Bancário português está a tornar os Jogos mais justos

Samuel Lopes é o primeiro a desempenhar esta função nos Jogos. Ao DN, mostrou como funciona todo o sistema no bunker do Estádio Olímpico, durante os 100 metros

"Não houve incidente nenhum". A conclusão rápida é de Samuel Lopes, o português que foi escolhido para ser o primeiro videoárbitro da história dos Jogos Olímpicos. Numa pequena sala no piso 0 do Estádio Olímpico, acabou de observar as meias-finais dos 100 metros em que participou Usain Bolt. Desta vez não precisou de agir, mas se através das dezenas de câmaras espalhadas pelo estádio, em locais específicos definidos por ele, fosse detetada alguma irregularidade não assinalada pelos árbitros de pista, caberia a Samuel Lopes a decisão de punir o atleta em causa.

"Estou aqui como árbitro de vídeo, o que é uma nova função. Até aos Jogos do Rio a nossa tarefa era mais de supervisão dos árbitros locais. Mas agora temos intervenção direta nas decisões. A minha função é verificar se há algum incidente nas provas e tomar decisões na hora, a partir desta sala. Num primeiro momento é o árbitro local que decide, mas nós podemos corrigir, como aconteceu ontem (sábado)".

Samuel Lopes, 49 anos, bancário de profissão no Novo Banco e atual vice-presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, recebeu o DN na sala onde são escrutinadas as provas de atletismo através da imagem. Está acompanhado por quatro técnicos ingleses da empresa Hawk-Eye - "eles sabem usar a tecnologia e eu sei julgar o que se vê nas imagens" - e por um árbitro brasileiro com quem pode trocar dúvidas.

O espaço é pequeno, no fundo de um corredor. Quatro secretárias, sete monitores de alta resolução, um servidor com dezenas de cabos ligados e pouco mais. O ex-atleta de fundo, que seguiu carreira na arbitragem, mostra-nos as imagens da situação que o obrigou a reverter o que o árbitro decidiu.

Aconteceu na final de salto em comprimento. O quarto ensaio do britânico Greg Rutherford foi considerado nulo. O árbitro de campo sai da cadeira para justificar a decisão e aponta para a tira de plasticina que é colocada no início da tábua de chamada e que serve para tirar dúvidas se o atleta pisou a linha limite antes de saltar. A plasticina tem marcas. No entanto, na sala do videoárbitro, faz-se zoom ao pé do atleta e vê-se claramente que não pisou a plasticina. Explicação: a tábua de chamada é feita de madeira e a marca foi provocada por uma lasca que saltou. No "bunker" do videoárbitro, como Samuel Lopes lhe chama, nem sempre as comunicações são boas. Desta vez teve de sair à pressa para explicar ao juiz de campo porque é que tinha revertido a decisão.

Na mesma prova aconteceria outro caso. "Este provocou uma reação do público. No último ensaio, um atleta (o norte-americano Jarrion Lawson) saltou para uma marca que aparentemente lhe dava medalha. Mas com recurso às imagens vemos que ele deixou o braço para trás quando caiu e é essa a marca na areia que vale para a contagem. O salto foi mais curto do que parecia, mas público não percebeu", conta.

Dez mil frames por segundo
Samuel Lopes concorda, por isso, que está a ajudar os Jogos a tornarem-se mas justos: "A ideia é essa, fazer com que tudo seja mais transparente e justo para todos. É algo que prezamos muito no atletismo". Para o ajudar conta com "equipamento topo de gama". Há 31 anos na arbitragem, tendo subido até à categoria máxima de oficial internacional, tem acompanhado com satisfação todas as inovações tecnológicas. "Por exemplo, na medição dos lançamentos começámos por usar fitas de plástico. Depois foram as de aço. Veio então um sistema eletrónico do mesmo género do que é usado pelos topógrafos. Neste momento é tudo feito através de câmaras. Já não anda ninguém lá dentro a medir nada. O que temos aqui é tudo material topo de gama. A câmara que faz o photo-finish, por exemplo, tem uma capacidade de 10 mil frames por segundo, o que é enorme".

Mas tanta tecnologia significa que hoje seja impossível escapar alguma infração? Não. E há casos em que, mesmo com as melhores imagens, só a intervenção humana é eficaz: "Não é frequente, mas podem existir ângulos mortos ou casos em que alguém tapou a câmara. E além disso há situações que precisam de ser interpretadas, porque pode acontecer algo que não encaixa nas regras. E aí o que conta é a experiência do árbitro".

Até ao momento, foram já apresentados vários protestos verbais, mas Samuel Lopes diz que uma simples visita ao "bunker" do piso 0 tem servido para acabar com as dúvidas de quem reclama. Até domingo, só em dois casos é que o protesto passou a escrito - um do Guam nas eliminatórias dos 800 metros e outro da Polónia nas meias-finais da mesma disciplina. O júri de apelo, entidade máxima de recurso, recusou ambos. "Acho que é daquele casos em que quem reclama quer tentar a sua sorte", diz Samuel Lopes.

Os melhores árbitros do mundo
O lisboeta não esconde o orgulho pelo papel inédito que desempenha no Rio, apesar de só poder dormir "três a quatro horas por dia". Sente que também está a representar o país, fruto dos resultados que obteve nas provas de certificação que se realizam de quatro em quatro anos e onde acabou classificado entre os primeiros, abrindo-lhe as portas do Mundial 2015 e dos Jogos do Rio. "Em Portugal temos dos melhores árbitros do Mundo no atletismo. Ao todo, somos quatro oficiais internacionais e só há um país com tantos, que é a Austrália. Percebemos que mesmo num país pequenino como o nosso, com muitas dificuldades, podemos ter dos melhores do Mundo naquilo que fazem. O problema é o abismo entre a elite da arbitragem e o resto. Não temos pistas, infraestruturas, não temos dinheiro. Já sabemos como é: o futebol tem condições enquanto as outras modalidades sentem dificuldades no dia-a-dia", lamenta.

O trabalho da noite ainda não acabou. Falta a cereja no topo do bolo, a final dos 100 metros. Bolt corre para o ouro. Mais uma vez sem qualquer infração à vista, como certifica o videoárbitro.

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