A bizarria de ter quatro técnicos e jogadores que mal se falavam

Só Jorge Martins, Vítor Damas e Jordão fugiam ao choque de dois grandes blocos: oito jogadores do Benfica e nove do FC Porto. Quatro treinadores geriam quotas e sensibilidades

Fernando Cabrita, já falecido, tinha o estatuto de treinador principal, mas a seleção tinha mais três treinadores para unir as sensibilidades dos dois blocos dominantes, formado por oito jogadores do Benfica e nove do FC Porto. Sobravam três, um de cada clube: Jorge Martins (V. Setúbal), Vítor Damas (Portimonense) e Rui Jordão (Sporting).

O ambiente, garantem os jogadores com quem o DN falou, não era de cortar à faca, mas estava longe de ser bom. "Nós não tínhamos um espírito de grupo muito bom. Dentro do campo éramos como uma família, mas cá fora os do Benfica falavam e conviviam com os do Benfica e os do FC Porto com os do FC Porto. Nas refeições os do Benfica comiam com os do Benfica e os do FC Porto com os do FC Porto. Era assim, o ambiente não era de uma equipa de futebol e nem com os resultados melhorou. Não quer dizer que não tivéssemos uma ou outra conversa, mas o ambiente não era muito saudável e nós jogadores nem tínhamos grande culpa, fomos apanhados no meio", pormenoriza Diamantino, que qualifica de "bizarria à portuguesa" o facto de ter quatro treinadores.

"Na altura havia o lado do Benfica e o lado do FC Porto. Não havia patriotismo, havia clubismo e isso dividia muito a equipa. Deixávamo-nos envolver com o que acontecia, mas quando íamos para o jogo, independentemente das fricções e da instabilidade antes dos jogos, acabavam as rivalidades e só havia uma equipa. Havia quatro treinadores e cada um puxava para cada lado", revela Jaime Pacheco.
Álvaro Magalhães lembra-se de ver os "treinadores confusos, cada um com as suas ideias".

"Fernando Cabrita era o chefe da equipa técnica, mas quem tinha preponderância com o que se passava com a equipa eram o Toni e o António Morais e José Augusto. Nunca assisti a nenhuma reunião entre eles, mas se tinha que jogar um daqui, outro tinha que jogar de acolá", relata Diamantino sobre as quotas de Benfica e FC Porto, que tinham de ser o mais equilibradas possível.
Eurico tem uma visão mais abrangente. "Saltillo começou dois anos antes, em Palmela, no estágio antes do Europeu, nas reuniões que mantivemos com os responsáveis da Federação. Reuniões que davam guerra para conseguirmos aquilo que julgávamos ser prémios de jogo justos e outras questões", afiança Eurico.

Álvaro mostra alguma relutância em falar sobre o assunto, mas sempre garante que houve pessoas que "colocaram os seus interesses pessoais" à frente da seleção.
Curiosamente, no Mundial do México, em 1986, as relações entre os jogadores já eram bem melhores, segundo Diamantino, que ainda defende uma tese da autoria do atual capitão da seleção: "No México o ambiente já era muito melhor. Já éramos uma grande família dentro e fora do campo e os resultados foram o que foram, muito piores do que no Europeu. Isto só prova que o Cristiano Ronaldo tem razão. É uma falácia essa conversa de que é preciso os jogadores andarem aos beijinhos e abraços fora do campo para jogarem bem em conjunto."

Números esquisitos
Uma das consequências do mal-estar entre os jogadores prendeu-se com a numeração utilizada em terras francesas. As camisolas foram atribuídas por sorteio e depois deu-se a casualidade de ver um lateral direito (João Pinto) com o 9, um central (Eurico) com o 11, Chalana com o 4, Nené com o 2 e Jordão com o 3.

Fernando Gomes recebeu o 6, mas esteve quase a receber de volta o algarismo que o celebrizou (9): "Foi feito o sorteio e foi o que me calhou. Olhe, e a verdade é que até houve ali uns momentos no Europeu, principalmente com a Roménia, em que quase joguei a 6, como médio. Na verdade era mais a 8. Mas lembro-me de que ao João Pinto calhou em sorte o 9 e ele deixou-me à vontade para trocarmos, pois o 9 era o meu número de sempre. Mas eu não quis. Fez-se o sorteio porque havia números desejados por mais do que um jogador. No México já não houve essa questão, cada um escolheu o seu."

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