Banana do Fogo com caldo de peixe. A receita do boxe de Cabo Verde

Pugilista Davilson Morais troca os tachos e panelas da guarda costeira, na ilha de Santo Antão, para representar o país no Rio de Janeiro. Experimentou o futebol, tentou o andebol mas o chamamento do boxe foi mais forte

Davilson Morais dá nas vistas. Na zona internacional da Aldeia Olímpica há quem acabe de o conhecer e já peça para tirar fotos ao lado do possante mulato, de olhos claros, 1,88 m, que se prepara para competir na categoria de superpesos-pesados (+91 kg) com as cores de Cabo Verde.

Cozinheiro na guarda costeira, aos 27 anos Davilson prepara-se para enfrentar adversários com muito melhores condições de treino, na primeira vez em que profissionais foram admitidos nos Jogos. "São regras, temos de respeitar", encerra o assunto com disciplina militar. Esta é a segunda vez que o boxe de Cabo Verde está presente nos Jogos - a primeira foi com Flávio Furtado (atual presidente da federação de boxe do país), em Atenas 2004. No Rio 2016 a delegação cabo-verdiana conta com mais quatro atletas: Lidiane Lopes (eliminada ontem nos 100 m, mas com um novo recorde - 12,38s), Eliane Boal (ginástica rítmica), Jordin Andrade (400 metros barreiras) e Maria Andrade, também conhecida como Zezinha, que vai competir na disciplina de taekwondo. É a maior participação de sempre desde a primeira aparição em Jogos Olímpicos (Atlanta nos Estados Unidos da América, em 1996), três anos depois de o país ser reconhecido pelo Comité Olímpico Internacional.

Dos cinco atletas presentes no Rio de Janeiro só Davilson vive e trabalha em Cabo Verde, na ilha de Santo Antão, o ponto mais ocidental do continente africano, onde os seus pratos alimentam os militares da guarda costeira. As artes da cozinha aprendeu-as com uma avó. "Desde pequeno que gostava de estar na cozinha, a ver o que ela fazia. Infelizmente, já morreu mas guardo na memória alguns dos pratos que fazia. Lembro-me bem de um: banana [da ilha] do Fogo com caldo de peixe. Devo a ela o incentivo de seguir esta profissão", revela ao DN. O gosto de pequeno foi aumentando com os anos e quando entrou ao serviço das Forças Armadas surgiu a oportunidade de frequentar uma formação e, mais tarde, agarrar uma vaga como cozinheiro, onde serve militares "que gostam de tudo e querem variedade nos pratos". Ao mesmo tempo, continuou a jogar andebol num clube local, já depois de também ter sido futebolista.

O boxe apareceu um pouco mais tarde. Mas foi levado a sério, principalmente quando viu abrir--se a possibilidade de ir aos Jogos Olímpicos, confirmada já em 2016 no torneio de qualificação disputado nos Camarões.

"No último ano deixei o andebol de lado para me dedicar por inteiro ao boxe. Foi também uma maneira de evitar lesões, que podem acontecer a qualquer momento. Tenho muito orgulho em estar aqui e quero chegar o mais longe que conseguir. Não queria de modo nenhum colocar isso em causa", diz ao DN. A dedicação é apenas a possível: uma a duas horas de treino por dia, na academia do Comando da 1.ª Região Militar, sob supervisão do sargento principal Adilson Gomes. "Tenho de trabalhar", volta a recordar Davilson, que não rejeita ver o filho de 4 anos seguir as suas pisadas no boxe: "Ele já gosta de lutar. Por mim tudo bem. Não acho que o boxe seja um desporto violento."

Poucos profissionais

A porta de entrada a profissionais nos Jogos Olímpicos foi aberta, mas os grandes nomes do boxe não vão estar no Rio de Janeiro.

Na verdade, apenas três profissionais marcam presença: Hassan N"Dam (Camarões), Amnat Ruenroeng (Tailândia) e Carmine Tommasone (Itália). A alteração mais visível é o facto de os pugilistas do torneio masculino passarem a disputar os combates sem capacete. Ainda que a adesão dos profissionais tenha sido escassa, o nível de preparação entre Davilson e outros competidores pode ser muito diferente, como admite ao DN Dulcídio Ferrer, fisioterapeuta da comitiva.

"O Davilson tem um problema, que é não ter adversário da categoria de peso dele para competir e treinar. Isso deixa-o em desvantagem, apesar de ele fisicamente estar bem e de psicologicamente achar que é possível ter um bom desempenho. Mas era preciso um outro trabalho, que passava por estagiar em países com mais condições, onde também pudesse competir, para poder estar ao nível dos outros", diz Ferrer. Os últimos dias antes de entrar na competição têm sido mais intensos, com treinos bidiários à procura de compensar o tempo perdido, já depois de um período de estágio num centro de alto rendimento em Cuba. "É verdade que têm uma vantagem, mas eu já vi muitos profissionais tombarem noutros desportos", continua o fisioterapeuta, frisando que o palco no Rio é a maior montra a que um atleta amador pode aspirar e que uma boa prova pode trazer novas oportunidades. Davilson estreia-se hoje nos Jogos Olímpicos, indo defrontar o britânico Joe Joyce

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