uma memória invejável. «Gostava muito daquela rapaziada. O Peixe, por exemplo, era um miúdo especial. O facto de ser filho de um pescador da Nazaré tornava-o muito ansioso e fechado, com muitas saudades de casa. Depois, era um mariquinhas de marca maior. Lembro-me que fomos dois anos seguidos a Israel, nos Sub-16 e nos Sub-18, e ele podia jogar nas duas selecções, apesar daquela enorme barba escura que provocava desconfiança nos elementos da UEFA quanto à sua idade real. Mas o Peixe, por se sentir tão distante de casa, arranjou maneira de estar sempre doente e passar o torneio no meu quarto, sempre perto de mim, qual filho adoptivo», brinca.

Mas há mais: «O Nélson era o rei das doenças. No jogo da final tinha, de facto, o peito do pé inchado, mas foi ele quem nos pediu para sair. Por mim e pelo dr. Camacho ele continuava em campo. Mas qual quê? Insistiu que não dava para prosseguir e falhou um jogo que ninguém queria perder. Foi para o balneário e por lá ficou a rezar e a chorar», lembra, para justificar tais comportamentos.

«Hoje em dia, os miúdos chegam a juniores preparados para enfrentar tudo e todos. Naquele tempo eram algo imaturos.» Até porque, recorda, após o apito final, «lá estava Nélson a festejar: foi o primeiro a sair aos gritos do balneário. Se virem bem, ele aparece em todas as fotos... Depois dos jantares oficiais e de comemoração, fui saber do Nélson para o tratar. Já não estava, andava na farra!»

Craques internacionais

Luís Figo é o expoente máximo daquela geração. É o recordista de internacionalizações A por Portugal, com 127 jogos, venceu o Ballon d'Or em 2000 e foi o Melhor Jogador do Mundo pela FIFA em 2001. Embaixador da UNICEF, Figo é um dos poucos futebolistas a ter jogado pelos dois rivais espanhóis, Barcelona e Real Madrid. Ganhou diversos campeonatos e troféus. O seu último jogo foi a 31 de Maio de 2009, frente ao italiano Atalanta, no estádio de San Siro, em Milão.

Na peugada de Figo, Rui Costa também brilhou além-fronteiras, incluindo em Itália. Apesar de não deter um currículo tão dourado, o futebol do agora director desportivo do «seu» Benfica era endeusado pelos adeptos mais fervorosos. Em 2004 fez o seu último jogo pela selecção portuguesa, na final do Euro 2004, no Estádio da Luz, frente à Grécia. Recorde-se que Rui Costa, em 1991, marcou a grande penalidade que permitiu a Portugal festejar o bicampeonato mundial de Sub-20.

Outro dos craques daquela geração é Jorge Costa. O agora treinador do Cluj, da Roménia, que fez grande parte da sua carreira no FC Porto, era conhecido como o «bicho» pelos seus colegas e adeptos e como o «tanque» em Inglaterra. Liderou a equipa de José Mourinho que conquistou a Taça UEFA (2003) e a Liga dos Campeões (2004) pelos dragões e era considerado um elemento vital, dentro e fora do campo.

A fechar o grupo dos 18, Paulo Torres, o lateral-esquerdo que se sagrou melhor marcador português do Mundial, com três golos. Depois, eclipsou-se no Sporting e passou por clubes de menor dimensão. Agora promove o futebol jovem na Guiné-Bissau.

Fabricantes de campeões

Carlos Queiroz e Nelo Vingada puseram, literalmente, Portugal no mapa do futebol mundial ao serem os responsáveis directos pelas duas gerações que venceram o certame em 1989 e 1991. Carlos Queiroz, actual seleccionador do Irão, nasceu em Moçambique, onde jogou futebol nos juniores do Clube Ferroviário de Nampula e chegou a estudar Engenharia Mecânica, na Universidade de Lourenço Marques, até 1974. Apostou forte na formação dos jovens jogadores que tinha a seu cargo e foi determinante no aparecimento de craques como Luís Figo, Rui Costa, Vítor Baía, Paulo Sousa, Abel Xavier, Fernando Couto ou João Vieira Pinto.

Nelo Vingada, o seu adjunto de sempre e que tem, a solo, conseguido êxitos retumbantes, principalmente no Médio e Extremo Oriente, contou à NS' o segredo do sucesso. «Vivíamos quase como uma família de sangue devido não só ao muito tempo que passávamos juntos mas também à forma como o fazíamos. Foi importante termos passado aos atletas os bons valores, quer ao nível técnico, físico e mental. E tudo isso aliado à qualidade individual tornou o colectivo muito forte.»

O facto de o campeonato de 1991 se realizar em casa ajudou sobremaneira. «O chamado 12º jogador funcionou lindamente. O povo estava todo connosco e apesar de serem miúdos normais, aprenderam a respeitar, a serem rigorosos, disciplinados.» Além destas premissas, a chave do êxito, segundo Nelo Vingada, residia na empatia. «Na Coreia do Sul, de onde cheguei agora, voltei a sentir tudo isso: a empatia entre os atletas e a equipa técnica era fenomenal e quando há qualidade individual a glória afigura-se mais fácil de concretizar.»

Fora do campo, a estima mantinha-se. «Encarávamos os atletas como nossos filhos. Eu e o Queiroz éramos de uma geração mais velha, ainda assim percebíamos os problemas, anseios, as dúvidas próprias da idade. Por isso até íamos com eles para as discotecas, quando o momento o justificava», recorda, com nostalgia. «Em comparação, a vitória em Lisboa foi muito mais fácil do que na Arábia Saudita, dois anos antes. Aqui estávamos em casa e naquele país árabe só dava para ligar para casa de dois em dois dias, através de uma cabina telefónica. Outros tempos que ficam, marcam e não se esquecem...»

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