E depois dos Jogos? Cinco ex-atletas contam como se realizaram fora do desporto

Albertina Machado

A transição para o mundo real nem sempre é fácil para os atletas que acabam a carreira desportiva e têm de começar outra profissão. Cinco ex-olímpicos partilham com o DN as suas histórias de sucesso

Alguns terminaram a carreira de desportista de alta competição muito cedo, outros prolongaram-na até ao limite, mas os cinco antigos atletas olímpicos contactados pelo DN percorreram caminhos que lhes permitiram assegurar independência financeira e felicidade pessoal.

A atual profissão nada tem que ver com a modalidade em que elevaram bem alto o nome do país, mas, provando que o gosto permanece, alguns ainda praticam o desporto pelo qual ficaram conhecidos. Conheça as histórias de Orlando Ferreira, Albertina Machado, Sandra Neves, Catarina Fagundes e Silvestre Pereira.

Orlando Ferreira

Um ex-judoca na Rodoviária do Tejo

› O antigo judoca Orlando Ferreira esteve nos fatídicos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, que ficaram marcados pelo atentado que vitimou onze atletas israelitas, cometido pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro. Na altura, tinha apenas 19 anos e ficou em 19.º lugar, entre 35 participantes. Ao mesmo tempo que era atleta, estudava Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico. Mas no 4.º ano da faculdade viu-se forçado a optar pelo judo ou pelo curso. "Escolhi a via académica e, concluída a formação, ingressei na Direção dos Transportes Fiscais dos Correios", recorda. A experiência não estava a ser totalmente do seu agrado e, quando viu que a Rodoviária Nacional estava a admitir jovens engenheiros, não hesitou e concorreu, tendo sido colocado. Para compensar o salário baixo, dava explicações de Física e Matemática. O ensino, de resto, continua a ser uma das suas grandes paixões. "Dou aulas há 30 anos no ISCSP [Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas]. Já lecionei Matemática, Ciências Sociais, Estatística e agora dou aulas no mestrado. Mas o meu trabalho principal, que adoro, é de administrador na Rodoviária do Tejo. Tenho a felicidade de ter um patrão espetacular!", atira.

O judo, no entanto, continuou sempre presente na sua vida, pois durante muitos anos deu aulas da modalidade no Ginásio Clube Português e em 1977 criou a Associação Distrital de Judo de Lisboa. Sempre que possível, Orlando utiliza a empresa de que é administrador em benefício do judo, pondo transporte à disposição dos atletas em alguns torneios realizados em Portugal. E do que gosta mesmo, confessa, é "ir para a bancada escondido" assistir aos torneios da sua modalidade de eleição e ficar por lá sossegado, sem que ninguém o reconheça.

Apesar dos seus 62 anos, quando as saudades apertam muito, veste o judogi e vai para o tatâmi praticar com amigos. "Arrependo-me sempre, pois tenho uma hérnia nas costas e depois sofro horrores... Tenho de ter mais calma e fazer como se estivesse numa aula de descanso", reconhece.

Albertina Machado

Das corridas de fundo para as joias

› Albertina Machado foi um dos grandes nomes do atletismo português nas décadas de 1980 e 1990, tendo participado nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, nos 800 e nos 3000 metros, em Seul"88, nos (10 000 metros, e em Atlanta"96, na maratona. Só deixou de correr aos 38 anos.

Apesar de ser atleta de alta competição, manteve sempre o seu emprego na Câmara Municipal de Braga, onde beneficiava da compreensão do presidente da edilidade na altura, Mesquita Machado, que a dispensava do trabalho todas as manhãs para que pudesse treinar. Na parte final da carreira decidiu abrir uma ourivesaria, em conjunto com o marido, à qual deu precisamente o nome de Albertina Machado Ourivesaria e que funciona no Braga Shopping. "Tenho o negócio há 19 anos. Foi algo muito ponderado, a pensar no meu futuro depois do atletismo", refere. Confessa que o negócio "já teve dias melhores e agora vai indo, pois as pessoas têm medo de andar com ouro na rua".

Atualmente, e em simultâneo com a ourivesaria, mantém o seu cargo na Câmara Municipal de Braga. "Sou técnica de desporto, neste momento direcionada para atividades com a população sénior. Fazemos corridas, caminhadas e ginástica", explica, acrescentando que não se limita a ficar à espera que venham ter consigo e que se desloca aos mais variados locais para motivar as pessoas a praticarem exercício físico.

Albertina, hoje com 54 anos, acha que foi muito feliz na forma como geriu o seu final de carreira no atletismo. "Tenho a reforma garantida, por via da minha profissão de funcionária pública na Câmara de Braga. Por outro lado, fiz uma boa aposta na ourivesaria. Vejo o exemplo de algumas antigas atletas do meu tempo que só viviam do atletismo e que agora passam por muitas dificuldades", lamenta.

Albertina Machada foi tão cautelosa que, em 1987, declinou uma proposta do Benfica que, em condições normais, seria irrecusável. "O contrato era muito bom, mas preferi continuar no Sporting de Braga, para prosseguir com o meu trabalho na câmara. Ainda bem que decidi dessa forma", reconhece.

Sandra Neves

Assessora financeira nadou em Seul

› Sandra Neves participou nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, tendo competido nos 100 e nos 200 metros em mariposa, terminando em 33.º e 18.º lugar respetivamente. Atualmente, é assessora financeira no BPI, instituição onde trabalha há 20 anos. O final da carreira de nadadora ao serviço do Benfica foi bastante prematuro. "Infelizmente deixei a competição com 21 anos, porque não estava motivada. Não me acompanharam devidamente e deixei de competir", lembra.

Na altura, continuou no Benfica, como monitora, e não demorou muito até tirar o curso de treinadora de segundo grau.

Entre 1992 e 1996 orientou vários escalões etários no Clube de Natação da Amadora. Teve ainda uma passagem como monitora no Belenenses.

Curiosamente, a sua atual profissão nada tem que ver com o curso que frequentou na faculdade. "Entrei em Veterinária, mas ao fim de dois anos e meio desisti. Entretanto, a minha mãe trabalhava na área financeira e teve a oportunidade de me inscrever em part-time no BPI, na altura chamado Banco de Fomento e Exterior. Fui fazendo formações e progredindo na carreira até ao meu atual cargo", conta.

Sandra confessa que não mais esquecerá a presença em Seul, em 1988. "Houve três grandes momentos na minha vida: ter sido mãe, o meu casamento e a participação nos Jogos Olímpicos. Posso dizer que não há uma única cerimónia de abertura dos Jogos em que eu não chore", diz. E aproveita para lamentar que a sua experiência olímpica não seja aproveitada em Portugal. "Em Espanha, os atletas olímpicos são convocados para falar em escolas... Tenho pena que aqui não nos usem como exemplos para passar uma boa mensagem a esta juventude um pouco perdida", defende.

Hoje, Sandra Neves faz parte de um grupo de masters e triatlo de São João do Estoril. "Treino duas ou três vezes por semana com desportistas que fazem triatlo e ironman", revela, reagindo com surpresa quando lhe perguntamos se aguenta o ritmo. "Claro que sim, sem problema, eles é que às vezes não aguentam!", garante.

Catarina Fagundes

Vela desiludiu a observadora de aves

› Catarina Fagundes foi 21.ª classificada nos Jogos Olímpicos de Atlanta"96, na classe mistral. Na altura, tinha apenas 18 anos e pensava que iria ter longos anos pela frente na modalidade, mas não foi isso que sucedeu. "Achava que a Federação Portuguesa de Vela iria apostar em mim e no ano seguinte aos Jogos preparei-me para ir ao Europeu, mas à última hora não me levaram. Tinha 19 anos e estava a ser sustentada pelos meus pais, que me pagavam os estudos. Achei que chegava de ter falsas ilusões na vela e decidi dedicar-me a 100% à faculdade, depois de ter congelado a matrícula para preparar os Jogos", relata.

Concluído o curso de Gestão e Planeamento em Turismo, em 2003, concorreu ao concurso Empreendedores do Futuro, na Madeira, e o seu projeto ganhou, tendo beneficiado de incentivos para a constituição da empresa Madeira Wind Birds, especializada em observação de aves. "Na altura, éramos gozados pelos rececionistas quando íamos apresentar o projeto aos hotéis, pois ninguém fazia a mínima ideia do que era o birdwatching, mas agora temos um grande sucesso, e se esta atividade está desenvolvida na Madeira, é devido ao nosso trabalho", enaltece.

Catarina gere a empresa juntamente com o seu companheiro. No início, o projeto contemplava unicamente a observação de aves em terra, mas o crescente sucesso trouxe maior capacidade de investimento e em 2010 passaram a organizar observação de aves no mar. Catarina destaca três espécies que apenas podem ser observadas na ilha: o pombo-torcaz, a estrelinha-da-madeira e a freira--da-madeira, a sua preferida, "uma ave marinha que só aparece de noite em terra".

O seu trabalho ocupa-lhe 12 a 14 horas diárias na primavera e no verão, mas nos restantes meses do ano está quase parado. Nessa altura, ajuda o seu companheiro numa empresa de tecnologia que lhe pertence. Atualmente, até pode bater alguma saudade quando vê alguém a praticar vela, mas logo pensa que o seu tempo "há muito passou", confessando--se "muito feliz" com a sua atual ocupação.

Silvestre Pereira

Referência das canoas e das pedras

› Nome histórico da canoagem portuguesa em canoa, Silvestre Pereira atingiu as meias-finais nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Aos 30 anos, decidiu dar por terminada a carreira como atleta de alta competição para assumir em exclusivo o trabalho na empresa de mármores e granito que pertencia ao seu pai. Hoje é ele o principal responsável da Mármores Bom Sucesso. "Já lá vão 20 anos e o negócio continua a ir muito bem. Do Porto para cima, vou a todo o lado de onde me chamam para realizar trabalhos", conta, ele que vive na vila de Prado, no Minho.

No entanto, mesmo quando era atleta, já trabalhava na pedra. "Treinava no rio às seis da manhã e ao final da tarde e durante o dia já ajudava o meu pai na empresa. Não era fácil, mas ter tido tantas atividades foi muito positivo para o meu desenvolvimento pessoal e profissional", considera.

O final da vida de desportista foi traumático, mas não propriamente pelo facto de ter abandonado precocemente, quando ainda estava no auge. "A Federação Portuguesa de Canoagem deixou de ter verbas para pagar aos atletas e nunca cheguei a ver o dinheiro que me ficaram a dever, ficando a "arder" em dez mil euros", lamenta. Valeu-lhe o sucesso da empresa. "Sou muito feliz e consigo sustentar a minha família. Trabalho bastante e não tenho horas para largar o trabalho, enquanto for preciso tenho de lá estar... Mas não me posso queixar, até porque o pior da crise económica já passou", refere, confessando que não se vê a ter outra atividade: "Se abandonasse este trabalho qual seria o meu futuro? Está tudo montado e a funcionar na perfeição, não há razão para mudar."

Silvestre tem 44 anos e continua a praticar canoagem, em torneios de veteranos. Há poucas semanas, participou no Campeonato Europeu de Maratonas, em canoagem, que se realizou em Pontevedra (Espanha). É uma forma de compensar a saudade que sente do tempo em que era atleta. "Que saudades tenho dos estágios, do convívio com os meus colegas... Mas ainda estou em forma!", atira.

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